O processo de aprender mais de 20 trabalhos

#somostodoshércules


Héracles, de robusto-coração, e poderoso Titã, de mãos fortes, indomável, autor de valentes feitos

Qualquer um que queira se tornar um poliglota hoje dispõe de uma série de truques para alcançar tal objetivo. Duolingo, Busuu, cursos e mais cursos de línguas proliferados internet afora e vida não-digital afora. Oferta farta e fardo garantido. Aplicativos mil, dicionários online para todos os gostos. Só não é poliglota quem não quer. Mas como o senso comum diz que não temos limites, tem gente que prefere substituir o poli- por híper-. Prefixo é bobeira.

Os hiperglotas.

Numa matéria da BBC, How To Learn 20 Languages, eles clamam falar mais de 20 línguas. Muitas vezes 20 línguas e outras 20 no curso de serem aprendidas. É como se o corpo humano fosse uma tabula rasa 3D, pronta para ser modificada a seu bel-prazer. Ou ao de outrem.

Imagine, portanto, que

se seu corpo é tão flexível assim a ponto de aprender 20 línguas, ele pudesse — e ele não pode, grifo totalmente meu — aprender 20 ofícios diferentes e tão distintos entre si quanto:
  • Mecânico;
  • Engenheiro petrolífero;
  • Ator;
  • Físico quântico (de renome, vai);
  • Stand-up comedian;
  • Faxineiro;
  • Controller;
  • Caixa de banco;
  • Policial militar;
  • Atuário;
  • Estatístico;
  • Biomédico;
  • Designer de moda;
  • Amigo profissional (é, isso é uma profissão);
  • Personal trainer;
  • Dog walker;
  • Sociólogo;
  • Diplomata;
  • Deputado federal (dizem que é uma profissão);
  • E, finalmente, veterinário.

Mas como esse é um conto dentro de um artigo, iremos ter essa pessoa. Joga um nome aí, vai, Valmir. Melhor não dar um sexo para essa pessoa multitarefas: então essa pessoa se chama Err.

Se Err soubesse o que a gente chama de “lavar, passar, cozinhar, fazer sexo e assobiar ao mesmo tempo em que chupa cana”, ele seria um super-humano.

Err então, com seu superpoder de todos os trabalhos diferentes encucados na mente provavelmente ficaria bem doido quando chegasse a hora do vestibular. Até porque TODO MUNDO fica bem doido na hora do vestibular.

Na escala de um 1 a 20, qual seria o seu ranking de “sou bom nisso?” Para Err, essa escala seria falhíssima, destruidoríssima, inaceitabilíssima. Ora, Err sabe fazer bem todas essas coisas. Se alguém pergunta qual é o problema do relé elétrico do motor, Err aponta. Qual o nome daquele teórico que via o ator como um instrumento santo? Grotowsky, poxa. Ninguém quer tocar naquele diabo dos reportes estatutários, mas o controller quer. Aqueles 17 cachorros que precisam de uma passeada e uma aliviada (tanto urinária quanto fecal) necessitam de um líder, um andante, um walker. E a imagenologia? O biomédico está ali para fazer uma leitura apurada da tomografia computadorizada que um atuário jamais faria, apesar do atuário ser fera em amortizações e planos estratégicos de investimento, coisa que o biomédico faria chorando, se é que faria. O que não é o caso de nosso Err.

Nosso Err é sabichão. Mata o Leão de Nemeia, enquanto pisa na Hidra de Lerna, transpõe o rio para limpar os estábulos de Augias e bebe na corte de Admeto até decidir retirar Alceste do inferno por falar tanta bobajada. Err é Hércules.

Problema é seguir carreira sendo tão bom em tantas coisas assim. Err poderia se dedicar a uma profissão apenas, mas seus dotes são tantos que ele ficaria frustrado.

Sirvo pra tudo, portanto sirvo pra nada.

Os hiperglotas conseguem, como a matéria da BBC nos descreve, falar em várias línguas em uma mesma frase. Então fazendo a analogia, Err seria capaz SIM de assobiar e chupar cana, por assim dizer.

Numa hipotética Câmara de Deputados com quórum, bem hipotética porque isso não acontece, Err iria votar, coisa bem hipotética mesmo, algum projeto de lei muito bom, mais hipotético impossível, enquanto encontraria a junção da Teoria da Relatividade com a da Física Quântica. Isso com as mãos na equação e a boca fazendo um discurso. Os pés? Estariam aperfeiçoando exercícios de alongamento.

Uma imagem bem estranha.

Err não existe.

Ainda bem.

De qualquer forma, somos os Hércules da nossa era, capazes de sermos multitarefa, mesmo que tudo saia uma merda. As coisas saem pelo menos. Uma merda. Mas saem. Err é utópico.

Os hiperglotas não.

Eles existem.

E você pode ter inveja de não conseguir falar nem “How are you”.

Valmir Martins é escritor, jornalista e ator. Agora usa Medium para divulgar seu trabalho com contos divididos em partes, contos soltos, reflexões. Seu mote é a literatura fantástica sem elfos, dragões e essa porra toda. Modernidade fantástica. Já escreveu dois livros e quer ser publicado, é claro. Não tem blog próprio. O Medium já tá de bom tamanho.
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