Aprendizagem Corporativa e Memória

Será que aprendizagem e memória têm o mesmo conceito? O que você acha?

Em primeiro lugar, vamos ser claros sobre as definições. Quando falamos em educação corporativa, vale lembrar que, trata-se de programas de atualização de conhecimento alinhados à estratégia do negócio. Podemos caracterizar a aprendizagem corporativa como o processo de aquisição de informações e, a memória, a duração dessa aprendizagem de tal forma que possa ser apresentada posteriormente e, aplicada ao dia a dia no ambiente de trabalho. A memória é um mecanismo essencial para a aprendizagem, entretanto, aprendizagem e memória têm conceitos distintos. Se o colaborador tem boa saúde, a memória pode (e deve) ser estimulada; a memória não é unicamente biológica.

Através de vários processos o nosso cérebro cria registros duráveis da memória de longa duração; esse conhecimento pode ser relevante para as práticas relacionadas ao processo de ensino-aprendizagem. Um detalhe que você pode achar curioso é que boa parte da aprendizagem (e de nossa memória) se faz por mecanismos que não envolvem processos conscientes do cérebro, ou seja, aprendemos o tempo todo com a simplicidade da vida. Na perspectiva da neurociência cognitiva a memória processada de forma inconsciente é chamada de memória implícita (não declarativa), enquanto chamamos de memória explícita (declarativa), aquela que envolve os mecanismos conscientes.

Quando uma informação é considera relevante para o colaborador ela deve passar pelo filtro da atenção e, em seguida, por um processo de codificação. Por meio desse sistema a experiência da aprendizagem recebida provoca a ativação de neurônios, caracterizando a memória operacional. Visando a eficácia no processo de aprendizagem corporativa observemos três processos essenciais para que ocorra o aparecimento de um registro forte no cérebro, são eles:

  1. O processo de repetição;
  2. O processo de elaboração;
  3. O processo de consolidação.

Tente imaginar alguém que conhecesse apenas um macaco de cor preta em toda sua vida e que, de repente encontrasse um macaco com a cauda amarela. O novo conhecimento pode durar algum tempo, entretanto, se nunca mais se repetir, certamente poderá cair no esquecimento. Agora, se a visão do macaco de cauda amarela despertar a curiosidade desse indivíduo em buscar outras informações conversando com colegas, buscando ler sobre o assunto, pesquisando noGoogle etc., essas atividades irão trazer repetidamente conhecimentos (ou registros já existentes no cérebro) para um alto nível de ativação, tornando-os disponíveis para a memória operacional e permitindo que outras informações se incorporem ao conjunto, como, por exemplo, macacos podem ter outras cores, raças e tamanhos, são brincalhões, gostam de banana, pulam em árvores etc. Ou seja, todas essas novas informações estarão agora ligadas em uma rede de informações e conexões no cérebro, relacionada com o conceito “macaco”.

Como você certamente já deve ter notado, nesse processo, o uso da repetição da informação, juntamente com sua elaboração, ou seja, sua associação com registros já existentes fortalece a memória e a torna mais durável. No processo de aprendizagem corporativa, o colaborador pode simplesmente decorar uma nova informação ou conceito, contudo, o registro se tornará mais forte se procurarmos criar ativamente vínculos e relações daquele novo conteúdo com o que já está armazenado em seu cérebro, como, por exemplo, a própria cultura da empresa, o seu DNA. Vale ressaltar que, Gestão e Cultura são inerentes para o Líder de sucesso.

Em módulos de Desenvolvimento de Liderança o modelo de competências desenvolvido pela organização pode e deve ser relembrado, pois geralmente descreve competências ou características consideradas fundamentais para a excelência do trabalho dos Gestores na organização. Analisar essas competências e relacioná-las com as novas informações pode ser um exercício de reflexão que ajuda os colaboradores a identificar competências que se considere mais fortalecido e a identificar seus gaps para aquelas que precisem de maior atenção e dedicação. Nesse sentido, o processo de ensino-aprendizagem poderá contribuir para o seu autoconhecimento, ferramenta essencial para um Líder eficaz.

“O treinamento que você oferece tem que contribuir — visível e substancialmente — para a concretização das estratégias comerciais de seus Clientes.” — Van Adelsberg e Trolley

Nesse contexto, conteúdos aprendidos utilizando um nível mais complexo deelaboração terão mais chance de se tornarem um registro forte, uma vez que mais redes neurais estarão envolvidas nesse processo. Ou seja, é fundamental conhecer profundamente a organização antes de desenhar um Módulo de Formação ou uma Trilha de Aprendizagem para desenvolver competências e habilidades comportamentais; só assim, será possível se beneficiar da contribuição da neurociência cognitiva para apresentar resultados mensuráveis para o negócio. Como disse Van Adelsberg e Trolley, “o treinamento que você oferece tem que contribuir — visível e substancialmente — para a concretização das estratégias comerciais de seus Clientes”.

“Aprendemos ensinando.” — Sêneca

Pela mesma razão, além do processamento verbal é essencial utilizar vários canais sensoriais de acesso ao cérebro dos colaboradores, como, por exemplo, práticas que envolvam o corpo (Role play), imagens de vídeo, músicas etc. Usar canais diferentes para a informação chegar ao cérebro são muito eficazes; nesse sentido, atividades em pequenos grupos seguidas de uma apresentação para os colegas, podem gerar excelentes resultados. Afinal, como disse Sêneca, “aprendemos ensinando”.

Como sabemos, os registros podem ser fracos ou fortes, entretanto, são os processos de repetição e elaboração que vão determinar a força do registro. Podemos dizer que o nível de ativação tem a ver com a disponibilidade, em determinado momento, para atingir a consciência. Por exemplo, imagens de bananas poderão trazer à tona, informações conhecidas sobre os macacos.

O cérebro humano armazena a memória de forma fragmentada, podemos dizer que é como um computador que contém vários arquivos organizados em diretórios. Por exemplo, quando você tenta lembrar de algo que aprendeu sobre determinado conteúdo, a memória que surge em sua consciência é construída por meio de uma ativação integrada. Por exemplo, quando falamos sobre “macaco” você pode ver a imagem visual do animal, essa será encontrada nas porções do cérebro que lidam com a visão; a impressão tátil que você possa ter ao lembrar o macaco (se já tocou o animal) estará armazenada nas áreas somestésicas do cérebro; a imagem auditiva será processada nas áreas relacionadas com audição e assim sucessivamente todas as áreas envolvidas na memória serão ativadas.

Como o nosso foco é a aprendizagem corporativa, vale lembrar que, as informações na memória explícita são organizadas sob a forma de redes. Cabe aqui comentar que, a memória declarativa (explícita) é subdividida em memória episódica e semântica:

  • Memória episódica: tem relação com nossas vidas pessoais; se refere ao “quando” e “onde”.
  • Memória semântica: esta se refere ao conhecimento; ou seja, é o “quê”, “como” e “por quê”.

Por exemplo, podemos saber que 3 x 7 = 21, isso faz parte da nossa memória semântica. Contudo, se nos lembrarmos de que aprendemos as operações matemáticas com uma determinada professora ou quando estudávamos em certa escola, isso pertencerá à memória episódica.

Em relação à memória implícita (que ocorre independente dos processos conscientes) essa memória também se divide em processos, entretanto o tipo mais importante, por ser o que mais usamos no dia a dia no trabalho, é o que chamamos de memória de procedimentos. Trata-se de uma memória sensório-motora que se manifesta quando executamos procedimentos ou habilidades no cotidiano; por exemplo, ao digitar com velocidade no seu computador ou smartphone. Essa habilidade se instaura essencialmente por meio de um processo de repetição. Um detalhe curioso é que diferente da memória explícita, ela não se organiza em redes no nosso cérebro.

O processo de consolidação é fundamental para que os registros no cérebro humano sejam armazenados por maior tempo, daí a importância do sono. É nesse processo que ocorre um remapeamento das conexões das redes de neurônios, a chamada neuroplasticidade. A alimentação é essencial nesse processo; essas alterações envolvem a produção de proteínas e outras substâncias que são utilizadas para o fortalecimento ou criação de sinapses. Vale ressaltar que, a eventual privação do sono pode impedir ou prejudicar o processo de ensino-aprendizagem corporativa.

Quanto ao esquecimento, você pode achar óbvio, entretanto, é importante lembrar que, assim como novas conexões sinápticas podem ser formadas por meio da prática, elas podem também ser desfeitas pelo seu não uso. Logo, boa parte do conteúdo no processo de ensino-aprendizagem poderá se perder ao longo do tempo, se não houver uma manutenção do aprendizado. Na perspectiva da neurociência cognitiva, há um esquecimento mais rápido no início do processo, seguido de uma curva de esquecimento que é mais lenta ao longo do tempo.

Portanto, quando falamos em eficácia no processo de aprendizagem corporativa, é importante ressaltar que estratégias bem estruturadas serão aquelas que atentem para os princípios do funcionamento do cérebro humano e que estejam alinhadas ao DNA (a cultura) da organização e, lógico, trazendo conteúdo com profundidade. O livro 6Ds — as seis disciplinas que transformam educação em resultado para o negócio, dos autores Calhoun Wick; Roy Pollock; Andrew Jefferson, apresenta uma estrutura de desempenho de ponta para otimizar esse processo. Em linhas gerais, é necessário determinar os resultados para o negócio; desenhar uma experiência completa; direcionar a aplicação; definir a transferência do aprendizado; dar apoio à performance; documentar os resultados.

Para finalizar, vale ressaltar que, é fundamental respeitar com simplicidade os princípios de aprendizagem e memória do cérebro humano; esse é um bom jeito de colaborar com a Aprendizagem Corporativa e, gerar resultados comerciais em parceria com os Clientes.

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Valter Bahia Filho Consultoria. Contato: valter.bahia@gmail.com