Ibeji

Vamberto Junior
Aug 27, 2017 · 5 min read

Duas crianças correndo pela cidade, aparentemente brincando, ninguém, adulto, conseguia ver o motivo da corrida, outras crianças viam e se assustavam, tentando explicar para os pais e mães, mas ninguém acreditava.

Elas estão começando a cansar, mas o destino está próximo, elas se lançaram dentro da casa de uma mãe de santo.

— O que houve? Ela perguntou — Quem são vocês?

— Por favor, deixe que fiquemos aqui um pouco. Disse o menino ofegante enquanto ajudava a amiga a se sentar.

— O que está acontecendo? Estão sendo perseguidas? Perguntou ela olhando para fora da casa.

— De certa forma. Você não acreditaria se a gente contasse. Disse o menino.

— Posso tomar água? Perguntou a menina levantando devagar.

— Claro — disse a mãe de santo a levando para a cozinha — gelada?

Ela assentiu. O menino olhou pela janela, os perseguidores ainda estavam ali. Eram mulheres com corpo de serpente. Esticavam os braços para tentar alcançá-los, porém a casa era protegida.

— Vocês não podem nos alcançar aqui. Sussurrou o menino.

— Quem não pode? Perguntou a mãe de santo, já de volta com a menina tomando água.

— Vocês não podem mais vê-las. São perigosas.

A mãe de santo se sacudiu, incorporou um Ibeji.

— Não se preocupem, elas não vão poder entrar, porém vocês não poderão ficar aqui para sempre, suas famílias vão ficar preocupadas. Disse a mãe incorporada com trejeitos infantis.

— Mas se sairmos, seremos capturados. Disse a menina.

— Isso é verdade. Não tem o contato dos seus pais? Elas não poderão encostar em vocês se seus pais estiverem juntos.

— Não temos. Disse o menino sem tirar os olhos da janela, haviam três mulheres serpentes.

O Ibeji olhou ao redor, se aproximou de onde a mãe de santo deixava os objetos dos orixás, pegou duas cabacinhas.

— Aqui — ele disse entregando uma a cada um — vamos impedir que elas se aproximem até que cheguem em casa.

— Vamos? Perguntou a menina.

— Eu e meu irmão.

— Vai funcionar? Perguntou o menino.

Sem resposta, a mãe de santo voltou a consciência e os dois explicaram o ocorrido.

— Se ele entregou a vocês, vai dar certo. O que quer que esteja perseguindo vocês será repelido.

— Certeza? Perguntou novamente o menino.

— Sim. Acreditem que vai.

Os dois se olharam e se preparam para sair. Assim que abriram a porta, as mulheres sibilaram mais, eles ficaram com medo, mas seguiram em frente, de mãos dadas e segurando, cada um, uma cabacinha.

Assim que eles saíram da casa da mãe de santo, as mulheres tentaram tocá-los, porém os gêmeos surgiram, impedindo que elas fossem tocadas.

— Voltem para os lugares de onde vieram. Disse um dos Ibeji fazendo duas se afastarem com rajadas de vento.

O outro estava segurando a terceira pelos pulsos.

— Não deixaremos que machuquem elas. Disse o que segurava os pulsos, fazendo com que vento criasse cortes pelo corpo da mulher serpente.

Elas sibilavam, estavam irritadas, queriam as crianças. Os Ibejis seguiram as crianças durante todo o caminho. As mulheres vinham atrás.

— Será que isso vai funcionar sempre? Elas não vão embora. Disse a menina.

— Espero que sim. Mas porque elas só vêm atrás de nós? Passamos por outras crianças desacompanhadas pelo caminho.

Os Ibejis também repararam isso.

— Elas nem deveriam estar aqui. Alguém invocou. Alguém quer essas duas crianças específicas. Disse um dos irmãos, comunicando sem que as duas ouvissem.

— Assim que elas chegarem as respectivas casas, avisarei a mãe, precisamos ajudá-las a se livrarem delas.

— Mandar elas de volta para o lugar delas.

Eles assentiram, as crianças moravam perto uma da outra, eles ficaram visíveis para as duas novamente, agacharam, tocaram as cabeças dela e sorriram.

— Protegeremos vocês, enquanto vocês tiverem as cabacinhas com vocês.

Os dois olharam para elas e, quando voltaram os olhos para cima novamente, eles haviam sumido. As mulheres serpentes estavam distantes, rastejando de um lado a outro, irritadas, não podiam tocar nas crianças que queriam.

Os dias passaram, as crianças estavam sempre protegidas, porém os Ibejis não conseguiam fazer mais do que afastar as mulheres. Depois de uma semana, as cabacinhas estão desbotando.

— Precisamos de ajuda.

— Omulu conseguiria mandar elas de volta.

— Mas vai assustar as crianças.

— Elas não vão nos ver, ficaremos no plano espiritual.

— Mesmo assim, elas podem ver as mulheres serpentes, acabarão vendo Omulu.

— Infelizmente, não temos como não pedir ajuda. Esperar a noite chegar, enquanto elas dormem, chamaremos ele. As mulheres serpentes ficam por aqui mesmo.

A noite chegou, as crianças dormiram, eles seguiram para fora das casas e chamaram Omulu. Eles chamaram por algum tempo até que ele se manifestou atrás dos dois.

— Vejo que arrumaram um problema danado aqui. Disse enquanto terminava de aparecer.

— Consegue mandá-las embora?

— Sim, não são exatamente espíritos, mas consigo sim.

Ele se colocou à frente dos dois.

— Não sei quem invocou vocês, mas esse plano não é para vocês.

— Sabe o que são? Perguntou um dos irmãos.

— Lâmias. Não deveria existir formas de invocá-las mais, entretanto, parece que quem as trouxe queria essas duas crianças especificamente, por isso elas ignoravam as outras.

— Como sabe disso?

— Eu percebi o problema, achei que vocês dariam conta, mas só percebi o que elas eram depois, deveriam ter me chamado antes. Bem, vamos resolver isso.

Omulu levantou o xaxará, suas vestes de palhas se agitaram. As três lâmias sibilaram mais, tentavam se mover, mas estavam travadas. O cordão de buzios que envolvia o corpo dele se lançou na direção delas, envolveu as três e ele começou a dançar em volta delas.

Tambores e palmas foram ouvidas, mesmo sem ninguém por perto, por três vezes, ele contornou as três, dançando.

— Bom retorno para vocês. Omulu falou e as três lâmias se incendiaram, desaparecendo. Os buzios voltaram para Omulu. Os Ibejis se aproximaram.

— Pronto, elas não voltarão mais. Tentem convencer as crianças a se aproximarem da mãe de santo que vocês cuidam. Se acaso, outros tipos aparecerem, poderemos protegê-los melhor. Se as lâmias foram invocadas, com certeza as crianças são especiais, pelo menos para quem as invocou.

— Está bem. Obrigado pela ajuda.

Omulu assentiu e desapareceu. Os ibejis retornaram para perto das duas crianças.

)

Vamberto Junior

Written by

Escritor em processo de publicação. 27 anos.

Welcome to a place where words matter. On Medium, smart voices and original ideas take center stage - with no ads in sight. Watch
Follow all the topics you care about, and we’ll deliver the best stories for you to your homepage and inbox. Explore
Get unlimited access to the best stories on Medium — and support writers while you’re at it. Just $5/month. Upgrade