Juana Inês, a série “escondida” da Netflix sobre a “primeira feminista da América” que você precisa ver

A atriz Arantza Ruiz como a jovem Juana Inês, quando era dama de companhia da vice-rainha da Nova Espanha
Escritora e poeta autodidata, questionadora de dogmas religiosos, ameaçada de ser condenada à fogueira pela Inquisição e freira — eis a história da mexicana que abalou as estruturas do México colonial

Desde janeiro deste ano, está disponível na plataforma Netflix a série “Juana Inês”, e se você ainda não parou para assisti-la, faça isso o mais rápido possível. Embora não tenha sido tão comemorada e publicizada pela mídia quanto séries com personagens femininas como Jéssica Jones, 13 Reasons Why, Orange Is The New Black, Orphan Black e How to Get Away with Murder, há várias razões para se dar uma chance a essa produção.

A história da mexicana Juana Inês, considerada a “primeira feminista do Novo Mundo/da América”, é fascinante e simboliza as diversas privações, desafios, humilhações, jogos de poder e violências vividas pelas mulheres ao longo dos tempos. Em um momento em que os movimentos feministas buscam trazer à luz mulheres que ficaram esquecidas e foram invisibilizadas por uma História androcêntrica, nada melhor do que fazer uma pequena maratona (são sete episódios) e conhecer a vida e a obra de uma mulher latino-americana que, em pleno período colonial mexicano e da Inquisição, revolucionou o que se entendia por ser mulher no século XVII.

De origem indígena e espanhola, sem posses, nome nem contatos, foi uma religiosa católica, escritora, poeta e dramaturga autodidata que enfrentou homens poderosos do governo espanhol no México, assim como a autoridade eclesiástica local, que quase a levou à fogueira por sua resistência frente às regras que regiam a vida das mulheres, dentro ou fora da Igreja.

A atriz Arcélia Ramírez como a Juana Inês adulta, já tendo feito os votos como freira da Ordem das Jerônimas

Nascida em Nepantla, no México, em 1651, e falecida em 1695, Juana Inês de Asbaje y Ramírez de Santillana entrou para a história como Irmã (Sóror) Juana Inês de La Cruz, uma freira da Ordem das Jerônimas, tendo sido considerada a mente mais brilhante da sua época. Seus poemas, assim como suas peças de teatro e escritos dedicados aos mais variados temas, eram consumidos pela corte espanhola e também pelos vice-reis que governavam a Nova Espanha, como se intitulava o México de então.

Porém, apesar de seu prestígio e do reconhecimento de sua inteligência por muitos e muitas, teve de combater a inveja dos homens ao seu redor, algo que a série explora por diversas vezes, inclusive por meio de diálogos diretos e ásperos, extremamente ricos. A sua relação com seu confessor, o padre jesuíta Antonio Núñez, é emblemática: por diversas vezes, Antonio conspira contra Juana, mente para submetê-la à vontade dele, confisca seus escritos e a coloca em situações de vulnerabilidade, tudo por conta da inveja que possui de seu prestígio e de seu intelecto.

A série se inicia com Juana adolescente e em busca de um lugar na corte, onde, segundo sua tia, poderia “arranjar um marido”; mesmo pobre e sem apoio, tornou-se dama de companhia da vice-rainha da Nova Espanha, Leonor, a Marquesa de Mancera, e sonhou com a universidade, tendo cogitado se vestir de homem para assistir às aulas. Leu os clássicos gregos e romanos, teologia e também estava inteirada do que a ciência de então produzia.

Um dos momentos mais incríveis da série se dá quando Juana Inês, num momento de atrevimento (na visão dos homens), pede para ser a tutora/professora da filha dos vice-reis. Os religiosos, todos homens, responsáveis pela instrução da corte, riem e se organizam para testá-la. Chamam para a prova os homens considerados os mais inteligentes e astutos do México, visando a humilhá-la e esperando que titubeasse diante das perguntas. Não é o que ocorre, e as cenas da “banca” são uma aula de altivez e segurança por parte da jovem Juana.

Retrato de Sóror Juana Inés de la Cruz. Miguel Cabrea, 1750.

Vítima de uma chantagem por parte de religiosos que invejavam seu trânsito na corte da Cidade do México (foi vítima de uma acusação de bastardia, ou seja, de que era filha bastarda, o que demonstra o preconceito contra mães não-casadas e seus filhos e filhas, mesmo que este fosse só um boato), acabou por abandonar a corte e optou pela clausura, até porque, acreditava ela, a vida religiosa oferecia uma oportunidade (ainda que limitada) de estudo e reflexão às mulheres, em contraposição à vida civil de pobreza e de limitações impostas por seu gênero — muitas gravidezes e partos, muitos serviços domésticos e interdição aos estudos e a uma profissão .

Ao longo de sua vida, Juana Inês envolveu-se em disputas intelectuais com grandes nomes do mundo das letras, manteve sob sua posse livros proibidos pelo Santo Ofício, dedicou poemas afetuosos e galantes a mulheres e escreveu sobre o machismo da sociedade da época, como no poema “Homens estúpidos”, em que denuncia a dupla moral masculina, que, ao mesmo tempo em que condena publicamente a prostituição, na vida privada se aproveita para explorar o corpo das mulheres.

Um ponto positivo para a série é o fato de ser toda falada em espanhol, mas vai além. As duas atrizes que interpretam Juana Inês, na adolescência e na fase adulta — as mexicanas Arantza Ruiz e Arcélia Ramírez, respectivamente — são extremamente carismáticas, cheias de vigor e dão vida a uma mulher complexa, que é capaz de tramar e confabular em favor de si mesma, de provocar e acintar os homens poderosos de sua época e, ao mesmo tempo, uma pessoa tomada pelo medo, pela resignação e pela dúvida como qualquer uma de nós.

Cena impactante em que os cabelos de Juana Inês são cortados para marcar sua passagem à vida em clausura

Representação de mulheres latinas/hispânicas na TV

Uma vez que a indústria da TV e do cinema ainda insistem em invisibilizar ou a objetificar sexualmente e a desumanizar mulheres latinas, é um bálsamo se deparar com uma produção mexicana, falada em espanhol, com atrizes mexicanas e que resgata uma mulher que viveu há mais de 300 anos. Como se sabe, quando séries se dispõem a retratar mulheres fortes e pioneiras, em geral tais mulheres são brancas, falantes da língua inglesa, europeias ou estadunidenses. O resgate da vida, da obra e da história de uma mulher que é considerada a primeira feminista da América, muito antes da articulação do movimento feminista e de suas expoentes, é algo a ser valorizado.

O embate entre as culturas — a espanhola e católica, frente à nativa, com seus deuses, rituais de sacrifício e uma lógica totalmente diversa — , a pobreza da população frente ao fausto da corte, o fundamentalismo religioso e a misoginia — que frequentemente andam juntos — , os jogos de poder entre o clero e a monarquia, são todos elementos que estão presentes na série e permitem uma reconstrução interessante do mundo e da época em que Juana Inês viveu.

Há lacunas, como o parco retrato da vida das mulheres para além dos muros do convento e pouca informação sobre a família de Juana Inês, uma certa superficialidade no tratamento da figura das mulheres da corte, como as vice-rainhas, suas filhas e damas de companhia, e também o tratamento apenas de passagem dado à presença dos negros escravizados em território mexicano — até mesmo a cultura indígena não é tão explorada como se deveria, sendo objeto de poucos diálogos e cenas.

Retrato da jovem Juana Inês, quando era dama de companhia

Gênero e Fé

Por outro lado, é interessante notar as intersecções entre gênero e fé, algo ainda pouco explorado ou simplesmente deixado de lado pelas produções sobre grandes mulheres. Independentemente de crença (ou da total ausência dela, o que é o caso da autora deste texto), acompanhar o embate entre o desejo de emancipação de Juana Inês da ordem que a ela se impunha na época, muito influenciada pela religião, e sua devoção a Deus e à Igreja, é enriquecedor para se refletir e debater os desafios que se impõem às mulheres religiosas frente ao Feminismo, e do Feminismo frente à fé e às religiões.

A complexidade dessa relação é trabalhada na série, e pode ser um pequeno norte para as discussões que enfrentamos hoje, como a que se dá em relação à autonomia corporal da mulher, o apagamento da mulher nas instituições religiosas e como conciliar o pessoal/individual e o político/coletivo.

Amor Lésbico

A representação da lesbianidade de Juana Inês — uma vez que ela nunca falou a respeito do assunto em seus escritos, historiadores se dividem sobre o teor dos versos que escreveu para as vice-rainhas Leonor e Maria Luísa, se seriam declarações de amor ou apenas uma cortesia de Juana em relação às poderosas mulheres. Na série, faz-se uma opção pelo primeiro cenário, e a relação amorosa de Juana com Maria Luísa é retratada sem objetificações ou banalizações.

Infelizmente, a série parece ter se limitado a uma temporada, já que termina com a morte de Juana Inês. De toda forma, mesmo se correndo o risco de, após os sete episódios, viver um vazio por conta da despedida dessa mulher fenomenal, vale a pena se aventurar e assistir de uma vez só a história da primeira feminista do Novo Mundo — e uma das mais marcantes que o México já produziu, ao lado de Frida Kahlo, Marta Lamas, Marcela Lagarde, Florinda Lazos León e tantas outras que ainda estamos por descobrir.

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