Vingança

Uma mulher, pedinte, moradora de rua. As pessoas passam e a ignoram. Roupas sujas, estômago roncando.

— Por favor… estou com fome.

Ela fala, enquanto algumas pessoas passam perto. Continua sendo ignorada. A noite está chegando, o frio chega, ela está toda encolhida, mas não consegue parar de tremer.

Ela cai de lado, ainda tremendo, fecha os olhos, está cansada.

— Já vai se entregar? Pergunta uma voz vinda não se sabe de onde.

— Estou tão cansada. Só quero dormir.

— Tem certeza? Eu acho um desperdício.

— O que eu poderia fazer? Estou fraca, estou com fome, sou ignorada. Ninguém ajuda.

— Eu quero te ajudar.

— Nem sei quem é você ou onde está.

— Se abrir os olhos vai me ver.

Ela, com dificuldade abre os olhos, porém não está mais na rua, está na frente de uma lareira.

— Onde estou?

A dona da voz estava se aquecendo no fogo e nem ouviu a pergunta.

— Por que quer me ajudar? A voz saiu um pouco mais forte e dessa vez ela ouviu.

— Você não merece ser destratada, não merece estar na rua enquanto os outros estão se divertindo, desperdiçando as coisas e você nem migalhas consegue. Quer saber, você merece muito mais do que migalhas.

— Verdade. Eu mereço muito mais. Eles não deveriam ter tudo isso e eu não. Disse a mulher levantando, tinha parado de tremer.

— Posso te dar poder para conseguir tudo que quiser, mas não será fácil. A mulher agora estava com pequenos chifres na testa e a ponta do rabo balançando atrás da cabeça.

— O que preciso fazer?

— Quantos mais almas conseguir para mim, mais poder conseguirá.

— Almas? Você é um demônio? Disse reparando melhor na mulher.

— Sim, algum problema?

Ela fez o sinal da cruz.

— Por favor, o que ele fez pra te ajudar? Olhe sua situação. Você vai querer ajuda ou não?

Ela ficou pensativa.

— Vamos Miranda. Decida! Não tenho todo o tempo do mundo. Na verdade tenho, mas não quero ficar aqui esperando. Você quer ter poder para se ajudar ou não?

— Como sabe meu nome?

— Quanto estiver mais decidida, se não morrer antes, eu voltarei.

Sem falar nada mais nada, tudo sumiu. Miranda estava deitada na calçada, o frio voltou mais forte que antes e ela tremia bem mais agora.

Antes que o dia raiasse novamente, ela chamou por ajuda, estava nervosa, estava com medo, ela só queria sair dali, queria parar de sofrer.

— Vejo que agora está decidida.

— Sim! Como entrego as almas para você?

A mulher se curvou um pouco.

— Morgren. Quando matar a pessoa, chame meu nome. A alma será lançada dentro desse relicário. Morgren entregou uma corrente com um pêndulo no formato de coração, todo negro.

— Quanto mais eu conseguir melhor, certo?

— Sim. E a sua alma será a primeira!

Num movimento rápido, Morgren cortou Miranda de cima abaixo e ela caiu ensanguentada na rua. Poucos segundos depois, ela levantou.

— Pronto. Sem alma, só ódio. Agora busque mais almas.

Ela saiu, carregando o relicário e fez o que tinha que fazer. Depois de alguns dias, ela estava muito poderosa e resolveu que estava na hora de testar esse poder todo.

Um manto negro, cobrindo o corpo, escondia o colar e as pulseiras de ossos de recém-nascidos, os olhos, que eram negros, agora estavam azuis brilhantes. Anéis de tungstênio e titânio, ambos preto. Os cabelos estavam negros e longos.

A Cidade estava em ruínas, fogo em algumas partes, postes caídos, alguns ainda com lâmpadas funcionando, mas piscando. Miranda estava rindo, derrubando mais prédios e casas. Ela invocava fogo e usava de telecinese para controlar.

— Querem ver rirem de mim agora! Querem ver me destratarem! Quando eu era só uma moradora de rua, cuspiam em mim! Agora eu vou acabar com todos vocês! Gritava enquanto destruía os arredores.

Cinco homens correram em direção a ela, quando ela os percebeu e usaria fogo para atacar, eles esticaram as mãos e ela foi imprensada contra um poste. Eles começaram a se espalhar, formando um círculo ao redor dela.

Ela desencostou do poste e eles levaram ela para um lugar sem pessoas.

— Me soltem!

— Acha que só porque te trataram mal pode matar todos? Há inocentes lá! Disse um dos homens.

— Foda-se! Ninguém me ajudou, quem se omite também é culpado!

Eles chegaram próximo a praia, a maré estava baixa, mesmo sendo noite. Eles se afastaram bem da cidade, até ficarem com a água do mar à altura do joelho, ela tentava usar seus poderes, mas não conseguia.

— Vamos selar seus poderes, vai responder por essa chacina. Disse outro.

Ela sorriu.

— O que é engraçado?

— Vocês acham que deixarei? Acham que o contrato que fiz para ter esses poderes vai ser facilmente desfeito?

— Estamos te contendo sem problema. Disse o primeiro homem.

Ela elevou a cabeça e os olhos mudaram para vermelho brilhante.

— Vocês acham que eu estou brincando? A voz se tornou mais grave — acham que eu fiz isso por estar num dia ruim? Vocês não tem noção.

Eles começaram a ter dificuldade em segurá-la e passaram a usar as duas mãos.

— Vocês acham que poderão fazer frente a mim? Ela começou a pulsar e a rir — Eu vendi minha alma, vendi a dos recém-nascidos em meu colar e pulseiras! Eu sou o próprio poder!

A pulsação virou uma explosão, lançando os cinco homens para trás. A água formou um vácuo e ela conseguiu tocar a areia sem se molhar.

— Agora, vou mostrar do que sou capaz. Os pés esquentaram e fogo começou a envolver ela.

Os homens, molhados, já estavam de pé, formando uma barreira ao redor dela, movendo os braços em alta velocidade para desenharem símbolos e fortalecer a contenção.

A água parou de ser contida e se aproximou dela, porém evaporava antes de tocá-la. Ela girou devagar uma vez, girou um pouco mais rápido a segunda e foi aumentando a velocidade. Logo, ela estava em alta velocidade, o fogo expandiu e os cinco ficaram com dificuldade em conter o tornado.

A barreira arrebentou, eles foram arremessados para trás.

— Venha! Relsor Lehh!

O fogo aumentou muito em quantidade e tomou a forma de um imenso cavalo. Ela apontou a cidade.

— Destrua tudo!

Ele trotou na direção da praia, mas um homem surgiu entre ele e a cidade e, com olhos brilhantes dourados, fez uma barreira de água que ele não conseguiu transpor.

— Dessa vez, você conseguiu causar muitos problemas. Disse ele elevando-se no ar, juntou as mãos e as abriu na direção do cavalo, fazendo o sumir.

Miranda correu na direção do homem.

— Eu vou te destruir como fiz com os outros!

— Boa sorte tentando. Disse ele fazendo-a voar para trás só com um olhar.

Ela girou no ar e caiu agachada.

— Mais poder! Os olhos ficaram negros.

— Ding ding, você virou um demônio de verdade agora. Disse Morgren surgindo do lado dela.

— O quê? Ela disse.

— Você chegou tarde Ariel — disse Morgren — só poderá salvá-la se abrir mão de sua divindade e sabemos que anjos não podem fazer isso sem consentimento de seus arcanjos.

— Se ela ainda fosse humana teria que salvá-la, mas posso matar vocês duas agora e salvar as almas no broche.

— Ariel, ariel, você sabe que não tem como lutar comigo. Com ela até conseguiria, mas comigo? Sabe que não tem poder para isso.

— Eu virei um demônio? Disse Mirando olhando seu corpo mudando, tomando forma bestial.

— Você vai gostar, logo nem vai se lembrar de como era antes.

Antes que ela dissesse algo a mais, um pilar de luz apareceu ao lado de Ariel.

— Felizmente, dessa vez, não vim sozinho.

Morgren fechou a expressão.

— Jeliel. Ela disse de maneira nervosa.

— Fez bem em me chamar. Vamos começar?

— Adoraria brincar com vocês, mas tenho um demônio novo pra treinar e almas novas para torturar.

Morgren mexeu as mãos.

— Até parece que vou deixar! Disse Jeliel lançando luz, porém só conseguiu acertar o relicário, fazendo-o cair na areia.

As duas sumiram.

— Pelo menos salvaremos as outras almas. Disse Ariel se aproximando do coração negro.

— Sim. Disse Jeliel, porém estava nervoso das duas terem fugido.

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