Carne em transe

Fui tua.
Carne nua de Mulher no teu mundo. Lânguida. Poros abertos e coragem última.
Nossa cama era de um pertencimento sagrado de palavras e inaugurações.
As luzes de outono de todos os países passavam sob nós, quando, debaixo dos lençóis, eu me inclinava para sorver o teu líquido, e via, fixada em teus olhos, o crescimento da grande beleza.
E, quando eu saltava da cama, descalça, loira, metade musa, metade descabelada e faminta em direção ao espelho, sentia o doce do prazer sacudir narcisos guerreiros ao assistir o espetáculo do bico dos meus seios em transe avermelhado pelo atrito desejoso da tua língua e dentes. Era assim: examinava os bicos de mulher pós-guerra antropófaga e gostava dos rastros refletidos em glória.
Misturei-me em sua solidão, saliva, sêmen, Gozo, desespero e gritos. Misturei-me até onde não devia, foi aí que misturamo-nos e revoltamo-nos.
Hoje corro no mundo longe. Me ergo forte e complacente. Embora latina, embora todo coração, embora estúpida. Embora eu já saiba, ensimesmada em minha pele riscada de passado e verso.
A despeito das circunstâncias, ainda te espero com a cara lavada, as mãos em carinho e o corpo inclinado para beijos em atitude.
Será prudente, a essa altura, tamanho escândalo latejante baby?

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