Vander Vilanova
Feb 23, 2017 · 5 min read

Sobre ser corintiano no Derby Centenário; e janelas.

“Futebol é apenas um jogo”. Eis uma frase que devo ter ouvido diversas vezes durante minha vida. E é uma das maiores falácias que já adentraram meus ouvidos. Fui criado desde pivete nos estádios de São Paulo, vendo tanto os jogos do meu Corinthians quanto de outros times. Das arenas mais modernas como a Arena Corinthians até os bastiões do Paulistão, como o Pacaembu, Morumbi, Canindé e até mesmo a extinta “Fazendinha” no Parque São Jorge, frequentei todos com sorriso no rosto, camiseta no ombro, no meio de organizada e debaixo de bandeirão. Minha primeira lembrança real como torcedor é de quando eu tinha por volta de 7 anos, e fui ver um Corinthians x Ponte Preta no Morumbi, jogo no qual eu e meu pai entramos sem pagar, pois os cambistas estavam esgotados. Mas essa é uma história para outro texto.

A minha infância em estádios, somada com a constante crescente do time nos anos 90, e todos os momentos sofridos e emocionantes moldaram a paixão pelo alvinegro do Parque São Jorge. Qualquer corintiano nascido antes de 1994 se lembra do gol de Ricardinho contra o Santos, das embaixadas do Capetinha, das faltas milimétricas de Marcelinho “Pé-de-Anjo” Carioca. Torcer para o Corinthians não é apenas vestir a camisa e acompanhar um jogo. Não se resume nos 90 minutos da partida. É um ritual, um modo comportamental que toma o corpo e a alma, é uma religião. Não importando o calor, veste-se o manto alvinegro. Não importando a crença, São Jorge é o alvo de orações. Não importando o dia da semana, o local, o horário, ou a maneira de ver o jogo… vou te ver Corinthians, em qualquer lugar.

Fazia um bom tempo que não sentia a tensão no ar tantos dias antes de um clássico como foi nesse Derby Centenário. Nos anos anteriores, normalmente os jogos entre Corinthians e Palmeiras traziam uma situação já confortável para um dos times no campeonato brasileiro (Corinthians em 2015, Palmeiras em 2016), e o duelo recente mais memorável entre ambos havia sido no Paulista de dois anos atrás. Mas esse ano o clima estava diferente, como se além da comemoração de 100 anos do duelo, essa partida serviria como uma afirmação do que ambos os times queriam demonstrar na temporada. O Palmeiras vinha com um elenco caro, com muito dinheiro investido e com uma ótima manutenção do time campeão no ano anterior. Já o clube de Itaquera entrou em campo com um elenco ainda duvidoso, com nomes pouco conhecidos e do time campeão de dois anos atrás, somente o goleiro Cássio se mantinha de titular. Um querendo comprovar a estabilidade financeira e a qualidade técnica do time. O outro, demonstrou tudo o que o corintiano pede dentro de campo: garra, força de vontade e um time que não pára.

E no momento em que a bola rolou, todos os 30 mil torcedores no estádio e os outros tantos milhões que acompanhavam o embate notaram o empenho, a raça, a garra do Timão. Com marcação apertada, divididas duras e o impulso da Fiel torcida cantando o tempo todo, o Corinthians parecia muito mais ligado na partida que o adversário. Acompanhei todos os 45 minutos iniciais pelo celular, enquanto corria para casa. Um primeiro tempo truncado, com muitas faltas e poucas chances de gol, o intervalo se aproximava e o segundo período seria decidido pelas mudanças nos times. Mas “se não for sofrido, não é Corinthians” é o lema que eu, como todo corintiano, maloqueiro e sofredor aprendeu desde cedo. Um erro grotesco da arbitragem, a medieval falta do uso da tecnologia a favor do esporte e a famosa vantagem de ocasião transformaram um embate de gladiadores em uma Batalha das Termópilas. Uma partida de ataque contra defesa, de chutão para a frente sem medo de jogar feio, com direito a grito na cara do oponente e vibrar como se fosse gol a cada dividida ganha, a cada bola afastada. Com um a mais, o Palestra jogava como se tivesse dois a menos. Não criava, não encontrava espaços e não assustava. Recorria para o chuveiro na área, onde a zaga afastava e inflava cada vez mais a torcida. Já vendo o jogo de casa, eu vibrava a cada lance, e entoava os cantos da torcida que meu vizinho puxava sonoramente no andar abaixo. Um empate seria ótimo resultado devido todas as circunstâncias, e o empenho que o time havia demonstrado tinha me convencido.

Mas se existe um lema inexorável no futebol é que “quem não faz, toma”. E a história desse Derby Centenário não poderia ter um final melhor nem se fosse redigido pelo mais competente roteirista hollywoodiano. Uma substituição aos 40', um gol aos 42' do segundo tempo, derrubando de vez qualquer esperança do time alviverde e para gravar na história e na memória de cada torcedor do Coringão. Nunca esqueci onde eu estava no gol do título da Libertadores, assim como sei que nunca esquecerei a minha reação e os acontecimentos do gol no centésimo ano do maior clássico da capital paulista. Pulei gritando da poltrona que estava, e nesse processo chutei o braço da mesma, quase derrubando-a. Corri pela casa sem direção certa, procurando uma janela aberta, variando entre gritos de “Vai Corinthians” e “chupa porcada”, sem ordem específica. Vi meu gato passar correndo assustado com o barulho e ir se esconder debaixo da cama, enquanto meu pai levantava do sofá e aumentava a TV na hora. Ouvi o meu supracitado vizinho bater a janela euforicamente, xingando e gritando em comemoração, de maneira incontrolável. O barulho era incessante, os gritos da vizinhança só cessaram com o reinício da partida, para logo em seguida retornarem com o término do jogo.

Dormi com sorriso no rosto e peito acelerado devido tão épica partida. Acordei com dor na canela pelo chute na poltrona, mas junto da dor me veio a memória do embate do dia anterior. Uma vitória sofrida, suada, na raça, na bola e o mais importante de tudo: com cara de Corinthians. Vesti a tão surrada camisa do Doutor Sócrates e fui trabalhar, ainda eufórico como se mal tivesse dormido. Saí mancando de casa, e vi quebrada a janela que meu vizinho tanto bateu no dia anterior. Aposto que ele sequer vai se importar com o conserto dela, porque a história de como ele a quebrou é impagável. Talvez nem valha a pena consertar, porque sabemos que torcer pro Timão é estar sujeito a sofrimentos, forte emoções e gritos para acordar a vizinhança. Ou talvez ele possa fazer uma vaquinha entre os corintianos do prédio. Sem dúvida alguma ele teria a minha colaboração.

Vander Vilanova

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