A linda humilhação da dor

(Pintura da artista Amanda Greavette sobre umas das dores mais bonitas da humanidade)

Sinto profundo respeito por quem se relaciona com a dor de forma sincera, vulnerável, madura e responsável (há que se responder à dor em vez de fingir que ela não existe — vide a quantidade de síndromes, doenças auto-imunes e cânceres que resultam das dores reprimidas). Seja sentindo em silêncio — mas atento ao sentir, escrevendo, falando, chorando, gritando, dançando, cantando, expurgando como for ou se acomodando num colo ou num abraço — a dor precisa de espaço (talvez urgente) pra se expressar na nossa vida e na nossa sociedade.

Celebro a dor como rito de passagem: a dor de nascer, a dor de parir, a dor de amar e expandir o coração, a dor da rejeição, a dor de escolher, a dor da perda, a dor da morte. Até a dor do outro, a dor das tragédias, as dores da Terra, as dores do mundo.

Agradeço aos amigos que sentem dor comigo — e não se abandonam na própria dor, e nem me apressam em fugir da minha. Agradeço aos meus clientes de terapia corporal, que se entregam e confiam em atravessar e se desapegar de suas dores comigo, curando a si e a nós. Agradeço à minha mãe e a todas às mulheres que vieram antes, que sentiram uma das dores mais bonitas que existem pra que eu pudesse chegar nesse mundo no meu próprio tempo, e sentir minhas próprias dores, e com isso crescer.

Agradeço ao poeta David Whyte, que me fez acessar a luz da dor com a clareza amorosa das palavras abaixo.

“A DOR é a porta de entrada para o aqui e agora. Física ou emocional, a dor é a forma mais concreta de enraizamento, de dizer, para cada um de nós, que não há outro lugar além do seu lugar, não há outro corpo além do seu corpo, não há outro limbo, outro nó, outra afliçao, outro corte ou desilusão além dessa presença lancinante.

A dor nos pede que nos curemos não só percebendo o lugar que dói mas também a forma presente de sentir a dor. A dor é uma forma de alerta e de peculiaridade. A dor é um caminho para dentro.

(…)

A linda humilhação da dor nos faz naturalmente humildes, nos faz colocar de lado nossa pretensão. Sentindo uma dor real não temos alternativa que não seja aprender a pedir ajuda, diariamente. A dor nos mostra que pertencemos e que não podemos viver pra sempre sozinhos e isolados. A dor nos faz entender a reciprocidade.

(…)

Ainda assim, a dor é uma estrada solitária. Ninguém pode medir nossas agonias particulares, mas através da dor nós temos a possibilidade, apenas a possibilidade de começar a conhecer e a compreender os outros, como começamos, com muita dificuldade, a conhecer e compreender a nós mesmos.”

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