O que será de nós quando ousarmos sentir?

Três meninos de uns 16 anos (com uniforme da escola) conversam na porta do meu prédio, enquanto saio apressada de bicicleta. Um deles fala:
- Mulher não gosta de homem bobão, mulher gosta de homem maduro.
Olho pra trás sorrindo e confirmo:
- É verdade!
- Não é? Mulher não gosta de menino de 20 anos, tem que ser resolvido, né?
- Não tem a ver com a idade, tem a ver com verdade, com responsabilidade.
- Tem que ser responsável, né?

Senti aquela carga de “trabalhador”, “provedor” e outras cobranças que os homens sofrem sem perceber. Bati no peito e falei:
- Responsável pelo que SENTE.
Ele inspirou, absorveu buscando um lugar praquela informação entrar e respondeu agradecido:
- Nossa, valeu pela dica!

Imagino que eu tenha deixado um ponto de interrogação junto à exclamação que ele expressou. O que significa isso, “ser responsável pelo que se sente”?
É legitimar seus sentimentos e emoções, reconhecê-los, nomeá-los, chamá-los de seus. É arriscar dizer que ama quanto sente amor, é dizer que sente raiva ou frustração pela própria impotência em vez de culpar o/a outro/a pelas coisas que não saíram como você esperava. É se dar ou buscar colo e companhia quando sente a dor da rejeição (em vez de rejeitá-la), e preencher o buraco interno da carência com a própria presença e atenção.
“Ai, que saco”. É mesmo. Desafiador pra caramba com os poucos espaços disponíveis e as poucas ferramentas que aprendemos na escola da vida pra crescer com, através e apesar disso. Essa coisa tão básica e maravilhosa chamada inteligência emocional.

Mama Andrea, uma mestra Mapuche, diz que as mulheres nasceram pra nutrir, e que devem se nutrir pra então ensinarem aos homens a se nutrirem de si mesmos. Em vez de esperarem das mulheres que substituam suas mães eternamente com o peito que pacifica os incômodos. Sim, mulher também precisa aprender a se nutrir de si mesma. Sim, a maioria das mulheres está muitos passos à frente dos homens nesse processo. Sim, os homens que deixarem de violentar suas próprias emoções, e se responsabilizarem pela auto-nutrição cotidiana que sana as carências efêmeras ou profundas, serão potencialmente menos agressivos em suas relações, cometerão menos assédios e outras violências que cometem consciente e inconscientemente.

Conversando com alguns amigos do caminho sagrado, até agora nos parece assim: 
é tempo das mulheres assumirem seu poder,
é tempo dos homens assumirem seu sentir.

Juntos, o que será de nós quando assumirmos e somarmos nosso poder de sentir? 
Prevejo beleza, lucidez, prosperidade, e sinto alegria, esperança, paz e amor. Um lugar ainda pouco comum entre nós. Em progresso. Que assim seja e assim já é.