Sobre o “Bela, recatada e do lar”. Reflexões para quem não segue a boiada.
Críticas ao artigo “bela, recatada e do lar” publicado recentemente pela revista veja causaram-me um certo espanto, tanto quanto parece ter causado o próprio artigo para aquelas que o criticaram. Será que sou a única simpatizante do movimento feminista que dissente dessa espécie de cartilha pré-estabelecida sobre o feminismo? Costumo fugir das generalizações e do pensamento em bloco, um tanto acrítico. Penso que o bom senso está cada vez mais em desuso no buraco negro da internet. Inúmeros artigos sobre belas, musas, divas e demais adjetivos são publicados cotidianamente nas mais diversas revistas. Os enfadonhos estereótipos de sempre. São tantos que muitas vezes passam despercebidos… triste realidade. Moças, onde vocês estão nestas horas? Por que o alarde é seletivo quando o motivo é o mesmo? Eis que de repente, surge O problema para parte de feministas das redes sociais: o “bela, recatada e do lar” atribuído à Marcela Temer, esposa do atual vice-presidente Michel Temer (também chamado, pela esquerda, de golpista já que é um dos que desejam o impeachment de Dilma).
Virou o assunto da semana. Viralizou. O ápice da crise política e o acirramento da polarização entre direita e esquerda, “coxinhas” e “petralhas”, parece ter deixado muito mais gente confusa do que se imagina.
No mundo da internet e das redes sociais, usuários parecem incorporar instantaneamente a verdade apresentada por aqueles com quem se identificam, ao passo que desprezam toda e qualquer forma de pensamento divergente. Não que no cotidiano seja muito diferente, mas o dinamismo das redes sociais potencializa a falta de reflexão, de ponderação e esclarecimentos.
Neste caso parece que se criou uma polêmica despropositada em torno do artigo publicado, afinal, o que se espera é que haja o mínimo de honestidade por parte de quem se apresenta como intelectual e se propõe a criticar uma publicação ou artigo. Caso contrário, nada de relevante e substancial pode ser extraído. Aliás, nenhuma novidade se considerarmos que tal revista e suas respectivas publicações, por si só, costuma desagradar pessoas de esquerda de forma quase unânime.
De todo modo, vamos abstrair este sabido incômodo com a revista e focar no artigo publicado e suas críticas. Seriam realmente cabíveis? O que se pretendeu com elas? Muito se falou em torno do título “bela, recatada e do lar” porém se ignorou peculiaridades importantes do artigo.
Como se pode problematizar excessivamente um título de matéria jornalística sem se adentrar nas nuanças da matéria publicada? Como acusar a matéria (ou a revista) de machista e ignorar completamente os padrões socioculturais efetivamente existentes na nossa sociedade? Como falar em feminismo sem que se esbarre nas questões de gênero?
Por certo, o imediatismo exagerado de se criticar ou comentar sobre quase tudo que se publica na internet acaba sendo fruto de pouca reflexão trazendo muitas vezes um resultado pífio ou zero de contribuição ao esclarecimento do ocorrido o que, além de gerar mais desinformação, tira o foco das questões essencialmente importantes, do que realmente interessa e do que está em jogo (embate político, violência de gênero etc.)
A enxurrada de críticas na internet ao “bela, recatada e do lar” veio de mulheres que talvez sejam feministas, se veem como tais, façam parte de algum movimento feminista, simpatizam com o feminismo ou nenhuma das alternativas (não é possível identificar ao certo). Tais mulheres se indignaram pelo artigo da revista talvez por não se sentirem representadas pelo perfil de Marcela Temer, algumas chegando a afirmações tolas como “este tipo de mulher não existe nos dias de hoje” ou “atualmente as mulheres não estão mais preocupadas com a beleza”. Quem apresenta tais afirmações talvez esteja falando de si ou de seu círculo pessoal de amizades e contatos, mas é evidente que a realidade brasileira não se limita a esse mundo e a essa visão particularizada.
Aqui abro um parênteses para esclarecer desde já que vejo o feminismo como um movimento importante e necessário na redução das desigualdades entre homens e mulheres, bem como na colaboração para que possamos erradicar a violência contra as mulheres. Não sou (e penso que ninguém deveria ser) contra o feminismo (e nem contra feministas, por certo, o que seria um contrassenso). Aliás, me considero feminista nessas questões primordiais como a conquista da total liberdade da mulher na plenitude da dignidade humana, livre de toda e qualquer violência e opressão, cuja libertação deva ser implementada no campo individual da mulher (sua mente, seu corpo, suas ações) bem como na esfera política e social.
Finda esta necessária observação, voltemos a celeuma.
Evidente que ser “recatada” e “do lar” também não é unânime, mas daí a desprezar tais características ou pior, negar-lhes a existência é desconhecer e negligenciar a história das mulheres brasileiras. Críticas deste jaez são meras palavras jogadas ao vento, irresponsáveis, de tremenda estupidez e desonestidade.
As recatadas e do lar efetivamente existem e em grande número Brasil afora. Talvez fora do círculo social a que pertencem aquelas que criticaram o artigo, ou talvez dentro — quem sabe — porém invisíveis. Esqueceram-se que, com feminismo ou sem feminismo, antes vem o respeito a outra pessoa e outras formas de ser, agir, querer, pensar. Esqueceram-se da complexidade do ser humano e da especificidade de outras mulheres. Sequer pensaram em Marcela Temer, também mulher, que sabidamente tem histórico de discrição e de não gostar de aparecer na mídia (o que diria ela dos memes criados? Compreenderia o argumento das supostas feministas de que não é nada pessoal contra ela?).
Críticas partiram não só de artigos rasos, mal elaborados ou mal concatenados, mas de outras mulheres que passaram a criar e compartilhar, nas redes sociais, memes irônicos satirizando as características apontadas de Marcela Temer e, por lógica, qualquer outra mulher que pudesse se identificar com o perfil “bela”, “recatada” e “do lar” de Marcela. Mas, disseram elas, que o ataque não era contra quem possui tais características e nem contra Marcela Temer, mas dirigidas a revista (me pergunto se alguém, em sã consciência, acreditou de verdade nessa justificativa). Explicando o óbvio aos crédulos: a revista não vê, não lê, não sente.
Viu-se até memes onde se mostrava apenas partes do corpo de mulheres, provavelmente extraídas de banco de imagens, como forma de satirizar o recato. As mulheres que se indignaram com o artigo, insufladas pela polêmica, nada mais fizeram do que relativizar a tal “sororidade”, ironizando as “belas, recatadas e do lar” sem nenhum outro propósito que não o de zombaria. Em todos estes aspectos, é preciso muita ingenuidade para se acreditar no argumento utilizado de que tais ações e memes não são “nada contra” as belas, recatadas e do lar e que “a indignação é tão somente contra a revista!”
Não obstante o evidente achincalho, desdém e menosprezo insertos em muitos memes, a justificativa para os “geniais” memes convenceram parte de supostas feministas e críticos do artigo, vez que viram uma atitude bacana por parte dessas mulheres “empoderadas”, regada a “bom humor e criatividade”! Assim, ignoraram o linchamento virtual (sim!) dirigido a mulheres com comportamento recatado e/ou que exercem atividades “do lar”. Memes carregados na ironia, é verdade, porém nada engraçados porquanto ironia e humor não se confundem. Coloquemos os pingos nos is: o desprezo irônico está bem longe de ser uma ação cheia de bom humor e criatividade, bem longe.
Qual seria o sentido e o propósito de uma reação como esta nas redes? Onde estaria a graça? Onde estão as reflexões sobre todos estes fatos para que possamos construir uma sociedade melhor para as mulheres? Como podemos debater o feminismo com propriedade? Feitas todas estas ponderações, perguntamos mais uma vez: será mesmo que as enfadonhas falas de que “o problema não é Marcela Temer”, “nada contra ser recatada” e “nada contra ser do lar” se sustentam?
Parece que o escárnio dessas pessoas indignadas que surfaram na onda da crítica (e se engajaram nos memes) tinha realmente um alvo sub-reptício: as outras mulheres, cujos modos de vida, natureza, singularidades, hábitos e comportamentos são distintos dos delas. E pior: tudo sendo justificado erguendo-se a bandeira do feminismo!
Será que feminismo mesmo é isto? A zombaria e a intolerância travestida de bom humor e irmandade?
Teriam, todas estas mulheres-feministas-indignadas, empregadas em seus lares? Não seríamos todas do lar, na medida em que praticamente todas as mulheres cuidam dos afazeres domésticos (salvo as que tem empregadas)? Onde foi parar afinal a tal “jornada dupla” onde a mulher não só trabalha fora, mas também cuida do lar?
Também não se pode negar que a participação masculina nas tarefas domésticas é uma realidade crescente e cada vez mais atual. Enquanto se ocupavam em postar memes, esqueceram-se de mais um fato: na nossa sociedade quase todas as mulheres são do lar (exceto as que possuem empregadas/diaristas), mas não só.
Não foi vista — dessas “feministas” um tanto afoitas por atenção (o que por si só não é nenhum problema e não se condena) — a mesma indignação irônica na criação de memes em defesa de Dilma, covardemente atacada pelo artigo da isto é. Onde está a “sororidade” com Dilma? O ataque da revista isto é contra Dilma foi tão claro e agressivo que até saiu na capa da revista.
Se a indignação dessas feministas foi apenas contra a revista (veja), como se alegou, por que não fizeram o mesmo “contra a revista” isto é em apoio a Dilma? Onde está a mesma “criatividade” e o mesmo “bom humor” (aqui, eufemismo de sarcasmo) para “ironizar” o artigo odioso da isto é, que atacou a imagem de Dilma — Presidente da República — antes de tudo, mulher? Onde estão os memes dessas mulheres, que se dizem feministas, ironizando os xingamentos de falta de controle e histeria sofridos pela nossa Presidenta da República? Perdemos este episódio? Onde estão os memes dessas mulheres feministas atacando a revista isto é (como disseram estar atacando a revista veja)?
O que seria mais grave e, portanto, passível de real indignação? Uma mulher ser taxada de histérica, louca e descontrolada ou de bela, recatada e do lar? Curiosamente o trio final é que foi o alvo de “crítica” dessas moças empenhadas… Hashtag “mexeu com uma mexeu com todas” só serve para autopromoção, do quanto se é pretensamente cool . A prática tá bem longe da teoria.
Porque “sororidade” com Marcela Temer e com mulheres de personalidade parecida com a de Marcela evidentemente não houve com este ataque ou “campanha” disseminado nas redes. Verdade seja dita: a única “sororidade” vista foi no grupo seleto das mulheres-feministas-indignadas com o artigo “bela, recatada e do lar”. E só.
Outra “tese de defesa” levantada pela turma da crítica ao artigo “bela, recatada e do lar” é que a revista, ao apontar tais adjetivos (como falaremos mais adiante, a expressão não partiu da revista) estaria apresentando Marcela Temer como sendo a mais adequada personificação da mulher para se apresentar no cenário da política. Todavia, jamais podemos deixar de observar que estas ilações nada mais são do que maneiras de interpretação ao artigo e assim devem ser consideradas, não havendo como se afirmar a expressão ou tradução da mais pura verdade.
Comumente, revistas tendenciosas e de conteúdo suspeito produzem matérias dessa mesma estirpe. Sempre? Talvez sim, talvez não. Coisas do jornalismo tradicional. As generalizações às cegas são perigosas eis que engessam o pensamento e a possibilidade de enxergarmos outros pontos de vista. Evidente que, sob a alegação de liberdade de expressão, não devemos aceitar a publicação de matérias misóginas ou ofensivas mas sim condená-las (e ao contrário do que foi dito largamente pela crítica, não foi esse o caso do artigo “bela, recatada e do lar”).
Evidente que o mesmo não pode ser dito da matéria anteriormente veiculada pela revista isto é, onde Dilma visivelmente foi alvo de ataques misóginos (eis que foi associada a atos de histeria e loucura — comparações grotescas e repulsivas), sendo um fato claramente ofensivo, desleal, repugnante e mentiroso, o que se convencionou a chamar pelos movimentos de esquerda de matérias provenientes de uma “mídia golpista”. São artigos absolutamente distintos e nos parece muito temerário e desonesto afirmar que foram artigos orquestrados com um mesmo propósito, como sendo parte do golpe. Nada mais paranoico que isto.
Devemos deixar um pouco de lado a nossa ansiedade em querer achar respostas imediatas para tudo, assim como nossas preferências políticas na análise dos fatos. Ainda que haja uma possível comparação entre os artigos (um “elogia” a esposa do vice-presidente Michel Temer e outro denigre a imagem da Presidente da República em exercício) é leviano o argumento de que há ligação certa entre as duas reportagens como se esta fosse a única verdade possível: o conluio das duas mídias (sabidamente sujeitas de interesse político-econômico) ao produzir sorrateiramente tais artigos a fim de consecução do golpe. Imaginação é o que parece não faltar.
Tais fatos não são mais do que meras ilações, especulações e interpretações. A verdade absoluta só reina em dois espaços: entre o círculo dos ignorantes e dos fanáticos. Penso que críticos com o mínimo de honestidade intelectual dificilmente se aventurariam nestes perigosos discursos.
O teor do artigo “bela, recatada e do lar” pode ser comparado com outros inúmeros artigos publicados nas mais diversas revistas, sejam de personalidades conhecidas, de famosos, de celebridades ou não. Não se pode olvidar que comumente a mídia em geral apresenta mulheres “belas” (da política ou não) com determinado padrão estético exatamente da mesma forma como apresentou Marcela Temer (ressalta a estética e trata de assuntos gerais como: o que faz, como vive, profissão ou atividades, se tem filhos etc.).
Não há dúvidas de que há um certo problema neste tipo de abordagem aparentemente superficial, quando determinado padrão de beleza e amenidades são ressaltadas, por mais conteúdo que a mulher possa ter para apresentar.
Assim, importante observar que isto não é exclusividade de matéria com Marcela Temer, portanto, se um dos motivos da crítica foi este — a imagem de Marcela Temer — não se pode ignorar que se trata de modo extremamente corriqueiro utilizado pela mídia.
E este ponto crucial também foi totalmente desprezado pelas que se arvoraram em criticar o “bela, recatada e do lar”. Ignoraram, não perceberam ou ocultaram, de forma deliberada ou não, estes fatos facilmente percebíveis. Assim, excluindo a “crítica” deste inegável contexto, “feministas” perderam mais uma boa oportunidade de chamar atenção para esta realidade de tratamento cotidianamente reservado as mulheres na mídia e de se propor um debate sério a respeito desta questão.
Preocupadas com os simples adjetivos atribuídos à Marcela Temer também não se debateu sobre os motivos pelos quais políticos de mais idade costumam preferir mulheres bem mais jovens que eles. E por que determinadas mulheres mais jovens também parecem gostar da companhia de homens com idade avançada e talvez, envolvidos na política.
Incomodadas com a expressão “bela, recatada e do lar”, não se discutiu sobre formas possíveis de se democratizar a mídia. Memes imbecis foram criados. Muito barulho e total ausência de reflexão. Eis o mundo predominante de boa parte da internet.
Preferiu-se criticar o artigo “bela, recatada e do lar” mas não restou claro os reais objetivos ao fazê-lo. A revista (com orientação política de direita) levantou a bola com um artigo um pouco suspeito, é verdade, e parte da esquerda feminista se indignou, reclamou, mas não deixou de recebê-lo e chutá-lo para o gol. Bateu na trave e vai continuar batendo enquanto o time que estiver no ataque insistir nas mesmas jogadas e continuar indo pra cima do time adversário de forma pouco inteligente.
Depois deste episódio, certamente aumentou o ibope da revista assim como deve ter aumentado as curtidas das páginas antifeministas. Eis os efeitos práticos das polêmicas da internet onde nada ou muito pouco se esclarece.
Aliás, verdade seja dita: a esquerda não admite ser confrontada tanto quanto a direita. O excesso de confiança ou arrogância por parte de seus atores, bem como a necessidade contemporânea de se comentar e criticar instantaneamente todos os fatos e notícias da internet que nos desagradam, somados a forte emoção devido aos períodos de turbulência e polarização política em que estamos vivenciando, não poderia trazer outro resultado. A promoção de pontos de vista comprometidos e distorcidos, a propagação de mais desinformação e de alarde. Neste cenário perdem-se todos ao mesmo tempo em que todos parecem perdidos.
E é justamente por meio desses comportamentos equivocados que também aprofundamos os desentendimentos e a ruptura social — seria este mais um golpe provocado por nossos tempos? Estaríamos fadados ao reducionismo que limita e estreita cada vez mais a necessária dialética dentro do corpo social?
Os comentaristas online do espetáculo político tem por hábito falar tão somente para o seu público e lá despejam as suas absolutas verdades e convicções, muitos apenas na ânsia por aplausos, elogios e curtidas. O público adversário, pensam eles, não tem estofa e nem capacidade para compreendê-los, portanto, a efetiva compreensão do que se produz ou se escreve e os fundamentos pelos quais se produziu aquela escrita se tornam absolutamente desnecessários de se esclarecer porquanto a trupe do clube vai recebê-la e geralmente de nada discordará. O vazio do pensamento permanecerá.
Ambas as polarizações são processos de exclusão, ou você pensa e age segundo os ditames da trupe da verdade ou você está fora. Ambos os lados demonstram uma certa chucrice: ao invés de ganhar pessoas por meio da tolerância e do esclarecimento, desprezam-nas entregando de bandeja aos inimigos sedentos por gente desinformada e perdida.
E nesse caminho estará reservada a crueldade da indiferença para aquele que não está nem cá e nem lá. Eis a receita para o fracasso do diálogo, dos debates, da resolução dos problemas. A dicotomia mais uma vez sai fortalecida, do verdadeiro e falso, do inteligente e burro, do certo e errado, do ser superior e inferior, do iluminado e obscuro.
Indignadas por não se sentirem representadas pelos adjetivos “recatada” e “do lar” (já que “bela” todas fazemos questão de afirmar e de mostrar incessantemente no mundo narcísico das redes sociais), optaram por desprezar a realidade brasileira, assim como preferiram ignorar mais um ponto fundamental de tal artigo: o depoimento da irmã de Marcela (e aqui, a pergunta que não quer calar: será que aquelas que fizeram críticas ao artigo e que criaram inúmeros memes ao menos leram o artigo inteiro ou será que ficaram apenas no título da matéria?) Será que o profundo desgosto com a revista ou o preconceito com a esposa de Michel Temer as impediram de lê-lo? Eis uma boa e interessante pergunta!
Quem tem mente aberta e leu com atenção constatou que os adjetivos “bela” e “recatada” não foram criados pela revista mas sim citados pela irmã de Marcela Temer (fato essencial para enfraquecer e desmontar a tese de que foi a revista quem atribuiu tais características à Marcela).
A jornalista que escreveu o artigo não os extraiu da cartola e não fez nenhum juízo valorativo para “reforçar padrões socialmente aceitos”, senão citou um fato extremamente comum a muitas mulheres brasileiras: não desempenhando atividades profissionais, Marcela cuida do filho e exerce atividades do lar. Por óbvio, não se pretende negar por completo o aspecto político do artigo já que se trata da esposa do vice-presidente da República, mas não se pode desprezar um fato como este, que desmonta, por si só, a tese de “machismo da revista” e de “artigo-sabotagem para o impeachment de Dilma”.
O “homem de sorte” ou “mulher de sorte” é um juízo de valor da jornalista, o que por óbvio, é definição subjetiva. Concordemos ou não, isto faz parte de uma matéria jornalística e de qualquer pessoa que emita uma opinião, a liberdade de expressão. Não houve nenhuma ofensa ou desrespeito no exercício dessa liberdade. Tem acesso quem pode e lê quem quer.
A crítica de parte da esquerda feminista ao levantar superficialmente a questão do feminismo disse que a matéria da revista pretendeu ditar um “padrão ideal a ser seguido” pelas mulheres, sobretudo as mulheres da política. Os adjetivos “bela, recatada e do lar”, segundo a crítica, ora não correspondem mais às mulheres de hoje, ora pretende mostrar que é o papel que se pretende reservar às mulheres no campo da política — o de coadjuvante. Nada mais pobre e preguiçoso do que afirmações como esta.
Existem mulheres na política (número proporcionalmente pequeno se comparado ao dos homens, é verdade — e entendo que uma das lutas reais do feminismo é aumentar a participação feminina na esfera de poder, o que é bastante importante e louvável) e estas possuem personalidades das mais variadas, assim como os homens políticos.
Assim, não é verdade que o artigo publicado pretendeu reforçar a imposição de determinado padrão feminino no poder onde a mulher faria parte do jogo político, mas deve ficar sempre nos bastidores. Nem todas estão nos bastidores. É claro que num mundo machista como o nosso, as mulheres encontram maiores dificuldades e obstáculos, o que nos leva a concluir que na política não seria diferente.
E aqui, cabe mais um parênteses: mais mulheres na política não reflete, necessariamente, uma melhoria nas políticas públicas para as mulheres, pois as pautas feministas e de grande relevância para as mulheres podem continuar sem qualquer espaço mesmo com o aumento do número de mulheres no poder, como por exemplo o novo partido político chamado PMB (Partido da Mulher Brasileira) que é nitidamente conservador (mais do mesmo). Nos causa um certo incômodo admitirmos, mas homens verdadeiramente feministas na política seriam muito mais bem vindos do que mulheres machistas ou desinteressadas em políticas públicas femininas.
No artigo “bela, recatada e do lar” houve apenas relato de características, cuja real intenção não se sabe com absoluta certeza. Talvez nem mesmo existam segundas intenções nesta matéria como irresponsavelmente fizeram crer. Tudo não passam de meras especulações. Aliás, penso que tais particularidades e estilo de vida somente a Marcela Temer deveria dizer respeito, mas se a revista foi oportunista, a polêmica criada por parte da esquerda feminista também o foi. Não sejamos cínicos. Trata-se de um informações superficiais sobre a vida aparente de Marcela Temer, mesmo porque ela não é personalidade da política, ela não foi eleita como representante do povo.
Por todas essas razões levantadas, não houve machismo algum neste artigo em especial e tampouco desrespeito contra as mulheres não recatas e que não se consideram do lar. Aliás, se houve desrespeito e propagação de ofensas, certamente partiu justamente das críticas exageradas e desonestas ao artigo. Quando não há ofensa e agressão real, as diversas interpretações possíveis de um artigo como o “bela, recatada e do lar”, no estilo de revista de paparazzi ou de fofoca, cabem tão somente a quem o lê (ainda bem que continuamos livres para pensarmos o que bem entendermos, sem patrulha fiscalizadora, sem que digam que não temos o direito de ousar pensar diferente, sem aparatos tecnológicos de Black Mirror).
Não obstante, deliberadamente ou não, fato é que a praça pública das redes sociais foi aberta, onde resolveram linchar virtualmente Marcela Temer (talvez apenas por ser a esposa de Michel Temer) e ao mesmo tempo zombar das mulheres com aquelas características apontadas, sob o falso pretexto de ataque à revista, ataque à mídia golpista, ataque ao machismo ou patriarcado. Querendo ou não, o ataque à Marcela Temer e à todas as moças recatadas e do lar foi certeiro (e isto nos faz lembrar o golpe — impeachment fundamentado, aparentemente legal). Os fins justificando os meios. Ingenuidade não perceber os exageros. Talvez o calor político do momento tenha causado uma espécie de cortina de fumaça.
Parecem inevitáveis todas estas constatações. Esta diferente forma de se pensar a questão também é uma possibilidade que não pode ser descartada e que parece bastante plausível por todo o conjunto da obra. As características apontadas foram vistas por parte de mulheres feministas como de reles importância nos dias de hoje já que, na visão delas, se destinam a mulheres fúteis, insossas e até mesmo inexistentes. E curiosamente, assim argumentaram em nome do feminismo! Sem dúvida, o feminismo não me parece ser isto. Onde está a “sororidade” com Marcela Temer, ao menos? Eu não gostaria de estar na pele de Marcela Temer (e neste ponto, devo admitir que me sinto muito mais feminista do que as mulheres-feministas-indignadas que criaram memes e que criticaram por criticar o artigo da revista).
Os adjetivos “bela, recatada e do lar”, gostemos ou não, são muito bem vistos e aceitos pela sociedade e ainda corresponde ao que pensa e como vive grande parte das mulheres, o que certamente não significa o determinismo e tampouco se é certo ou errado. Pode-se haver discordância quanto aquilo que se considerou como socialmente e culturalmente estabelecido e é saudável e necessário que haja, mas tais mulheres existem sim (gostemos ou não) e inclusive podem se ver representadas pela figura de Marcela Temer justamente pelas características apontadas. Não há problemas nisto.
O feminismo está aí para conscientizar homens e mulheres e não enaltecer certo grupo feminino em detrimento de outro. As críticas vazias e de mera disputa política no cenário do possível impedimento (golpe) de Dilma passa a ser mais um desserviço, tanto quanto disseram ter sido o artigo. Pretendeu-se, com as reações ao artigo “bela, recatada e do lar”, menosprezar a imagem de Marcela Temer, enquanto esposa de Michel Temer, e por tabela houve quem pegasse carona para espalhar seu ressentimento e seu ódio a fim de tornar invisíveis todas as outras mulheres que poderiam com ela se identificar. Como se as outras mulheres pudessem tudo, menos ousar se identificarem em algum aspecto com Marcela Temer. Propositalmente ou não, eis mais uma prática autoritária e um tanto fascista que a esquerda tanto abomina.
Neste sentido, deixando um pouco de lado as paixões políticas, vale a reflexão feita por Mary Del Priore, uma das principais pesquisadoras da história das mulheres.
Exatamente como faz a revista ao publicar um artigo de somenos importância, as críticas que condenaram o artigo “bela, recata e do lar” foram bastante rasas e com grande carga de desonestidade intelectual. Penso que alguns assuntos, se é que precisam de abordagem, esta jamais deve ensejar ou incentivar a disseminação de ofensas. A crítica não deve acontecer de forma desonesta e no calor dos acontecimentos pois somente com uma reflexão cautelosa, estudada e desprovida de emoção é que poderemos chegar a uma melhor visão e compreensão daquele fato ou acontecimento objeto de escrita.
O que se pretendeu com tais críticas ao artigo? No que progredimos ou ficamos mais sábios e esclarecidos? O que extraímos disto? Se tem algo que não precisamos fomentar ainda mais num momento delicado como o presente é a intolerância. Precisamos ficar atentos quanto a isso.
O movimento feminista não surgiu para as oprimidas se tornarem opressoras, mas penso que busca a conscientização sobre o que é ser mulher e para que assim se diminua ou se erradique completamente as opressões e violências contra a mulher. Penso que o sentido do movimento é transcender eventuais polarizações e possíveis desacordos entre feministas e não feministas. E não, ninguém (homens e mulheres) são obrigados a nada (senão em virtude de lei), inclusive em serem feministas, mas sem dúvida é importante que mesmo assim se conheça o feminismo e se conscientize acerca das questões de gênero.
Não é porque eu seja contra o golpe que devo concordar com agressões disfarçadas vindas de parte da esquerda. Não é porque eu defendo e sou favorável ao feminismo que devo me calar quando vejo feministas levantarem o tema da opressão contra mulheres (mas não sem antes satirizar e oprimir outras mulheres). Não é porque sou contra o golpe que devo partir para o ataque agressivo e reducionista quando ele também vem de parte dos movimentos de esquerda, que coloca todas as mulheres no mesmo patamar, eliminando as diferenças existentes entre elas e tornando aquelas que não fazem parte do meu círculo social, invisíveis. Não é porque não gosto e tenho pavor da revista veja que devo passar a achar que absolutamente tudo (100%) do que publica é manipulador, maquiavélico ou conspirador. Não é porque sou de esquerda que devo odiar tudo o que a direita produz (inclusive a revista veja), sem o mínimo de sensatez e reflexão. E vice-versa. Não é porque simpatizo com o feminismo que devo concordar com a agressividade, a intolerância, com críticas fast-food de grande superficialidade e desonestidade intelectual. Não é porque me considero feminista que devo aceitar como verdade o que outra feminista fala ou dita segundo suas regras próprias e modos de interpretação dos fatos. Antes de qualquer movimento social ou de qualquer polaridade política deve vir o respeito e a ética. Não é porque o golpe está em curso que, tudo aquilo que eu não aceito como minha verdade, faça parte do golpe.
Num simples post de Facebook, porém de grande profundidade e sabedoria de Leandro Karnal, encontrei um pensamento balizador: “A verdade é maior do que um indivíduo, uma escola, uma classe ou um planeta. Ninguém a possui em plenitude. O processo de construção da verdade é, em si, um dos pontos centrais da ideia de verdade”.
Nem tudo que dizem os “meus” é a tradução da mais pura e absoluta verdade. Não, nem tudo é machismo, nem tudo é misoginia, nem tudo é golpe. Sobram-se bocas, ilações e certezas, faltam ouvidos, ponderações e cautelas. Os reducionismos linguísticos limitam o saber, a liberdade do pensar e promove rupturas profundas nas relações sociais, tudo o que não precisamos neste momento político delicado em que vivemos.