Tri

5 passos para fundar uma religião (com exemplos)

Certa época, um imperador mirava um território, mas antes de decidir pela invasão, consultava um líder espiritual que, por sua vez, conversava com os “deuses” e instigava a ação de todo um império. A religião, então, criava o futuro de toda uma nação.

Não é muito diferente hoje, vide o Estado Islâmico e outros extremistas. Mas, no ambiente sociopolítico, isso acontece dentro das Câmaras de Deputados, Senados e murmúrios nos ouvidos de presidentes.

E não só, mas na vida das pessoas também: o que vestem (religião dita moda), que música ouvem ou o que podem assistir (religião é crítica cultural, meu bem), como devem se comportar (religião é quase pai e mãe e tia e vó). Religião é trendsetter.

Criar uma religião significa gerar poder. E quem não quer poder? Já diria Frank Underwood, em House Of Cards:

“He chose money over power. In this town, a mistake nearly everyone makes. Money is the Mc-mansion in Sarasota that starts falling apart after 10 years. Power is the old stone building that stands for centuries. I cannot respect someone who doesn’t see the difference.”
“Ele escolheu dinheiro em vez de poder. Nessa cidade, é um erro que quase todo mundo comete. Dinheiro é a mansão em Sarasota que começa a desmoronar depois de dez anos. Poder é a rocha antiga que perdura por séculos. Não consigo respeitar quem não enxerga a diferença.”

Imagine então algo em que você ganha dinheiro e poder. Imaginou? Voilá, religião.

Me sinto com vontade de criar uma também. E no Brasil tem aquela parte maravilhosa dos impostos. Basta então dirigir meu olhar às religiões existentes, encontrar pontos comuns e me jogar.

COSMOGONIA

Uma historinha básica sobre a criação do Universo e tudo o mais. Não precisa explicar muito. Dê um jeito de, no final, chegarmos ao ponto que estamos, com Terra, Sol, e tudo o mais. Quanto mais rudimentar e mágico, melhor. Se possível, envolva uma Inteligência Superior, mas não se esqueça de uma figura humana que se sacrificou por todos nós e que deve estar conectada, nem que seja pelo celular, com a Inteligência Superior. Vou tentar.

Nos confins do Branco (numa folha qualquer eu desenho), uma Linha Reta infinita se dirigia ao Tudo e ao Nada. Tão interminável e sem propósito, a Linha Reta era instável. Passou a se dobrar até o ponto que se tornou um Círculo. Tão instáveis os círculos são que assim se quebraram também. Os muitos pedaços infinitos se aglomeraram em outras linhas, que formaram outras retas, num ciclo interminável, povoando o Branco de tantas linhas e círculos que formaram o Multiverso. Em cada Círculo do Multiverso, muitas outras retas se aglomeraram, e formaram uma nova forma: o Triângulo. Poderosíssimo Tri.

Essa inteligência superior de três pontas surgiu na abóbada para dar fim à multiplicação de círculos e retas. Criou sozinha, dobrando retas e aplicando cola Pritt, os círculos com propósito: os astros, para preencher o Multiverso de pontos brancos, e uns lugarezinhos mais frios. Esses eram os planetas, para preencher com outras cores e formas. As outras cores e formas, Tri decidiu, chamaria todas elas de:

Vida.

O Triângulo, em suas experimentações, tratou de gerar novas formas e apêndices para outras formas, criando muita Vida, muita Vida. Podemos dizer,então, que com um círculo e 5 retas é fácil fazer um Ser Humano. Nasceu então a Humanidade. O Triângulo dotou o círculo no topo de cada ser humano de alguma inteligência (não toda, para não usurpá-lo) e achou que era bom. Deu ao SH (ser humano) um planeta, o nome do círculo cheio de formas exuberantes, prazerosas e coloridas, para o SH brincar e — cataploft — desapareceu.

Como toda Cosmogonia, é preciso um livro de revelações. O meu se chamará Livro das Formas. Que é pouco vendável. Talvez eu chame de Reta, Círculo, Você. Mais marketing, né?

Ah, e eu preciso fazer com que o livro seja impresso há 3.000 anos atrás (nem que seja mentira) para que os povos sem ciência tentem explicar a natureza à sua volta com religião e se deparem com uma explicação em um livro “sagrado”. Ou que as pessoas de hoje acreditem em algo que foi escrito antes da existência do fact check.

DOGMA

A verdade incontestável de uma religião é chamada de dogma. Então, nesse caso, o Triângulo criou o Multiverso (não, foi o contrário, mas abafa: livros sagrados são inconsistentes mesmo) e tudo o mais e fez do centro de vários universos, é claro, o SH. O Multiverso só existe para o SH existir. Claro. Somos únicos. Especiais. Premium. O centro de Tudo.

A forma complexa denominada Ser Humano (SH) carrega em si alguns dos elementos para se transformar em Triângulo. Nessa busca incessante, toda uma vida é construída com o objetivo de se triangularizar, mas sabemos que, ao final, nos tornaremos apenas linha reta.

O caminho para a Triangularização, a iluminação, é o caminho da retidão, é claro. Nessa religião o importante é não dar vazão aos sentimentos, que são impuros, mas à objetividade e ao pragmatismo. Sem eles, não há retidão.

Foi isso o que me foi revelado (toda religião foi revelada a um humano, de preferência um homem heterossexual cisgênero — not my case). A revelação me veio a bordo de um fretado contemplando o rio mais famoso da minha cidade: o Tietê (importante estar em meio à natureza quando acontecer a revelação. Uma divindade só se mostra diante de uma paisagem bucólica).

Também é preciso narrar o Apocalipse. Um dogma, a priori, não é quase nada sem o Fim Dos Dias. O medo da morte eminente, de um futuro que destrói tudo, é o que move a maioria das pessoas a acreditar. Na minha Revelação, vi o Triângulo se desfazendo em círculos e atingindo a Terra, levando consigo toda a Raça Humana. Os círculos que caem, explodem e se transformam em Quadrados, os filhos do Triângulo.

Ninguém se salvará. Nem mesmo os mais corretos. Apenas aqueles que viveram em objetividade durante a vida poderão passar pelos Quadrados, os filhos, que são ao mesmo tempo portais.

Quem julga a objetividade é o Quadrado: a passagem para o outro Universo dentro da vastidão de outros Universos do Multiverso. Lá você terá outra chance em uma nova jornada de retidão e poderá escolher em que forma, em que lugar, com qual riqueza e qual condições irá viver. E também o valor exato da sua conta bancária. Lembre-se: só os mais objetivos.

Os que não viveram em objetividade, serão imediatamente reduzidos a pontos perdidos na imensidão do Multiverso. Sem forma e sem chance de recobrar a existência. Para sempre esquecidos.

Ah, equipare, de alguma forma absurda, a religião à ciência. E apresente pontos obscuros (mas com cara científica, talvez adotando alguma filosofia de três séculos atrás) para que aqueles mais céticos sejam atraídos, ou para aqueles que questionam um tantinho não fiquem desanimados em acreditar em tanta baboseira para dar sentido às suas vidas.

CONDUTA

Viver uma vida de retidão exige objetividade. Não perca tempo. Vive-se uma vez com esse círculo em sua cabeça. Depois, se tiver um bom julgamento por um dos milhares Quadrados que se erguerão, você terá nova chance em outro Universo.

Ser objetivo implica em algumas coisas na vida. Veja a tábua das leis:

1 — Não enviarás indireta no Facebook;
2 — Não perderás tempo com energia negativa;
3 — Não enviarás correntes em grupos de WhatsApp;
4 — Não irás mais mentir;
6 — Irás dizer não quando tiver vontade;
7 — Não serás mais hipócrita.

E muitas outras mais. Não são Dez Mandamentos. São mais de mil reunidos num outro livro: o Livro da Retidão. Importante quando a religião tem um outro livro importante além do livro que narra a cosmogonia e história da humanidade.

Saliento: seguindo a tendência, minha religião não menciona de forma clara nos livros alguns pontos sensíveis sobre o viver em sociedade. Mas é preciso se posicionar, vorazmente, sobre questões como homossexualidade, aborto, redenção de criminosos, direitos humanos, política, pesquisas de células-tronco, estupro, etc.

TEMPLO

Não é preciso ser adivinho. O design da igreja precisa ser triangular. A abóbada da igreja contém o símbolo máximo da religião:

Tri-Circ-Quad

Todas as formas do templo devem remeter às formas primárias. Tudo muito simplório para transmitir humildade. Sem opulência, portanto. À medida que empregarmos métodos de arrecadação de dinheiro e o tempo passar, seguindo a regra da evolução das igrejas, cresceremos exponencialmente e o projeto feito por um grande arquiteto que emprega formas primárias será erguido em uma grande cidade, e poderemos, enfim, ter a nossa própria Pirâmide, em nosso país. Que orgulho.

ATUAÇÃO (item não divulgado ao público)

Nossos padres passarão por cursos de atuação para que possam enfaticamente demonstrar seu amor pelo deus Triângulo. Todas as vezes em que dizem que conversam com Deus, devem conseguir emitir uma lágrima que desce forçosamente. Do lado esquerdo do rosto. Isso é convenção de nossa igreja.

As conversas com o deus Tri podem acontecer no momento do culto, inclusive, para causar maior catarse e solidificar a aparência de que apenas seres escolhidos e iluminados (os triangulares, conhecidos em outras igrejas como pastores ou padres) recebem a revelação frente aos seres sem retidão (irretos, em nossa religião).

Uma cerimônia de expulsão evoca o Polígono, equivalente ao Coisa Ruim, Diabo e Demônio em outras, momento em que os irretos (ovelhas, fiéis, devotos, ou outras denominações em outras) se atiram e se contorcem em cinco ou mais linhas retas no chão.

Lembrando que é preciso evocar o Polígono de forma ficcional nas aulas de teatro da igreja, repassando o conhecimento para que ele aconteça durante os cultos.

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Ao fim de todos esses passos, pronto, você terá uma religião! Parabéns!

Bônus

  • Recolha os dividendos exigindo metade do salário dos irretos em todo o culto.
  • Faça uma parceria com alguma administradora de cartão para arrecadar fundos.
  • Exija nas redes sociais da igreja que haja contribuição.
  • Contrate uma agência de eventos e promova sem medo o nosso culto.
  • Acima de tudo, aproveite: você não paga impostos como todos os outros estabele… cultos.
  • E tenha penetração política, de forma a obter a maioria na bancada da Câmara ou, quiçá, tomara, do Senado. Assim, a busca pelo Poder foi executada com perfeição!

Adendo final

Se as pessoas defendem a crença no deus Tri com unhas e dentes nas redes sociais, você já deve estar em Dubai celebrando o sucesso da nova religião, a bordo de uma lancha.

Eu sou o Valmir Martins, produzo conteúdo aqui e no Youtube, no meu canal lá: textos aqui que reverberam lá e vídeos lá que reverberam aqui. Se inscreve lá, se inscreve aqui, faz o que você quiser.
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