O príncipe nem tão encantado.
Nunca é fácil falar sobre isso. Nunca foi. Espero que um dia seja.
Eu tinha 17 anos. Apenas 17 anos. Conheci um cara no verão de 2009. Foi, de longe, a maior catástrofe da minha vida.
Eu, 17, estudante. Ele, 30, duas filhas, desempregado, pouca escolaridade, surfista amador.
Duas filhas de 9 e 11 anos, das quais vou me referir apenas pelas iniciais: P. e L.
Renegadas pela mãe. A mesma casou-se de novo, teve mais duas filhas e resolveu descartar o passado.
Renegadas pelo pai, também. Humilhação, ofensas pesadas, agressões físicas pesadas em ambas. Elas passavam trabalho. Não tinham roupas. Não tinham nem sequer um quarto decente. Não tinham pai, nem mãe, nem nada. Tinham uma madrasta adolescente que não sabia nem como lavar uma roupa pra irem para a escola.
Reunião de pais e mestres? Eu ia. Matrícula? Eu ia. Buscar boletins? Eu ia. Sustentar? Eu sustentava — com meus reles 700 reais que ganhava trabalhando de segunda a segunda em um super mercado.
Fomos morar juntos no dia que fiz 18 anos. Não preciso mencionar o quanto meus pais preferiam me ver morta do que ao lado desse cara (minha mãe, inclusive, falou isso). Obviamente ele odiava meus pais. Obviamente me encheu de ameaças e chantagens pra que eu saísse de casa à MEIA NOITE do dia do meu aniversário.
31/08/2009
Fomos morar juntos no litoral, em uma casa humilde com pouca estrutura e móveis velhos. Também não preciso dizer do paraíso que ele me prometeu. Pois, claro, ele era meu príncipe encantado. O grande amor da minha vida. O cara que ia me fazer ver o mundo rosa.
Só que não.
Dois meses morando juntos foi o bastante pra que a primeira agressão viesse. Motivo? Não havia lavado suas roupas. O surfista desempregado estava muito ocupado jogando vídeo game e tirando dinheiro do sustento de suas filhas pra comprar coisas para si. Camiseta de 100 reais? Check. Prancha de 500? Check. Play station do momento? Check. E eu implorando aos meus pais quantias mínimas pra que eu pudesse comprar os materiais escolares das meninas.
Foi um soco. Um soco só. Caí. Senti gosto de sangue na boca. “Se gritar, leva outro.” “Marcos, para, por favor…” Não parou. Com esse soco vieram uma sequência de tapas, socos e insultos.
Não consegui reagir. Não era real que eu estivesse vivendo aquilo. Não era normal.
“Não doeu tanto assim”, ele disse debochando seguido de um “Juro que nunca mais faço. Eu te amo.”
Após isso, vieram as humilhações públicas. As reuniões com amigos em casa regadas de “Não fez janta pra gente? Puta imprestável! Vai pra cozinha, ridícula de merda.”
Mas eu tinha que ser grata. Afinal, ele era o único que me amava. O único que me amaria. O único santo por fazer o favor de me aguentar. Eu que ficasse satisfeita.
As crianças assistiam tudo. Sem contar as dezenas de vezes que o soco foi em mim pra não ir nelas. “Bate em mim, mas não nelas.”
Claro, meu amor. Com prazer.
A segunda vez não demorou muito tempo. Estava indo ao mercado e na volta perdi 50 reais na rua. Ele me arremessou um espelho. Tu não leu errado, não. Um espelho que só não atingiu meu rosto porque coloquei o braço na frente, que posteriormente cobri com uma tatuagem.
Adoro tatuagens e tenho dezenas. Saibam agora que não começaram por estética.
Ele disse pra eu revidar, “se eu era bem mulher”. Falando nisso, “Tu não é mulher o suficiente pra ir embora. Tu não tem coragem. E se contar pros teus pais, sobra pra eles. Agora cala essa boca e lava essas roupas, puta de merda.”
Meus pais tinham idade. Atualmente, meu pai tem mais de 70 anos. Nunca souberam disso. Talvez agora ele saiba. Felizmente a mãe foi embora desse mundo antes de saber de tudo isso.
Mãe. Me perdoa. Eu devia ter te ouvido.
Certo dia ele chegou com um revólver em casa. “Ou tu dá jeito de vender, ou vai pra rua dar pra trazer dinheiro.”
Não fui “dar”. Não restou tanta alternativa.
As agressões continuavam cada vez piores, até, enfim, vir a tentativa de estrangulamento.
“Vai gritar? Ninguém vai te ouvir. Leva quieta.”
As meninas, principalmente a mais nova, abraçava minhas pernas e pedia pra que eu não fosse embora. Dizia que eu era a mãe dela e assim me chamava. O que seria delas sem mim? Entendem o fardo de tudo isso?
“Aguenta, Vanessa. Tu consegue. Aguenta por elas.”
Aguentei quase dois anos. Dois anos de agressões, humilhações pesadas, sexo forçado, trabalho de 12 horas por dia pra não ver o dinheiro, olhares e elogios descarados pras minhas amigas, ameaças a mim, aos meus pais, as meninas. Cansei de ter de ir a escola delas justificar os roxos pelo corpo. Mas com cuidado, afinal, tinha que esconder os meus.
Disse que ia ir embora. Fiz minhas malas. Ele trancou a casa me deixando em cárcere privado por dois dias. Quebrou meu celular com um martelo. Ameaçou se matar na frente das meninas. Ameaçou me matar. Tentou, e posso dizer que conseguiu, pois jamais conseguiria numerar as inúmeras coisas que morreram em mim.
“Então me mata logo, cara. Não tem muito o que matar, mesmo.”
Consegui fugir e com os únicos 20 reais que tinha, comprei passagem de volta à Porto Alegre. Ele foi atrás de mim, me agrediu na frente de todos na rodoviária (que, óbvio, nada fizeram), tomou minhas malas e voltou pra casa. Jurei que voltaria. Jurei que era só um tempo.
Jurei pra mim mesma que nunca mais.
Não consigo até hoje descrever a sensação de ter chegado na casa da minha mãe, encharcada pela chuva com as mãos esfoladas de tanto peso nas malas. Esqueci de mencionar que uns dias antes, eu havia dormido na rua.
“Entra, minha filha. Agora tá tudo bem.”
Mãe, não tava tudo bem. Me tornei um nada, um zero, um lixo.
Eu era linda.
As ameaças não pararam. Não consegui sair de casa por semanas, por medo do Marcos estar em qualquer esquina. Tive pânico só de pensar na possibilidade de encontrá-lo. Desejei morrer muitas vezes, antes que ele me encontrasse de novo. Quis proteger meus pais, até que minha mãe (na sua fúria de 1,50 de altura) atendeu o telefone, desatou ofensas e ameaças piores.
Mãe. Tu era tudo que eu tinha e eu não sabia.
Pai, perdão. Eu juro que não pensei que fosse ser assim.
Meninas, eu tentei. E tentei tão bem que até hoje tenho o amor incondicional das duas. Esses tempos, uma me escreveu agradecendo por tudo que fiz por ela. Disse que aprendeu a cozinhar, a gostar de matemática, de inglês, que aprendeu a cuidar de uma casa, aprendeu a ser forte, aprendeu a ser de bem.
Marcos Jhonathan, que a vida seja justa contigo.
Vanessa de 18 anos, tu merecia uma vida diferente. Me perdoa! Mas ainda é cedo. Arregaça as mangas e vai.
Não sei como concluir esse texto, pois a ideia era jogar isso pra fora que há anos passou trancado.
Foram anos de terapia. Eu aprendi a te amar, vida. E aprendi que, definitivamente, não importa quantos empurrões tu me dê. Eu te dobro, sua cretina.
Para as mulheres que passam por isso, ou qualquer forma de relacionamento abusivo: ele não vai mudar. Ele não vai melhorar. Ele não vai te oferecer em semanas o que não te ofereceu até agora. Ele não te ama e possivelmente nem tu o ame. Ouve a porra dos teus pais. Dificilmente eles tão errados . Eles só querem o teu melhor e sim, eles erram. Mas errar amando jamais é erro.
Não demorou pra eu me envolver em outro relacionamento tóxico, aos 22. Mas este fica pra outro momento.
Obrigada por quem leu, e agora conhece um pouco mais da Vanessa além das redes sociais.
E acho que é isso.
