O Lado Positivo do Medo
Este artigo foi publicado na revista Psicologia Especial nº 34 — Medos e Fobias, lançada em março de 2017.
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O medo é um sentimento natural e que acompanha a humanidade desde os primórdios. Pode-se dizer que foi esse sentimento que garantiu a nossa espécie por muitas gerações, e é ele que ainda nos garante a sobrevivência.
Porém, até que ponto este sentimento nos impulsiona ou nos limita?
Saber a dosagem do medo é fundamental para que possamos utilizá-lo em prol de nossa vida.
Afinal, o que é medo?
Nosso cérebro é um órgão extremamente complexo, que possui uma rede de comunicação com mais de 100 bilhões de células nervosas. Este é o ponto de largada para tudo o que sentimos, pensamos ou fazemos. Algumas dessas comunicações nos levam ao pensamento e à ação consciente, e outras produzem respostas autônomas. No caso do medo, a resposta é quase inteiramente autônoma, ou seja, não a disparamos conscientemente.
A definição mais comum e que consta nos dicionários relaciona a palavra medo com perturbações diante de um perigo, sendo este real ou não. O medo prevê um estado de apreensão, atenção e de expectativas negativas em relação ao futuro.
Além das definições da palavra, o medo é uma sensação ligada ao estado em que o organismo se coloca em alerta diante de uma ameaça. Esta ocorre a partir de estímulos físicos ou mentais — interpretação, fantasia, imaginação e crenças — que disparam uma resposta fisiológica para que o organismo libere os hormônios do estresse (cortisol e adrenalina), que prepara o indivíduo para lutar ou fugir.

Portanto, o medo é um estado emocional de alerta frente a algo ou situação de ameaça que, consequentemente, gera o comportamento de receio ou esquiva.
São diversos os estudos que mostram que os seres humanos são geneticamente predispostos a temer determinadas coisas como aranhas, cobras e ratos. Todos estes animais já apresentaram um perigo real na história, pelo fato de serem venenosos ou carregarem doenças. O medo é então, um instinto evolucionário contido no consciente humano, o que explicaria o medo de cobras, por exemplo, que já foi encontrado em pessoas que nunca estiveram frente a frente com uma.
Um experimento realizado pelo psicólogo Martin Seligman demonstrou que o medo é uma forma de condicionamento. Neste estudo, eram mostrados aos participantes fotos de certos objetos ao mesmo tempo em que lhes davas um choque elétrico. O objetivo era criar um medo intenso e irracional do objeto da foto. Quando eram apresentadas imagens de aranha ou cobra, bastavam de dois a quatro choques para estabelecer uma fobia, porém, quando a era apresentado algo como uma flor ou árvore, eram necessários muito mais choques para que se estabelecesse um medo real.
Estes estudos reforçam que todo medo é criado por um estímulo de ameaça que temos na memória ou a partir de situações vividas no passado, e termina com uma reação, que pode ser instantânea, impulsiva ou racional, na medida em que avalia-se todas as informações afim de interpretar o estimulo como uma ameaça ou não.
Além dos medos universais e mais instintivos, há também os medos específicos e individuais, relacionados a comunidade, experiências, cultura e religião.

A grande questão sobre o medo é que, sua ausência, assim como seu excesso pode acarretar danos ao indivíduo. Quando ponderado, há possibilidade de convívio social e liberdade emocional, porém, quando intensificado, gera patologias como fobia e pânico que podem comprometer as relações sociais, físicas e psicológicas do indivíduo.
A contextualização do medo.
Além de sua definição, é importante contextualizarmos esse sentimento na história da humanidade. Toda civilização é o produto de uma longa luta contra o medo, pois há uma confusão mental que difunde o medo e covardia, a coragem e a temeridade. Durante toda a humanidade, o homem camuflou as reações naturais do medo e sobrepôs o ato heroico.
A construção social e história do medo está carregada de vergonha e covardia, e onde há ausência de coragem, há negação. Por uma necessidade social, enterramos no nosso mais profundo, os medos que dominam o nosso ser e nos forjamos heróis combatentes de monstros externos que são uma representação e projeção de nossos monstros internos.
Além dos medos ancestrais, como o escuro, fogo, animais desconhecidos e altura, o homem também adquiriu medos ao longo de sua existência. Alguns derivados de suas experiências de vida, como sentimentos mal resolvidos, situações mal compreendidas e desafios que trazem ameaça e mudanças, e outros por imposição humana, a partir das leis, regras e religião.
Basta olharmos para a história para compreender que o medo sempre nos acompanhou de alguma forma, e que este sempre teve um papel muito maior e profundo em nossa constituição como seres humanos.
Vamos então, voltar no tempo e compreender como este sentimento influenciou nossa relação em sociedade.
O homem da Idade Medieval temia o mar, que em sua fantasia, além de ser povoado por monstros, sereias e seres desconhecidos, também representava o abismo que habitava o próprio ser humano.
Quando o homem medieval dizia temer o desconhecido do mar, significava que temia o desconhecido que existia em si mesmo.
Na Idade Média, o homem internaliza seus medos. Segundo Jean Delumeau, historiador francês que estuda a influência das religiões na constituição da sociedade, este ato acontece pela intervenção da igreja católica, período em que o homem deveria tomar cuidado para não ser um agente do mal. Por meio deste pensamento, surgiu à necessidade de ter medo de si mesmo.
Na Grécia Antiga, todos os Deuses eram temidos, no Antigo Testamento, o Deus cristão era um Deus temeroso. E então, vieram as pestes, as anomalias genéticas, as doenças e as inúmeras ameaças de um apocalipse.
Os medos da modernidade, agora mais próximos de nós, referem-se a solidão, abandono, dependência, violência e ao insucesso.
E o medo da morte, que permeia a existência do homem, em praticamente todos os períodos históricos?

A morte pode ser vista como um mistério incompreensível, pode ser facilmente aceitável ou ser tratada como um tabu, mas, seja como for, a morte é uma realidade, e por isso, é tão temida. Por mais que queiramos nos esconder dela, deixar de existir é tão natural quanto existir e provavelmente, a morte é a única certeza em nossa existência.
Qual é o seu medo?
Olhar para seu interior e perceber os seus temores não é sinal de fragilidade ou de covardia. Afinal, o medo é um sentimento natural, com um papel importante para nossa segurança e proteção, fundamental para uma vida emocional equilibrada.
A superação dos medos só é possível para aqueles que os tem e isso não é vergonha alguma.
Afinal, o que faríamos se não tivéssemos medo?
Na ausência do medo, não teríamos reação alguma em situações de perigo, e nos colocaríamos em risco de extinção.
Para Freud, o medo é um conceito fundamental para que o homem lute por objetivos e se submeta a provas sociais que requerem motivação e competição.
Nossa relação com o medo também gera a harmonia social, onde há ordem e controle. O sentimento está na base da sociedade por meio de instituições que podem ser opressoras, porém, sem o medo, a falta de culpa e pecado poderia gerar o caos e a barbárie.

Os medos criados por nossa mente, que desenvolvemos a fim de termos uma vida mais saudável também garantem nosso futuro. Se não tivéssemos medo de morrer, viveríamos sem cuidado e morreríamos ainda mais jovens.
Para Winnicott, o medo é uma peça fundamental para o desenvolvimento humano e então para o amadurecimento emocional do indivíduo. Para o autor, este sentimento é uma construção realizada a partir de experiências que temos em vida desde a infância, constituindo assim, um conjunto de ideias e associações que originam as fantasias.
O choro do bebê, por exemplo, se origina pelo medo da dor, que já foi vivida e que agora, é recordada em sua memória. A intensidade do choro é a mesma de quando a dor foi experimentada e com isso, cria-se a fantasia que sustenta o medo de sentir dor.
O medo, para Winnicott, prevê uma condição de existência, a medida em que estabelece a possibilidade de o indivíduo continuar existindo, amenizando assim, ansiedades intoleráveis. Este é um afeto humano e relaciona-se a ideia de que sua vivencia está intimamente ligada aos seus efeitos e impacto no psiquismo e cotidiano do indivíduo.
Isso significa que, o medo não é apenas um sentimento que garante a sobrevivência e a segurança, como também é responsável pelas ações que garantem a conexão e a necessidade social.
Por meio deste entendimento, a ausência de medo é sinal de adoecimento. Assim como o seu excesso.
E quando o medo se torna patologia?

Sensação de morte, calafrio, dores físicas, sudorese, coração disparado, falta de ar, tontura e a sensação de que algo muito ruim vai acontecer a qualquer momento são sintomas comuns em uma crise de pânico.
Algumas pessoas sentem este ataque uma única vez, outras com frequência. Quando estes episódios são frequentes, caracteriza-se o transtorno de pânico e o fato do indivíduo não ser capaz de prever ou controlar estes momentos de crise, além de afetar diretamente sua rotina diária, estabelece o medo de ter medo.
Apesar de serem muito frequentes, o diagnóstico do transtorno do pânico é um grande desafio, já que seus sintomas são muito similares a um ataque cardíaco e é comum a confusão com alguma patologia física. Geralmente, estes pacientes não diagnosticados passam de médico em médico, são submetidos aos diversos exames na tentativa de descobrir a causa dos sintomas.
Cada dia, os ataques de pânico são mais comuns, devido à forte tendência social e estilo de vida que acatamos. As causas mais comuns observadas no consultório são:
O medo da morte. Todos nós já nascemos com a consciência de que iremos morrer e a finitude humana é uma realidade desesperadora, principalmente pois os sintomas do pânico são associados a dores físicas e de ataque cardíaco;
O medo de enlouquecer também é bastante frequente, pois está relacionado a sintomas de despersonalização e irrealidade;
E por fim, o medo de perder o controle. Mesmo esta sendo uma condição muito comum, principalmente em uma rotina que muda o tempo todo, a maior parte das pessoas parece não lidar muito bem com o descontrole, gerando então pensamentos de catástrofes e tragédias.
Por mais que os sintomas sejam similares e que as pessoas não costumem associar a crise com algum fato que a justifique, na clínica e em seu tratamento, compreendemos que houve sim um acontecimento real que deu origem ao transtorno. Geralmente, o acontecimento pode ter ocorrido entre 6 meses e 18 meses antes do momento da crise.
Em geral, há um grande alivio quando o diagnóstico é acertado, pois traz o sentimento de que estes sintomas podem ser tratados e então dissolvidos a partir do tratamento clínico que gera consciência dos medos e situações que o acarretaram, assim como o empoderamento para desenvolver um equilíbrio emocional saudável.
Em qualquer situação, onde o medo é o grande causador de determinadas patologias, é essencial a consciência destes para a promoção de saúde.
Como então, compreender o nível e dose saudável do medo?

Saber esta resposta só é possível a partir do entendimento sobre seu nível de medo saudável. Ou seja, quando o indivíduo é capaz de perceber e observar este medo, sem que este seja uma ameaça.
Quando se instala o medo de ter medo, passamos a não nos relacionarmos mais com este, gerando então patologias como o pânico.
No momento em que eu me relaciono e entendo o meu medo, por mais que estes sejam causa de dor e ansiedade, é possível o enfrentamento por meio de recursos internos e externos.
No processo psicoterapêutico, é muito comum, os pacientes trazerem seus medos para serem analisados e então eliminados. Porém, não cabe ao psicoterapeuta o treino antifóbico ou qualquer prática no sentido de exterminá-lo. Os medos são materiais de diagnóstico e representam a ponta do iceberg, cabendo então ao analista conduzir o paciente no processo de consciência, desmistificação e reformulação da relação existente com este sentimento. O paciente é uma complexidade da qual os medos fazem parte, e é cuidando desta totalidade que construiremos um processo terapêutico saudável e potencial.
Dicas para lidar com o medo de forma positiva:
Independente do motivo pelo qual o medo se desenvolve, não se apegue a ele. Conhecer o seu medo e a causa deste pode te ajudar no momento de consciência, porém, não é essencial para a superação deste sentimento. Muitas vezes, ficamos em um ciclo onde o porquê é muito mais importante do que a superação. Por isso, manter o foco na solução é muito mais assertivo do que a compreensão do motivo.
As incertezas podem ser um grande componente e mantenedor do medo, por isso, o conhecimento sobre aquilo que você teme pode te ajudar a superá-lo. Utiliza a razão e avalie se o sentimento é real ou fantasia e então, desmistifique o objeto que é representado pelo medo.
A prática pode trazer familiaridade para o que é motivo de medo. se você tem medo de altura, por exemplo, vale a pena começar a enfrentar este sentimento a partir da exposição e do contato com ele. Experimente situações onde você poderá desconstruir a memória ou associação que foi criada e que gera o medo.

Compartilhar seus medos e fobia pode também te ajudar a lidar com esse sentimento. Devemos nos conectar com os medos e não evita-los.
Use sua criatividade como seu aliado. Se imagine em situações de enfrentamento do medo e faça jogos mentais consigo mesmo com o objetivo de experimentar situações em que substituirão a imagem mental que deriva o sentimento.
Concentre-se nas partes e não no todo. É importante sair da generalização e do estado mental que o medo te remete, e isso é possível por meio do foco e concentração. Se tem medo de altura, por exemplo, e precisa passar por uma ponte, olhe para a rua, para o que está mais próximo de você e concentre-se em cada passo que dá.
Procure ajuda quando necessário. O medo é um sentimento natural, porém, se houver dificuldade na superação destes, procure um profissional para ajudá-lo. Existem hoje diversos tratamentos que podem te auxiliar, desde um processo de psicoterapia individual ou em grupo, coaching e grupos de apoio. Não há razão para sofrer sozinho.
Nosso relacionamento com o medo é um grande termômetro, para compreendermos os aspectos de nossa saúde emocional. Saber identificar um medo natural do medo que deriva a patologias é essencial para gerirmos nossa saúde emocional.
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REFERÊNCIA BIBLIOGRÁFICA:
DELUMEAU, Jean. História do medo no Ocidente: 1300–1800. 3ª rein. São Paulo: Companhia das Letras, 1989.
WINNICOTT, Donald. Tudo começa em casa. 5º ed. São Paulo: Martins Fontes, 2005
SILVA, Ana Beatriz Barbosa. Mentes ansiosas: Medo e ansiedade além dos limites. Rio de Janeiro: Editora Objetiva, 2011.
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A AUTORA
Apaixonada pela vida e pelo desenvolvimento humano, acredita que o processo de autoconhecimento é o único caminho onde todos os sonhos são possíveis!
Formada em Psicologia pela Universidade São Marcos, Pós-Graduada em Psicopatologia e Saúde Pública pela Faculdade de Saúde Pública da USP. Certificações em Alpha Assessment, Personal & Professional Coaching e Executive, Business & Leader Coaching pela Sociedade Brasileira de Coaching.
Psicóloga clínica desde 2008, com atendimentos individuais e em grupo. Atuação com treinamento, coaching e gestão de conflitos e carreira desde 2005.
Possui a missão de mudar o mundo através das pessoas à sua volta, sendo uma facilitadora no processo de autoconhecimento em busca do sentido de vida e felicidade. Acredita em todas as formas de viver, expressão e ser, sem se basear em modelos limitantes.
Fundadora da People Coaching e Desenvolvimento Organizacional, consultoria especializada em coaching, treinamento e programas de desenvolvimento empresarial. E também onde desenvolve cursos, workshops, palestras e treinamentos com os temas autoconhecimento, relacionamento, liderança e auto-gestão para pessoas e empresas com o objetivo de encontrar felicidade e realização de sonhos.
Sócia e fundadora do Espaço Ulu Ana — Psicologia e Bem-estar, onde atua como psicóloga clínica e promove eventos e palestras voltados a qualidade de vida e bem-estar.
Co-criadora dos projetos:
Os Anônimos — Projeto colaborativo e fotográfico que conta a história de pessoas por meio de suas histórias e fotos com o objetivo de empoderar e inspirar.
Terapia na Rua — Projeto social e de intervenção urbana que leva a escuta para promoção e prevenção de saúde.
