A Valentina que não foi ao espaço


Uma história sobre o machismo e a exploração espacial

Quando pensamos sobre os pioneiros da presença humana no espaço, geralmente nos lembramos de nomes como Iuri Gagárin (primeiro homem no espaço, em 1961) e Neil Armstrong (primeiro homem a pisar na lua, em 1969). Alguns se lembrarão ainda de outros homens: Buzz Aldrin, Alexei Leonov e tantos outros homens. E quanto às mulheres? Onde elas ficam nessa história?

Em 1963, Valentina Tereshkova foi a primeira mulher no espaço. Este artigo, contudo, não é sobre Valentina Tereshkova.

Este artigo é sobre Valentina Ponomariova, uma cosmonauta que nunca foi ao espaço… pelo motivo mais machista imaginável.

A história de Valentina Ponomariova*

Valentina Ponomariova. * Nota: em russo, o sobrenome de Valentina é grafado Пономарёва. Em inglês, o nome costuma ser grafado Ponomareva ou Ponomaryova, grafia adotada por alguns livros brasileiros. Optei pela forma Ponomariova; para todos os nomes neste artigo, sempre preferi formas mais portuguesas.

Em 1962, o plano inicial dos russos era enviar duas mulheres ao espaço, cada uma em uma nave, em uma missão geminada. Infelizmente, isso nunca aconteceu.

As duas primeiras mulheres no espaço teriam sido duas Valentinas: a Valentina Tereshkova (que acabou sendo mesmo a primeira no espaço) e a Valentina Ponomariova. No último segundo, contudo, os líderes soviéticos decidiram tirar a Ponomariova da missão por ela ser “feminista demais”. Pode parecer absurdo que a Valentina Ponomariova, a mais bem preparada entre as cosmonautas soviéticas da década de 1960, não foi tenha ido ao espaço por apenas por ser feminista… mas foi o que aconteceu.

Em 1963, a nave Vostok 5 acabou sendo tripulada por um homem (o cosmonauta Valeri Bikovski), e apenas a Vostok 6 foi tripulada por uma mulher (a Valentina Tereshkova).

Abaixo, você pode ler mais sobre a história de Ponomariova, a feminista que não foi ao espaço.

O recrutamento das cinco cosmonautas

Entre 1960 e 1971, o general Kamanin foi o chefe do treinamento de cosmonautas no programa espacial soviético. Ele recrutou e treinou toda a primeira geração de cosmonautas, incluindo Iuri Gagárin.

Talvez por temor de que os EUA fizessem algo assim primeiro, Kamanin achou que a URSS devia enviar mulheres ao espaço. A ideia de enviar uma mulher ao espaço tinha pouco apoio do projetista-chefe dos foguetes soviéticos, Serguei Korolev, ou dos superiores militares do general Kamanin.

Ainda assim, em 16 de fevereiro de 1962, cinco mulheres soviéticas foram selecionadas para serem treinadas como cosmonautas, sob a supervisão de Kamanin. Elas eram Tatiana Kuznetsova, Valentina Ponomariova, Irina Soloviova, Valentina Tereshkova, and Jana Iorkina.

Em meados de 1962, o programa espacial soviético já tinha enviado quatro missões tributadas ao espaço — todas elas tripuladas por homens. O plano era que as próximas missões, Vostok 5 e Vostok 6, seriam ambas tripuladas por mulheres, escolhidas entre as cinco cosmonautas convocadas meses antes.

A preparação das cosmonautas mulheres

As cinco cosmonautas enfrentavam o curso completo de treinamento para viagens espaciais, que incluia voos de imponderabilidade, saltos de paraquedas, testes de isolamento e testes de centrifugação, bem como estudos acadêmicos sobre a teoria dos foguetes e sobre a engenharia das naves espaciais. As cinco mulheres fizeram 120 saltos de paraquedas e foram treinadas como pilotos de caças MiG.

Da esquerda para a direita: Valentina Ponomariova, Irina Soloviova e Valentina Tereshkova.

Em 25 de agosto de 1962, as cinco mulheres cosmonautas foram convidadas para assistir à decolagem de um foguete que devia levar uma sonda a Marte (a Sputnik 19).

O lançamento do foguete correu bem, mas, cerca de uma hora após o lançamento, um motor do quarto estágio falhou, causando um torque assimétrico que impediu a sonda de deixar a órbita da Terra. O envio da sonda fracassou.

Ainda assim, o general Kamanin registrou em seu diário que estava satisfeito pelo fato de o lançamento do veículo principal ter sido um sucesso; para o general, isso deu às cinco cosmonautas mais confiança quanto ao foguete que elas teriam que tripular.

Enquanto isso, as naves Vostok 5 e Vostok 6 já passavam pelos testes finais. Em seu diário, o general Kamanin escreveu que, entre as cinco cosmonautas, Valentina Ponomariova era a mais preparada para ir ao espaço, tanto intelectual quanto emocionalmente.

Valentina Ponomariova é rejeitada por suas opiniões “chocantes”

Em 19 de novembro de 1962, ocorreu a seleção das cosmonautas, com o objetivo de definir qual delas seria a primeira mulher no espaço. As cinco integrantes do grupo fizeram provas acadêmicas e foram entrevistadas.

Valentina Ponomariova foi a que obteve os melhores resultados nas provas. Entretanto, as respostas de Ponomariova à entrevista foram consideradas “inadequadas”. Ponomariova era feminista e suas opiniões foram chocantes para os dirigentes do programa especial soviético. Entre as opiniões “chocantes” de Ponomariova estava a ideia de que “fumar um cigarro não impede que uma mulher seja uma pessoa decente”.

“Não acredito”, você deve estar pensando. “Eles ficaram chocados com isso?” Pois é. É absurdo, mas foi o que aconteceu.

Outras respostas de Ponomariova também foram mal vistas. Quando questionada “O que você quer da vida?”, Ponomariova respondeu “Eu quero tudo o que a vida tem a oferecer.” A Valentina Tereshkova, que acabaria sendo escolhida para ir ao espaço, respondeu à mesma pergunta da seguinte forma: “Eu quero dar meu apoio irrestrito à Juventude Comunista e ao Partido Comunista”.

Ao fim de 1962, estava decidido que a primeira mulher no espaço seria Valentina Tereshkova. Ainda assim, a ideia era que as duas Valentinas voariam em 1963; a Tereshkova (a Valentina “bem comportada”) seria a primeira mulher no espaço, a bordo da nave Vostok 5; e a Ponomariova (a Valentina feminista) seria a segunda, a bordo da Vostok 6.

Essa ideia teve fim em março de 1963. Altas autoridades do Partido Comunista da União Soviética decidiram que apenas uma mulher (Tereshkova) iria voar, a bordo da Vostok 6. A Vostok 5 seria tripulada por um homem (chamado Valeri Bikovski), que foi levado às pressas para o treinamento final, atrasando os voos em dois meses.

Embora Valentina Ponomariova fosse a candidata mais qualificada, seu feminismo e o fato de se expressar sinceramente, sem os chavões da propaganda soviética, foram considerados inconvenientes pelos homens que dirigiam o programa espacial. Ponomariova não foi aceita nem mesmo como tripulante reserva da Vostok 6. A reserva de Tereshkova foi Irina Soloviova. Ponomariova foi relegada a um papel de apoio, como “reserva secundária”.

Em 21 de maio de 1963, Serguei Korolev, o projetista-chefe dos foguetes soviéticos, perguntou a Ponomariova por que ela estava tão triste.

“Eu não estou triste. Estou séria, como sempre…”

Valentina Tereshkova é a primeira mulher no espaço

Em junho de 1963, a União Soviética colocou duas espaçonaves no espaço, lançadas com diferença de dois dias, a Vostok 5 e a Vostok 6. Valentina Tereshkova voou na Vostok 6, lançada de Baikonur em 16 de junho, tornando-se a primeira mulher no espaço. Ela completou 48 órbitas ao redor da Terra, voando no espaço por 71 horas, apesar de náuseas, vômitos, dores fortes na perna direita e do desconforto psicológico que sentiu. Ambas as naves aterrissaram no dia 19 de junho.

As cosmonautas que nunca voaram

Valentina Tereshkova tornou-se a primeira mulher no espaço em 16 de junho de 1963. Mas Valentina Ponomariova e as outras mulheres cosmonautas da década de 1960 jamais foram ao espaço.

Em 1965, o general Kamanin chegou a pensar que conseguiria enviar Ponomariova e Soloviova em uma missão de passeio espacial só de mulheres. A residência à ideia de mulheres cosmonautas era forte, contudo, e os planos de Kamanin jamais se concretizaram.

O grupo de cosmonautas mulheres foi dissolvido em outubro de 1969.

O Valeri Bikovski, cosmonauta homem que tripulou a Vostok 5, voltou ao espaço mais duas vezes, em 1976 (na Missão Soiuz 22) e em 1978 (Soiuz 31). Nenhuma mulher foi ao espaço durante a década de 1970.

Em 1982, 19 anos depois do voo de Tereshkova, Svetlana Savitskaia foi a segunda mulher no espaço, na missão Soiuz T-7.

Um ano depois de Svetlana, a americana Sally Ride foi a terceira mulher no espaço. Sally Ride foi ao espaço 22 anos depois de Alan Shepard, o primeiro homem americano a fazê-lo. Infelizmente, o machismo era um aspecto da exploração espacial que ultrapassava barreiras políticas e ideológicas.

Um longo amanhecer

Em 2015, mais de 500 pessoas já foram ao espaço. Menos de 60 foram mulheres.

Atualmente, os programas espaciais de diversos países são importantes fontes de inspiração para homens e mulheres. As mulheres têm um lugar importante na história da exploração espacial: as Valentinas, a Svetlana, a Sally e todas as competentes astronautas mulheres que nunca chegaram a voar. Elas fizeram algo incrível, conseguindo um lugar para si em programas espaciais comandados por homens extremamente misóginos.

Esperamos que, nas missões espaciais do futuro, a humanidade consiga deixar de lado seus preconceitos e discriminações, não apenas de gênero, mas de qualquer tipo. Apenas assim a conquista do espaço poderá ser, realmente, o início de um amanhã melhor.

Valentina Ponomariova, dando uma palestra na Alemanha em 2003.



Fonte: Enciclopedia Astronautica — ótima fonte de informações sobre todas as missões espaciais já feitas. Entre as informações do site, estão algumas notas extraídas dos diários do general Kamanin.

Agradecimentos: Este artigo é fruto de uma provocação de um grande amigo, o Gabriel de Paula Morais. Semana passada, foi publicado um livrinho infantil feito por mim e pelo Pil Ambrósio sobre o Iuri Gagárin. O Gabriel me chamou a atenção para a necessidade de uma continuação sobre as primeiras mulheres no espaço. Este artigo é culpa dele.


Originalmente publicado em: www.hudsoncaldeira.com.

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