Desejos
Numa pacata cidade, de interior mesmo, três jovens se reúnem no cemitério durante o dia. São amigos de infância, porém sempre quiseram ter seus desejos realizados. O mais velho dos três, procurando com afinco, achou uma invocação com promessas de que teriam os desejos atendidos.

Eles seguiram para o centro do local, no monumento onde se ora para todos os enterrados ali.
— E então? Como faremos isso? Perguntou a garota.
— Eu achei uma forma que, aparentemente é válida, porém abriremos mãos de muitos anos de nossas vidas. Disse o mais velho que estava com o celular olhando as informações.
— Como assim? Perguntou o mais novo.
— Nossos desejos serão atendidos, independente do que sejam, porém não viveremos por muito tempo.
— Ah sim, entendi. Não tem problema, só quero ajudar minha mãe. Disse o mais novo.
O mais velho retirou um filtro dos sonhos da sacola que trazia.
— Tem certeza que vai funcionar aqui? Perguntou a garota.
— Imagino que sim. O site diz que é uma invocação simples. O cemitério é bom por ter muita energia. Tudo o que temos que faz é abrir um buraco.
— E só com esse filtro funcionará? Perguntou o mais novo.
— Sim. Usei meu próprio sangue. Disse o mais velho mostrando o curativo na mão.

— E o que precisamos fazer? Perguntou a garota.
— Apenas imaginem que o espírito está aqui e que está se tornando visível a nós.
Os dois se entreolharam e não levaram a sério, pois era simples demais e eles apenas viam aquelas coisas complicadas nos filmes, contudo fizeram conforme instruídos.
Sem saber como um espírito deveria se parecer, cada um imaginou algo diferente. O mais velho deixou o filtro dos sonhos no chão, imaginando que o espírito sairia dele. As informações que eles tinham falavam em espírito, porém a invocação trouxe outra coisa.
Eles ouviram palmas e procuraram a origem do som. Numa sepultura não muito distante deles, um ser estava sentado e batendo palmas.
— Não achei que crianças como vocês poderiam completar o ritual, porém parece que têm potencial. Ele tinha aparência humana, porém parte do rosto estava com uma cicatriz de queimadura e os olhos eram dourados. Nas pontas dos dedos, garras curtas. Uma cauda balançava, sendo visto por trás da cabeça.
— Então você é o espírito que concederá os desejos? Perguntou o mais novo.
— Desejos? — Disse parecendo confuso, levantou e se aproximou — Ah sim, claro. Para isso vocês me invocaram. Vocês humanos acreditam em qualquer coisa. Ofereceu uma solução rápida, correm desesperado para ela. Assim fica fácil demais.
— Fácil demais? Perguntou o mais velho.
O ser sorriu e encostou na cabeça do mais novo, ele revirou os olhos e caiu no chão.
— Uma alma já foi. Quem será o próximo?
O mais velho olhou o celular rapidamente, falava que o espírito invocado estaria preso ao filtro. Então ele pegou o filtro e tentou emitir ordens.
— Acho que já teria entendido que isso não vale de nada. Disse o ser fazendo o filtro incendiar com a força de pensamento.
A menina saiu correndo. O mais velho não teve chance, o ser tocou a cabeça dele e ele caiu no chão.
O ser sorriu e desceu devagar o cemitério.

— Que pena, uma fugiu. Vou ter que procurar. Disse esfregando as mãos — aproveitar e levar umas extras, ele ficará feliz.
A medida que descia e ia encontrando outras pessoas, ia roubando as almas, a menina corria desesperada. O ser olhou ao redor, viu um relógio.
— Uma hora, conforme o combinado. Disse para ninguém em particular.
Ele fechou a expressão e despareceu, surgindo atrás da menina que estava sentada extremamente cansada.
— Eu fico curioso. Por que vocês correm? Acham que podem fugir do sobrenatural?
A menina olhou para trás assustada, porém estava cansada demais para correr mais. O ser tocou na cabeça dela, porém ela não caiu, apenas tem o corpo invadido.
— Agora, dessa forma, posso levar mais almas. Tenho que me atentar ao tempo. Disse já andando sem rumo, procurando mais pessoas.