Kim Wall morreu em serviço, e nós precisamos discutir a segurança de repórteres mulheres em campo

A jornalista sueca Kim Wall, cujo torso foi encontrado boiando nas água da capital da Dinamarca, após ela ter desaparecido enquanto entrevistava o inventor Peter Madsen em seu submarino/ Arquivo Pessoal

Após investigações, a polícia dinamarquesa divulgou que a jornalista sueca Kim Wall, que estava desaparecida por 10 dias no Mar Báltico, morreu dentro de um submarino de propriedade de um inventor, Peter Madsen. Primeiramente ele disse que a jornalista havia desembarcado do submarino e que ele não a vira mais. Posteriormente, mudou sua versão e disse que ela sofreu um acidente, que acabou morrendo e que ele jogou o corpo no mar. A polícia disse também que Madsen forjou um naufrágio para esconder o fato. Agora, parte do cadáver apareceu nas águas da capital do país, Copenhague.

O que se sabe até o momento é que a jornalista morreu e que o magnata estava no mesmo local. Que seu corpo foi decapitado, esquartejado e jogado nas águas http://bit.ly/2wyTU2i Foi Madsen quem cometeu todos esses atos: tocar no corpo, desmembrá-lo e jogá-lo no mar, apesar de saber que não poderia fazer isso e que isso configuraria obstrução das investigações policiais. Precisamos, portanto, discutir a possibilidade de que ele a tenha matado, num possível caso de feminicídio, e que tenha simulado um naufrágio e jogado o corpo no mar para destruir evidências deste e de outros crimes.

Com isso, outra questão que emerge é: a falta de segurança das repórteres mulheres em campo. Para executarmos nosso trabalho, necessitamos que as fontes confiem em nós, e nós precisamos confiar nelas. Não apenas no que dizem, mas confiar que não nos causarão mal quando estivermos no “território” delas para uma entrevista exclusiva, por exemplo. Com uma cultura que fecha os olhos para o estupro, para o feminicídio e para outras formas de violência contra as mulheres, que entende que nosso lugar não é no espaço público exercendo uma profissão, nós nunca estaremos seguras. Precisamos questionar essa mentalidade.

Em artigo no jornal inglês The Guardian, a jornalista Sruthi Gottipati lembrou de um período em que ela e Wall participaram de uma missão jornalística em Uganda, considerado um dos piores países para uma mulher viver. Elas participavam de um programa de uma organização que visa a aumentar a participação e a voz das mulheres no jornalismo, a International Women’s Media Foundation (IWMF). http://bit.ly/2x5tmTc

A colega, disse Gottipati, trabalhou em muitos locais, como Quênia, Sri Lanka, China e Coreia do Norte. Tragicamente, morreu no país que é considerado um dos bastiões da igualdade de gênero, a Dinamarca, o que prova que nenhum lugar é realmente seguro para as mulheres enquanto não houver o fim da desigualdade entre homens e mulheres.

Não sabemos ainda o que de fato aconteceu, mas vários indícios nos levam a fazer perguntas inadiáveis: por que Peter Madsen mentiu sobre o desembarque da jornalista? Por que forjou um naufrágio? Por que, caso ela tenha morrido de acidente, não preservou o local onde a morte ocorreu para que a polícia fizesse seu trabalho? O que ele tem a dizer sobre o fato de que há marcas de sangue da jornalista no submarino e sinais de que ele tentou manipular o corpo para que ele afundasse?

Num momento em que os direitos de trabalhadores em todo o mundo estão sendo suprimidos, incluindo aí os trabalhadores da imprensa, com a diminuição de custos, menos investimento em apuração e aumento da contratação de free-lancers, qual é o investimento feito na segurança de jornalistas que vão a campo? Qual é o protocolo adotado pelas empresas jornalísticas quando um repórter não faz contato com a redação e desaparece? Em relação especificamente à segurança de repórteres mulheres, como essas empresas têm agido?

Nós, mulheres jornalistas, também precisamos ser incluídas na discussão sobre igualdade. Quando falamos em fim da violência de gênero e maior inclusão das mulheres, as discussões não envolvem apenas as fontes mulheres ou as mulheres que aparecem nas reportagens. Também estamos falando de nós, trabalhadoras da notícia. Infelizmente, nossa dor não costuma sair no jornal, nossos colegas e chefes menosprezam as particularidades que envolvem nosso trabalho e quem nos lê mutias vezes nos trata como invisíveis. Isso precisa mudar.

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