Deus me ouve

“Vocês ainda não entendem?” (Marcos 8:21)
“Sem fé é impossível agradar a Deus, pois é necessário que quem se aproxima de Deus creia que Ele existe e recompensa os que o buscam.” (Hebreus 11:6)

Muita confusão e frustração são experimentadas, diariamente, como consequências de nossa tentativa de controle (da vida e das circunstâncias) e de uma ideia errada sobre quem Deus é. E, claro, estas duas estão intrinsecamente relacionadas; quanto menos conhecemos a Deus, mais tentamos ‘fazer a vida dar certo do nosso jeito’.

Quanto mais eu desconheço quem Deus é, ou tenho ideias distorcidas sobre Ele, vou tender a confiar mais em mim mesma e menos nEle. Esse conhecimento de Deus não se desvenda diante de nós de maneira completa quando nos convertemos. Algo muito significativo muda, com certeza, pois nossos olhos são abertos e agora Ele se torna real. Mas conhece-lo é um processo, bem semelhante a conhecer uma pessoa: saber o que ela pensa, o que a deixa feliz, o que a irrita profundamente, quais são seus planos e sua vontade… é algo que leva tempo, exige convivência e muita caminhada.

Eu posso aprender sobre Ele lendo livros de algumas pessoas que O conhecem melhor do que eu. Mas eu preciso gastar tempo com Ele, em oração, meditação e leitura de Sua Palavra, em silêncio no meu quarto e em comunhão com outras pessoas que também O conhecem. Ele precisa estar ao meu lado em momentos bons e ruins. E, em cada situação e circunstância, eu vou aprendendo a confiar nEle.

Mas uma coisa que tem me intrigado, ultimamente, é que para isso tudo acontecer, eu tenho que acreditar que quando eu falo (em uma oração ou desabafo, em uma conversa, lamento ou petição), Ele me ouve. Parece bem básico isso, uma crença fundamental, mas em conversas com amigos e, diante de minha própria experiência, tenho percebido que muitos não acreditam nisso.

Às vezes, não acredito que Ele me ouve, porque penso que Ele é grande demais e tem coisas muito mais importantes para fazer do que prestar atenção em mim (como já aconteceu com algumas pessoas em minha vida). Outras vezes, eu penso que Ele até me ouve, mas como sou insensata e ignorante em muitos aspectos, acredito que Ele me ignora (como algumas pessoas costumam fazer também). Ou, então, penso que Ele me ouve, mas não quer me responder ou agir da maneira que espero (nem preciso dizer…). Assim, me sinto abandonada.

Mas, e se não for nada disso??

“Deus nos escuta quando ninguém nos responde. Está em nós quando acreditamos que estamos sozinhos. Chama-nos quando nos abandona.” Santo Agostinho

George MacDonald*, ao refletir sobre a lição que Jesus gostaria de ensinar aos discípulos no milagre da multiplicação dos pães (conforme Marcos 8:14–21), diz que “a lição natural, a única lição digna do milagre, era que Deus se importa com seus filhos e que pode e vai suprir todas as suas necessidades. Esta lição eles não aprenderam. A causa da repreensão de Jesus não foi porque eles não O entenderam, mas porque eles não confiaram em Deus. Depois de tudo o que eles viram, eles ainda se preocupavam com a falta de pão.” (1)

“Porque nós, facilmente, nos imaginamos em necessidade e vemos o que nos falta, imaginamos Deus pronto para nos abandonar.” George MacDonald

“Os milagres de Jesus refletiam o trabalho ordinário de Seu Pai. A lição dos milagres de Jesus não era mostrar que Ele tinha poder, mas mostrar que a ajuda está sempre ao alcance de Deus, pronta para ser exercida quando seus filhos precisam dela. Seu propósito era mostrar que Deus é Deus. Nenhum outro Deus poderia existir, ou ser digno de se acreditar, nenhuma outra noção de Deus era digna de se ter.” (1)

“A missão do Filho não era mostrar a si mesmo como tendo todo poder no céu e na terra, mas revelar o seu Pai, mostrá-lO aos homens como Ele é, para que os homens O conhecessem e, conhecendo, confiassem nEle.” George MacDonald

“Tão pouco disso eles aprenderam. Eles lembravam dos pães, mas esqueceram do Pai. E ao esquecer, eles estavam preocupados novamente com a provisão para o dia”, ansiosos, confusos e frustrados. (1)

Assim, George MacDonald nos diz que estamos errados ao pensar que Ele não nos ouve. Ele nos ouve sim e, além disso, sabe do que precisamos e está disposto a nos ajudar…. porque Ele nos ama. E, aliás, tem mostrado isso de diversas maneiras, inclusive através de Seu Filho. E ainda não entendemos isso?

Ele me ouvir não depende de mim, das palavras que uso, de minhas sensações ou das circunstâncias à minha volta. Depende unicamente dele. De quem Ele é e de como Ele age porque não pode negar a si mesmo.

Outro George, o Müller, diz que aprendemos na Palavra de Deus que Ele é muito poderoso e infinitamente sábio, mas que Ele exercita essas qualidades, especialmente, em ajudar e salvar o Seu povo. “Aquele que descansa na vontade de Deus em o ajudar, confiado nos relatos de Sua Palavra, recebe uma medida de fé para depender dEle.” (2)

“Além disso, nas situações de maior necessidade é quando minha fé será mais provada e eu terei a oportunidade de ver o auxílio e o livramento de Deus. E de cada nova situação na qual Ele me ajuda e me livra, resultará o aumento de minha fé. Por isso, não devo temer ou fugir de situações, posições ou circunstâncias nas quais minha fé é provada, mas deveria alegremente aceitar tais oportunidades onde verei a mão do Senhor estendida em meu favor, para me ajudar e, ainda, fortalecer a minha fé.” (2)

George Müller tinha uma certeza inabalável de que Deus o ouvia e queria ajudá-lo. E essa certeza era decorrente do que ele aprendia sobre Deus nas Escrituras, sobre a forma que Deus se revelava e ajudava o seu povo. Ele acreditava que o Deus revelado na Palavra, que agiu daquele jeito no passado, é o mesmo Deus hoje e que, ainda, age assim com todos aqueles que confiam nEle e O buscam.

“Clamo ao Senhor com a minha voz e ele me responde do seu santo monte.” Salmo 3:4
“E esta é a confiança que temos nele: se pedirmos alguma coisa segundo sua vontade, ele nos ouve. Se sabemos que nos ouve em tudo o que pedimos, sabemos que já alcançamos o que lhe temos pedido.” 1 João 5:14–15
“Peça e você receberá, busque e você achará, bata e a porta será aberta para você: porque todo aquele que pede, recebe; e o que busca, encontra; e ao que bate, a porta será aberta.” Mateus 7:7–8
“Qualquer coisa que você pedir em meu nome será feita, para que o meu Pai seja glorificado no Filho: se você pedir qualquer coisa em meu nome, eu farei.” João 14:13–14
“Abra sua boca bem e eu a encherei.” Salmo 81:10
“Como um pai se compadece de seus filhos, assim o Senhor se compadece dos que O temem.” Salmo 103:13
“Porque desde a antiguidade não se ouviu, nem com ouvidos se percebeu, nem com os olhos se viu Deus além de ti, que trabalha para aquele que nele espera.” Isaías 64:4

Calvino escreve: ‘Deus ouve nossa oração [mesmo que] nem sempre responda da forma exata que pedimos.’ Mais tarde ele diz: ‘mesmo quando não atende nossos desejos, [Ele] se mantém atento e benevolente para com nossas orações, de modo que a esperança depositada em sua palavra jamais nos decepcionará.’

Assim, percebe-se que a Palavra de Deus revela sobre o amor de Deus por nós e sobre si mesmo, cuja essência é o Amor. Que Ele nos ouve sim e está pronto para nos ajudar, porque nos ama. Que o silêncio, a demora e a espera fazem parte do processo de confiar e do fortalecimento da nossa fé. Grande parte do Novo Testamento visa derrubar antigas ideias baseadas no medo e substitui-las por novas ideias baseadas no amor e confiança.

“Jesus revelou que nós, seres humanos pecadores e fracos, somos convidados à mesma comunhão que Ele viveu, que somos filhos e filhas, precisamente, como Ele é o seu Filho amado. Porém uma das tragédias de nossa vida é continuarmos a nos esquecer de quem somos e a perder muito tempo e energia em demonstrar o que não precisa ser demonstrado. Por isso, precisamos de disciplina para continuarmos a viver de verdade e para não sucumbirmos às incontáveis vozes que dizem: ‘Vá para cá, vá para lá, faça isso, compre aquilo, resolva você mesmo.’ Estas são as vozes que continuam a nos desviar da voz calma e suave que fala no centro do nosso ser: ‘Tu és o meu filho amado, a minha filha amada.’ A oração é, então, o exercício para escutar essa voz de amor. Sem oração ficamos surdos à voz do amor e ficamos confundidos com as muitas vozes competitivas que exigem a nossa atenção.” (3)

Isso é realmente grandioso! Quem poderia imaginar que Deus se manifestaria a nós? Que nos acolheria desse modo tão amoroso? Mas está escrito que Ele assim o fez e continua fazendo, todos os dias, porque Ele é rico em misericórdia e sua própria essência é o Amor.

Oração, meditação nas Escrituras e disciplina são importantes para não nos deixarmos esquecer dessa verdade tão importante: Deus nos ama, somos filhos. E são necessárias para forjarem nosso coração na certeza de que Deus nos ouve e se importa conosco.

Essa é uma verdade tremenda. Deus se digna a dar ouvidos à oração. Ele se importa sim e o ama sem limites. Tim Keller


Notas apresentadas neste texto:

(1) Traduzido do livro Spiritual Classics: selected reading for individuals and groups on the twelve spiritual disciplines, editado por Richard Foster e Emilie Griffin, Renovare, 2000, p. 79–82 (Study: George MacDonald, the cause of spiritual stupidity).

(2) Traduzido do Ebook George Müller of Bristol, escrito por Arthur T. Pierson em 1899. Este trecho foi retirado do Apêndice N: The wise sayings of George Müller. (Veja este post se você quiser saber mais sobre George Müller)

(3) Trechos retirados do livro de Henri Nouwen. Mosaicos do Presente, Vida no Espírito. Editora Paulinas, 1998, p. 133–134.


*George MacDonald (1824-1905) foi escritor, poeta e ministro cristão escocês. Embora esquecido pelos leitores atuais, suas obras (especialmente seus contos-de-fadas e romances de fantasia) foram uma inspiração para muitos autores como C. S. Lewis, W. H. Auden, J. R. R. Tolkien, Madeleine L’Engle, G. K. Chesterton e Mark Twain.