O que a Ayahuasca me ensina sobre a vida em mim (e sobre o viver)

Psychotria viridis ou Chacrona nas margens do Rio Croa, em Cruzeiro do Sul (Acre): arbusto que se mistura ao Cipó-Mariri, na preparação da Ayahuasca - bebida milenar utilizada no xamanismo indígena da América do Sul como medicina, difundida institucionalmente no Brasil nos cultos do Santo Daime, União do Vegetal, Natureza Divina e outros rituais xamânicos. Foto: arquivo pessoal, Janeiro/2014

Em Janeiro de 2017, eu tinha acabado de voltar de uma imersão com velhos e novos amigos na aldeia do Mutum — uma das primeiras (ou a primeira) das terras indígenas demarcadas no Acre, no Rio Gregório, onde vive o povo Yawanawá. Era minha segunda vez no Acre, primeira vez imersa (antes, eu tinha ido só de passagem). A família vivia o luto pela passagem do pajé Tatá — um dos anciões mais respeitados no Brasil, que viveu até os 104 anos, deixando muitos saberes e missões sob a responsabilidade dos líderes espirituais e políticos da aldeia. Eu não sabia porque minha intuição estava me levando para lá naquele momento, mas eu me sentia privilegiada por compartilhar da força, da sabedoria e da transcendência que pairavam no ar, nos olhares e nas vozes naquele instante. Além disso, os Yawanawá foram os primeiros indígenas com quem havia tomado a medicina no Rio de Janeiro em 2012 e conheci presencialmente a pureza sagrada dos povos da Amazônia, e até hoje me identifico com seus cantos tradicionais como se eles se encaixassem naturalmente no meu corpo e na minha alma.

De 2012 até ir pra aldeia em 2017, precisei passar pela viagem anterior — turística um pouco traumática (com a ousadia e a ingenuidade de levar europeus sem nunca ter ido antes), amadurecer a motivação de buscar os conhecimentos indígenas direto da fonte, e me comprometer com a aventura de me entregar aos mistérios da floresta. Minha sensação, mesmo infundada racionalmente, era de que talvez eu nunca mais voltasse, como se fosse uma memória de outro tempo.

De fato, quem vai pra floresta sabe que você não “volta” exatamente. A transformação e a evolução espiritual são tão profundas que não tem como voltar pro mesmo lugar. O que acontece é que demoramos a nos readaptar. Alguns parecem até doentes sem ter nenhuma doença de fato. Passei, por exemplo, quase um mês num ritmo completamente desconhecido pro meu corpo e minha mente, sem resistência para estar presente, sem muitas forças pra falar e me mover externamente, como se estivesse sendo “decodificada”, “formatada” e “recodificada” por dentro. A viagem ao Centro de Medicinas Tradicionais do Mutum, numa cultura profundamente conectada com os valores e o tempo da natureza, dura três dias de viagem de avião, carro e barco, ao longo de em torno de quatro mil e quinhentos quilômetros. Mas a sensação era a de que eu havia feito uma viagem interdimensional por camadas e camadas que eu nunca havia visitado antes (fiz um registro bem sensível na volta e publiquei aqui).

Mesmo que eu usasse caminhos internos já conhecidos — através das minhas ferramentas racionais de navegação espiritual (como o Pathwork®, a Meditação das Rosas, a leitura de oráculos, os decretos e afirmações de poder e até os mantras em sânscrito — que eu entendo num nível muito básico), eu não sabia onde estava indo. Por mais que eu intencionasse me auto-revelar, me conhecer, me melhorar, me entregar, me libertar dentro do possível, nenhum recurso interno que eu podia controlar estava à altura do que a presença magnificente e misteriosa da natureza faz com todos os nossos corpos.

E por que estou contando isso tudo antes de falar da Ayahuasca? Porque ela faz isso tudo com uma simplicidade absoluta, ela evidencia o quanto somos pequenos enquanto indivíduos e o quanto somos gigantes quando nos sabemos conectados ao todo, onde quer que estejamos com ela. Na minha experiência,

a medicina da Ayahuasca nos chama para descobrir os segredos por trás das nossas próprias portas fechadas, dos mistérios que nos habitam e dos quais tentamos nos esconder inutilmente. Por isso, há quem diga que ela é a “medicina do futuro”: pois ela nos desperta:

1. o amor corajoso que nos conduz a enxergar, além do estados das coisas, o espírito por trás delas, potencialmente acessando a origem dos males que fizemos (e fazemos) a nós mesmos e às nossas relações, e onde eles podem nos levar;

2. a firmeza que mantém nosso pensamento elevado à luz enquanto fazemos esta exploração pelas nossas próprias sombras, muitas vezes tão dolorosa quanto maravilhosa (depende do quanto você tenta mudar o passado, ou simplesmente aceita e deixa o filme passar e a "moral da história" chegar);

3. a aceitação que nos faz sentir compreendidos e perdoados por nós mesmos, e pertencentes à totalidade da vida.

Aceitando e incluindo até as nossas doenças, iniciamos um processo orgânico de sanação (sobre o qual só me sinto responsável por dar depoimentos pessoais — em algum momento escreverei outro texto sobre o assunto. Fique à vontade pra me perguntar nos comentários).

(Sem título, 2017. Detalhe.
Grafite sobre papel.
20,8 x 14,5 cm
Artista: Daniel Banin 
Sobre a experiência de estar na
Aldeia Mutum, junto ao povo Yawanawá e homenagem ao Velho Mestre Rumeya Tatá Txanu Natasheni, que hoje caminha nas florestas do céu. 
Concedida como presente à família Yawanawá do Mutum.)

Além dessas lições básicas de "navegação", que servem a mim e muitas pessoas com quem compartilho essa jornada, esta planta sagrada, mãe e professora também nos abre as portas da consciência para nos conectarmos com uma sabedoria que depende de uma certa qualidade de conexão, de uma certa qualidade de momento e lugar — internos. Como se a "tampa" da cabeça se abrisse para interagir mais livremente com o cosmos. E mesmo que nos preparemos intencionalmente pra isso de alguma forma, a jornada sob a condução da Ayahuasca sempre nos surpreende. A imersão no Mutum em Janeiro foi tão rica de inspirações, por exemplo, que resolvi registrá-las pra me ajudar a colocar o máximo possível em prática.

Compartilho aqui duas lições que me marcaram muito: eu vi minha mãe mais bonita do que em qualquer outra vez na minha vida, como se pudesse ver a pureza da alma dela, e finalmente compreendi, por alguns instantes, a beleza do amor que ela me oferta quase incondicionalmente.

Entrou no topo da minha lista de prioridades: HONRAR A MINHA MÃE EM TUDO QUE EU FIZER. Se eu considerar o bem querer dela por mim nas minhas escolhas — perguntando, por exemplo, "como ela faria isso?", percebi que todas as minhas ações vão cuidar de mim naturalmente, em vez de eu cometer o erro frequente de priorizar as coisas secundárias (inclusive relações que não contribuem pro meu bem maior). Isso foi revolucionário.

Outra coisa que me reposicionou diante da vida: observando meu encantamento com a cultura indígena, percebi que ele também vem da distância entre nós. E que portanto eu nunca seria nem serei tão próxima deles, e eles não seriam nem serão tão próximos de mim, quanto eu gostaria. E isso me libertou.

Eu — descendente de portugueses, espanhóis e franceses, carregava uma grande culpa colonial pelos crimes dos missionários (e outros) contra os povos indígenas. Especialmente os Yawanawá, que chegaram a perder parte da sua língua, de sua memória, e grande parte do seu povo, sendo quase completamente dizimados. Minha empatia com essa dor de massa me fazia sentir culpada em ser portuguesa e privilegiada. E sob efeito da medicina eu percebi que ali era outro tempo, que nós tínhamos uma relação de admiração, reconhecimento e apoio mútuos, e que estava tudo bem sermos diferentes. Que eu podia me amar e me acolher com os karmas dos meus ancestrais tanto quanto eu amava e acolhia a eles, que também tem suas imperfeições.

E de repente eu comecei a sentir uma gratidão linda e gentil por ser branca, por falar a minha língua materna, por olhar o mundo com os olhos que herdei, e ao mesmo tempo poder expandir meu olhar através do contato com esta outra cultura, sem precisar abrir mão do meu lugar.

Leopardo Yawa Bane Huni Kuin na força da Ayahuasca, preparando-se para conduzir um ritual na tradição Huni Kuin em Janeiro/2017, na Aldeia Akasha, em Petrópolis. Foto: Benoit Fournier

De volta ao Rio de Janeiro, meu próximo ritual foi com o pajé Leopardo Huni Kuin, que hoje vive em São Paulo. Com a egrégora dos Guardiões Huni Kuin do RJ — minha família cuidadora das tradições xamânicas ameríndias, na Aldeia Akasha — um espaço sagrado construído especialmente para receber nossos txais ("outra metade de mim", como chamamos os amigos em algumas línguas indígenas), a experiência foi (e é) diferente da floresta em diversos aspectos, mas igual no aspecto do amor que promove a união dos povos. É uma honra imensurável poder estar a serviço de anfitriar o encontro entre a cultura indígena nativa da floresta e a cultura dos povos da cidade. E perceber o quanto faz sentido nos apoiarmos através de, por exemplo, unirmos as tecnologias ancestrais e as digitais pelo bem comum. É um ganha-ganha sem tamanho. Porque é feito primordialmente com amor, e o amor não faz contas entre o dar e receber, ele só flui, ele só é.

Nesse fluxo de ser, transbordei de insights durante e depois do ritual, conversando com um amigo que estava num momento sincronicamente parecido com o meu. Sentados numa pedra, cansados da madrugada mas acordados pela luz do dia e revitalizados pelo êxtase do despertar, emergiram essas sementes que (acredito que) plantaremos, cultivaremos e podaremos por muito tempo. Que sirvam como nutriente pra terra de quem ler.

Escolher usar meu tempo pra fazer coisas que não quero é o mesmo que desperdiçar o tempo que Deus me deu pra fazer o que quero.

Mantra: Todas as minhas portas internas estão abertas para os meus potenciais se manifestarem, e encontram as portas abertas pros meus ser-viços no mundo.

O guardião do fogo intui a posição da lenha para manter a chama acesa no centro do ritual. Um outro me ensinou que a fogueira são as chamas das estrelas aqui na terra, são as estrelas que nos ensinam a montar a fogueira. Por isso, o guardião do fogo trabalha em silêncio, ouvindo suas instruções. Eu o presencio servir com o máximo da sua atenção. Um pedaço de lenha cai. Ele sente algo em si. E continua a servir, movimentando-a . Tudo gera aprendizado. Antes de qualquer emoção positiva ou negativa, em todo fato existe um aprendizado. Nada é em vão.

Não se nega ajuda a quem pede, quando se pode ajudar. Aceitar a escolha do outro, inclusive de não querer ajuda, me protege de interagir e ter que lidar com energias “lixo” (excessivas ao meu sistema).

Quase sempre existe uma voz dentro de mim buscando aprovação alheia nas coisas que faço. Estudar todos os dias: qual é o preço que pago ao priorizar ser espontaneamente eu mesma?

Imagem x Eu Real: qual expectativa eu posso transformar num powerful request? Como a imagem que tenho de como algo deveria ser pode ser transformada no melhor que a vida pode fazer acontecer, com todos os recursos disponíveis — inclusive a minha ação, mas não apenas ela, e sim toda a vida presente, em movimento?

Falar no gerúndio pra evitar criar imagens que brigam com o real dentro de mim.

Pesquisa do meu amigo: sincero = uma colheita. Colher apenas um = ser sincera comigo e o outro e a vida.

Só desenvolvo autonomia onde me concentro na minha colheita.

Jogar o velho fora, desapegar agora.

Eu mereço mais.

️Eu quero ao meu lado como companheiro um homem conectado com seus próprios valores e sonhos na prática, irmanados aos meus. Que se vulnerabilize e celebre a expressão autêntica do seu e do meu ser. Que assuma o compromisso da intimidade, se nutra de si e se entregue aos convites da sua própria natureza a evoluir. Que queira ter filhos (projetos, viagens, humanos) consigo e comigo. Que se apaixone por si diante do meu olhar, que me inspire a me apaixonar por mim mesma com o seu olhar, que nos apaixonemos pela vida e um pelo outro e por nossas criações juntos, a cada amanhecer, entardecer e anoitecer.

- Por onde começo? — perguntei.

- Dentro — meu amigo respondeu.

Por onde começo a me concentrar? Na intimidade comigo. Onde me perdi do que me importa? Onde eu errei? Eu quis ir rápido demais.

A floresta me disse antes de eu chegar: "venha devagar". IR DEVAGAR virou meu mantra. Foi o único pensamento que acalmou meu medo de atropelar a mim mesma e ao outro.

Quando não coloco o conhecimento em prática, paro de recebê-lo. Praticar é movimentar o conhecimento, é a abundância em ação.

Dormir e descansar minha mente, ter espaço para me ver com outros olhos.

No ápice da gratidão pela generosidade de Deus e da intimidade com Ele: "Yuxibu, você tem trilhões de olhos, né, cara? Como você consegue sincronizar tudo ao mesmo tempo com tanta perfeição?"

Pintura: Luis Tamani Amasifuen https://www.luis-tamani.com

Yuxibu, em Hatxa Kuin — língua do povo Huni Kuin (também conhecido como Kaxinawá) do tronco-liguístico pano, significa Deus, Consciência Suprema, Universo.

Tem gente que tem medo de tomar Ayahuasca e “perder o controle”. Porque sua força é tão poderosa que faz tremerem as estruturas velhas que nos enrijecem e adoecem, liberando espaço pra essência se manifestar de novas formas. O que a gente perde mesmo é a ilusão do controle, pra se entregar e reencontrar nosso lugar único nesse Universo. É a ilusão do tal do ego: de que nossas ações impactam só a nós mesmos, de que a gente está separado (de si mesmo, por negarmos as nossas partes que não gostamos de ver e só aceitarmos as que nos ensinaram serem bonitas). Lembrar que fazemos parte dessa imensidão, que ela nos habita, é nosso maior desejo (que envolve todos os outros desejos) e nosso maior medo: o da união. Navegamos entre o medo e desejo da responsabilidade e da liberdade de pertencermos a nós mesmos e uns aos outros, e confiarmos nas relações que nos lembram o que viemos ser e fazer aqui.

Como se firmar no seu centro em meio a ondas tão poderosas? Chama a Força que ela vem.

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