As micro esferas do poder nas suas mãos (or Yes, we can)

Eu me incomodo por me incomodar com pessoas próximas a mim, especialmente as que eu admiro, reclamando de política como se não pudessem agir ou assumir alguma responsabilidade direta pela mudança, por menor que seja. Apontando o dedo pro outro sem sair do sofá. Não importa quem seja o outro: a apatia e o vitimismo em relação a ele é que ainda me desafiam a ter compaixão. Especialmente se o mal que ele faz é danoso em larga escala, me custa mais ainda aceitar que algumas pessoas não estão prontas pra abrir mão dos seus privilégios, e por isso preferem não fazer nada, nem por si mesmas. Eu queria não ligar pra isso, porque isso tira o foco da minha ação.

Em 2013, quando milhões de pessoas se manifestaram pelo Brasil em função do aumento do preço da passagem — e todas as outras injustiças que fizeram transbordar a intolerância do povo, a guerra mais difícil de atravessar não foi a da nossa própria polícia entorpecida de medo / controle / poder autoritário e munida de gás lacrimonigênio e outras armas (que eu e muitos amigos próximos tivemos a sorte de não encontrar). A guerra mais difícil estava na raiz do problema, entre a perspectiva expandida somada à dor real de quem botava o corpo na rua, e a ignorância e o amortecimento de quem acatava as notícias distorcidas da mídia de massa como verdade, a partir da zona de conforto em frente à televisão. Basta mudar de canal pra história do mundo parecer mudar também. Vivi esse conflito em família por alguns instantes, e fiquei impressionada com o alcance e a permeabilidade da discórdia gerada por quem detém grandes poderes. Fortaleceu em mim a consciência do quanto é importante nos autorresponsabilizarmos por nossa parte, cuidarmos dos que amamos, e às vezes fazermos simplesmente a nossa parte, deixando que a vida cuide de espalhar as sementes pelo tempo.

Foto: arquivo pessoal. Manifestação na Cinelândia, Junho 2013.

(Esse texto seria só um comentário em resposta a um texto sobre política. Virou um desabafo catártico. Daí as fotos de uma viagem que fiz sozinha vieram à minha mente e de repente se encaixaram aqui. A perspectiva daquele momento de abundância — abertura, receptividade, confiança na vida (por falta de opção a quem compreende que precisa de ajuda), abriu meu coração e começou a desabar as barreiras de um momento de escassez e desesperança. São todas de uma viagem pela Califórnia em 2010, em que encontrei e registrei pelo caminho pessoas felizes com o que faziam, porque usavam o poder que tinham nas mãos — o livre-arbítrio — para escolherem fazer a parte que lhes cabia. E isso as deixava em paz, centradas no presente, em dia consigo mesmas e com a vida. Hoje percebo que eu estava fazendo o mesmo — na época, através de fotografar, viajar e desenhar novos horizontes pra ser feliz. Isso foi há sete anos. Hoje, num momento em que eu estava perdida de mim, os registros desses momentos cheios de simplicidade me trouxeram de volta pro meu lugar de poder. Te convido à viagem entre as palavras e as imagens abaixo: dois tempos, dois estados opostos, dois lados da existência. O jogo da dualidade a integrar e transcender.)

JOYce Turner: cuidando do canteiro de ervas da Mohala Farms, onde vivemos juntas por algumas semanas, em Haleiwa

Li hoje à noite num outdoor de um filme de ação: “Escolha seu lado”. De primeira, menosprezei. Neguei a dualidade porque estava acreditando, naquele momento — como em vários, que só existe o poder espiritual, que representa a unidade dentro de cada um. Porque o espírito não é bom ou mal — o espírito é os dois ao mesmo tempo, integra tudo. O livre-arbítrio nos permite escolher pra qual lado seguimos nosso caminho espiritual e humano, a cada passo realizando o céu ou o inferno na Terra.

Eu, realizando o fato de que estava protagonizando meu sonho: numa pausa pra simplesmente contemplar, ventar e respirar o céu sobre a CA-1, a caminho de Santa Cruz

Enfim. Depois de cruzar com o tal outdoor, li essa frase do George Orwell: “A guerra não foi feita para ser ganha. Foi feita para ser contínua.” Ai. Pensei: "De quanta maldade a gente é capaz." Era em resposta a um texto (na íntegra aqui no final)* que dizia: “O verdadeiro exercício do poder é invisível.” E ele não estava falando da invisibilidade do espírito. Ele estava falando da invisibilidade das más intenções escondidas por trás das falsas boas aparências.

Trabalho ou brincadeira? Na vinícola Frog's Leap, todos os caminhos levavam ao mesmo lugar. Era a mais linda das tantas de Napa Valley, porque todos (os que conheci) amavam o que faziam lá, juntos ou cada um na sua

Não pude mais ignorar o outdoor. Essas perguntas me bateram, enquanto tenho olhado recentemente pros meus privilégios e pro exercício do poder dentro de mim: “Se sou dual, é possível estar totalmente imune a algum dos lados? De que lado estou hoje, em cada uma das minhas relações? Em qual ponto eu, repetidamente, me perco do centro — e então perco? Quais lutas quero e posso abraçar, no meio de tanta justiça a se fazer? O que me traz paz?”.

Mark Hamamoto, teólogo, agricultor orgânico, surfista e meu anfitrião na Mohala Farm em Haleiwa, tocando música brasileira de frente pra montanha mais alta da ilha, no fim do dia de colheita

O que essas perguntas movem não me deixa em paz neste instante. A (minha) distorção humana do poder não me deixa em paz. Só encontro referência, inspiração e esperança na natureza.

Rezo: que sempre haja natureza, e que ela sempre aja e reaja em mim. Em nós.

Kohta Mitamura, sonhando e planjeando a casa na árvore que estava só começando, na terra fértil da Noniland — no Kauai, uma das menores ilhas do Hawai'i, onde ele também se realizava plantando coco e produzindo derivados incríveis

Fazer política verdadeiramente, pra mim, tinha a ver com se importar — verdadeiramente. Hoje, me parece ser sobre como compartilharmos o poder para agirmos em prol daquilo que nos importa em comum, somando as perspectivas diferentes. Assumindo nossas respectivas responsabilidades, pra nos importarmos mais com o que nos cabe no nível micro, e assim impactarmos o macro com menos esforço e mais verdade. Porque já chega de falta de sentido, de terceirização do poder, da culpa de não fazermos nada por nós mesmos (como caminho natural pra fazermos algo pelo outro e por nosso país — que por um momento desencorajador, confesso, parece que não é meu).

O que posso fazer por mim hoje — e você por si, em nossas micro esferas de poder — pra gerarmos impacto significativo por algo que nos importa? O que te importa e te cabe de verdade? E como podemos nos importar mais com essas coisas e menos com as que não nos cabem, pra que estejamos mais em paz com nosso tamanho real?

Uma das minhas fotografias preferidas de toda viagem: Marianna Anderly, minha anfitriã encantadora (de verdade) em São Francisco (CA), no dia em que resolveu virar o quarto e a vida de cabeça pra baixo, sacudir a poeira do passado, fazer arte com o que parecia ter virado lixo e mudar a perspectiva sobre tudo. Depois, ficou mais linda ainda e saímos pra dançar e celebrar

*Texto na íntegra, do Le Monde Diplomatique Brasil, via Filipe Freitas:

“UM POUCO SOBRE POLÍTICA

1 — O foco do poder não está na política, mas na economia. Quem comanda a sociedade é o complexo financeiro-empresarial com dimensões globais e conformações específicas locais.

2 — Os donos do poder não são os políticos. Estes são apenas instrumentos dos verdadeiros donos do poder.

3 — O verdadeiro exercício do poder é invisível. O que vemos, na verdade, é a construção planejada de uma narrativa fantasiosa com aparência de realidade para criar a sensação de participação consciente e cidadã dos que se informam pelos meios de comunicação tradicionais.

4 — Os grandes meios de comunicação não se constituem mais em órgãos de “imprensa”, ou seja, instituições autônomas, cujo objeto é a notícia, e que podem ser independentes ou, eventualmente, compradas ou cooptadas por interesses. Eles são, atualmente, grandes conglomerados econômicos que também compõem o complexo financeiro-empresarial que comanda o poder invisível. Portanto, participam do exercício invisível do poder utilizando seus recursos de formação de consciência e opinião.

5 — Os donos do poder não apoiam partidos ou políticos específicos. Sua tática é apoiar quem lhes convém e destruir quem lhes estorva. Isso muda de acordo com a conjuntura. O exercício real do poder não tem partido e sua única ideologia é a supremacia do mercado e do lucro.

6 — O complexo financeiro-empresarial global pode apostar ora em Lula, ora em um político do PSDB, ora em Temer, ora em um aventureiro qualquer da política. E pode destruir qualquer um desses de acordo com sua conveniência.

7 — Por isso, o exercício do poder no campo subjetivo, responsabilidade da mídia corporativa, em um momento demoniza Lula, em outro Dilma, e logo depois Cunha, Temer, Aécio, etc. Tudo faz parte de um grande jogo estratégico com cuidadosas análises das condições objetivas e subjetivas da conjuntura.

8 — O complexo financeiro-empresarial não tem opção partidária, não veste nenhuma camisa na política, nem defende pessoas. Sua intenção é tornar as leis e a administração do país totalmente favoráveis para suas metas de maximização dos lucros.

9 — Assim, os donos do poder não querem um governo ou outro à toa: eles querem, na conjuntura atual, a reforma na previdência, o fim das leis trabalhistas, a manutenção do congelamento do orçamento primário, os cortes de gastos sociais para o serviço da dívida, as privatizações e o alívio dos tributos para os mais ricos.

10 — Se a conjuntura indicar que Temer não é o melhor para isso, não hesitarão em rifá-lo. A única coisa que não querem é que o povo brasileiro decida sobre o destino de seu país.

11 — Portanto, cada notícia é um lance no jogo. Cada escândalo é um movimento tático. Analisar a conjuntura não é ler notícia. É especular sobre a estratégia que justifica cada movimento tático do complexo financeiro-empresarial (do qual a mídia faz parte), para poder reagir também de maneira estratégica.

12 — A queda de Temer pode ser uma coisa boa. Mas é um movimento tático em uma estratégia mais ampla de quem comanda o poder. O que realmente importa é o que virá depois.

13 — Lembremo-nos: eles são mais espertos. Por isso estão no poder.

Ps (do Fil). Sobre o item 13: Dizer que “eles” são mais espertos é o mesmo que dizer que o câncer é mais esperto que o organismo. Se “eles” fossem espertos entenderiam que uma sociedade equilibrada e bem distribuída engendraria saúde planetária e, consequentemente, longevidade e bem estar.”

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