Sobre Marília e o sol

O sol entrando pelos buracos faceiros da janela desdentada anuncia que é hora de acordar. Marília já sente a vibração. Esse beijo do sol nas suas pálpebras não deixa dúvida q já é terça-feira, dia de farra e alegria com as turmas do baby class. Uma boa espreguiçada e o corpo, esguio de pele alva, já começa preparar-se para o despertar completo. Desde que decidiu morar sozinha, Marília também tomara outra resolução: nunca mais usar o “soneca” do despertador. Quem iria acordá-la caso dormisse só mais um pouquinho e se perdesse em meio aos sonhos? Não! Agora aos 21 anos, morando sozinha, precisava ter mais responsabilidade. Despertou, levantou. E assim o fez, nesta terça-feira ensolarada.

Já estão separados a malha cor de rosa, uma meia calça branca, sapatilhas brancas encardidas, saiote. Os longos cabelos ruivos já vão presos, num coque alto e elegante, como pede o porte de toda bailarina. Marília é pouco vaidosa, talvez porque a natureza já lhe tenha sido generosa. Seu kit de beleza costuma ser shampoo + condicionador de litro, da mesma marca, da promoção, secador de cabelo — que na pressa acaba sempre sendo usado só perto da raiz — protetor solar FPS 30 e batom cor de boca. Fim. Camiseta branca, jeans strecht e all star vermelho, sempre. Ela tem um velho e um novo, vermelhos. Bolsa carteiro atravessada, um copo de Nescau bebido em poucos e grandes goles e lá se vão, a maçã do lanche e Marília, pedalando até o trabalho.

Marília é a primeira a chegar, tudo fechado ainda, espera na calçada. O prédio da Escola Adágio é antigo e ruidoso, desses que têm barulhos próprios e um tanto assustadores. Assim que entra, a primeira coisa que Marília faz é colocar uma música enquanto prepara a sala pras aulas de logo mais. E, no modo aleatório de reprodução, quem começa é Beirut, com a cadenciada “Nantes”. A melodia já envolve todo o ambiente. Marília e as longas cortinas ocre, recém abertas, parecem mover-se e dançar, no mesmo ritmo. Sim, as janelas precisam ser abertas para renovar o ar e deixar a luz natural entrar, regra número um. A ampla sala, repleta de histórias, de pé direito quase infinito, finalmente também desperta. E é assim, nesse flerte entre os movimentos do corpo e o entorno, que Lila (apelido de infância) vai colocando cada detalhe onde deve estar: um pouco de breu no chão de taboão, pra ninguém deslizar, controles remotos à mão, garrafa d’água a postos ao lado da barra, na esquina com a parede de espelho.

Ah! O perfume do café, é um agrado que se faz ao corpo e à mente. Minutos para convívio com os colegas na cozinha. É muito bom este momento, Marília se sente sempre muito à vontade. Um copo de café preto bem quente e um sanduíche de pão natural depois, já se podem ouvir os primeiros gritinhos vindos do corredor. As pequenas e ruidosas bailarinas começaram a chegar. É hora de o show começar. E assim o fez, nesta terça-feira ensolarada.

One clap, two clap, three clap, forty?

By clapping more or less, you can signal to us which stories really stand out.