Histórias em fôrmas de mensagens

Vanessa Macêdo
Feb 23, 2017 · 3 min read

Quando eu li no livro da Lena Dunham Não sou uma dessas (2014) aquelas pequenas frases de críticas positivas atrás do livro, que ela poderia ser comparada com Woody Allen eu achei presunçoso.

Foi irônico porque eu não suporto Woody Allen, a começar por quem gosta de Woody Allen. A justificativa para isto é completamente pessoal e baseada em umbiguismo e recalque, ao menos a primeira camada. Mas algo me dizia que não deveríamos aproximar a Lena ao Woody e que certamente ela era muito pior.

Recentemente eu revi Match Point (2005) por se tratar de um bom filme no meu julgamento. Meu interesse não era o de analisar, ou de entrar em contato com a nova pessoa que revia o filme alguns anos depois, era puro deleite em com algo que eu gostava. Mas ao longo do filme algumas coisas foram me incomodando ao ponto de pegar um caderninho e fazer algumas anotações.

Quando Girls foi lançado em 2012 eu achei fantástico, havia no roteiro algo de novo e honesto sobre as amizades femininas numa cidade grande. Havia uma protagonista disposta a se desnudar — literalmente, e falar de contradições, erros, frustrações num cenário individualista e egoísta. Quando a segunda temporada saiu tentando responder as críticas por falta de diversidade no elenco, a Lena fez questão de cagar a porra toda e dizer que raça não existe ao contracenar com Donald Glover! Foi um ótimo pretexto para colocar os pés no chão.

Em Girls, Hannah é uma protagonista que se move em direções que a narrativa acontece, como se fosse um caminho que se constrói. A protagonista assim, caminha por eventos que são maiores que ela, em agradáveis surpresas previamente amarradas em um enredo que sempre diz o que quer dizer. Em Girls, Hannah não enfrenta nada, Hannah não toma decisões, Hannah não faz escolhas, Hannah apenas caminha em um roteiro que acontece, caminha por uma mensagem. E Lena fala muito em Girls, Hannah fala tudo que Lena quer dizer. E em Match Point acontece algo parecido.

Certamente uma das experiências mais empolgantes é viver o personagem, se permitir enfrentar seus dilemas, encarar suas questões e viver suas escolhas. Existe uma história sendo contada, existe um conjunto de sensações que se busca alcançar em um roteiro e existe o autor. Para além destes elementos existem mensagens, posicionamentos colocados e questões. Em Match Point, Woody Allen conta uma história com mensagem, seu protagonista se move dentro de uma narrativa previamente amarrada, ele não tem muitas opções apenas se mover dentro de um caminho que se coloca. E assim aceitamos e acompanhamos os passos de um protagonista que está vulnerável a própria sorte.

Talvez a experiência de uma narrativa que quer antes de qualquer coisa defender uma ideia e passar uma mensagem seja breve e curta, como são os contos e talvez como permitem os filmes. Mas um seriado que em todos os episódios te manda uma mensagem na cara dura cansa demais. Hannah nada mais é que uma protagonista em função de uma mensagem, ela não enfrenta a narrativa nunca porque ela foi criada para andar pela narrativa. Tudo acontece para Hannah, porque tudo precisa acontecer para defender a mensagem. E você nunca vai viver na pele da Hannah, seu lugar permite apenas aceitar ou não a mensagem, se você aceita a experiência acontece como reafirmação, mas se você não aceita é impossível viver Hannah.

Talvez faça sentido compará-los, ambos são as mensagens que defendem e apresentam para seus públicos, ambos serão maiores que a própria história que querem contar, ambos fazem de seus protagonistas espelhos de si, ambos apresentam experiências que refletem a si mesmos, você ao comprar a mensagem, não vive um protagonista e uma questão, você vive sua devoção ou seu desprezo a Woody e a Lena.

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