C&A, precisamos falar sobre representatividade

Até pouco mais de dois anos atrás, comprar roupa era bem difícil pra mim. Afinal, quem se importa com as gordas? Com 1,68 m — que vamos combinar, não é lá grande coisa — eu estava pesando 131 kg. Ou seja, meu manequim ficava entre 54 e 56, e até para comprar um jeans era um parto.

O motivo disso tudo é bem simples. Como disse Tim Gunn, consultor de moda e mentor do programa Project Runway, “muitos designers — pingando desdém, com falta de imaginação ou muito covardes para se arriscar — ainda se recusam a fazer roupas plus-size”. O resultado? É devastador.

Ainda citando Gunn, a experiência era, sem dúvidas, “horrível, ofensiva e desmoralizante”. Cada vez que era preciso ir ao shopping comprar uma roupa, uma verdadeira agonia se formava dentro de mim. Afinal, é chato a beça olhar pra algo na vitrine e nem querer experimentar por que é óbvio que não vai ter manequim grande. Pior ainda é entrar em uma loja e vir uma vendedora, com aquela falsa educação e acompanhada daquele olhar que mistura pena e horror — como se você tivesse uma doença contagiosa — , dizendo que “roupas para seu tamanho não são vendidas ali”.

Para alguns pode parecer um discurso vitimista sobre o que a galera chama de gordofobia, mas é a mais pura realidade. Acontece todos os dias, o tempo todo e, muitas vezes, vem disfarçado com uma falsa preocupação com a sua saúde quando, na verdade, as pessoas só estão avaliando como você se parece mesmo.

C&A e o caso da gorda que não é tão gorda assim

A polêmica da vez é com a C&A, que acaba de lançar sua nova campanha de jeans com o tema “diversidade”, estrelando modelos com biotipos diferentes. Para representar o público plus-size a marca apostou na modelo Maria Luiza Mendes, conhecida na web como a “Maria Fernanda Cândido gordinha”, que aparece em fotos com os dizeres: “Sou gorda & sou sexy”. Nas redes sociais, os internautas criticaram a escolha da modelo, considerada pela maioria apenas uma mulher curvilínea.

A modelo Maria Luiza Mendes na campanha da C&A.

Maria Luíza, a modelo em questão, se posicionou em suas redes sociais. “Eu também sou gorda. Talvez menos gorda que você, só gordinha, ou mais que você. Mas o fato é que eu também sou gorda”, escreveu. Em entrevista ao Estadão, a jornalista e blogueira Juliana Romano deu sua opinião: “Para mim, o problema é realmente a associação errada da palavra gorda com uma mulher esguia, com barriga reta e pernas finas. O problema é a marca se apropriar de uma causa que ela não apoia de fato”.

Gorda ou apenas curvilínea?

Minha opinião? Concordo com a jornalista. Maria Luíza que, segundo ela mesma, tem 1,73m e pesa 85kg, de fato é gordinha. Afinal, ela tem 28,4 de IMC, o que é considerado uma marca de sobrepeso. Mas é isso: sobrepeso. Ela não representa a mulheres com obesidade mórbida, que enquadra pessoas que, de fato, têm dificuldades para encontrar roupas. Pessoas que têm celulite, barriga, pernas e braços muito grossos. Pessoas que vestem numeração acima de 50, e não 42 ou 44, como deve ser o caso dela.

Vocês querem saber o que é modelo plus-size de verdade? Ela é:

Tess Holliday é modelo Plus Size e tem mais de 1 milhão de seguidores no Instagram.

Tess é grande. Grande como eu era, e como a maioria das moças que não conseguem comprar roupas na C&A ou em outras lojas de varejo são. E Tess é simplesmente maravilhosa. Não estou desmerecendo a Maria Luíza. Ela de fato não cumpre o estereótipo Gisele Bündchen, é linda e conseguiu sucesso em uma área muito ingrata com mulheres que fogem ao padrão. Mas Maria Luíza dificilmente tem problemas para encontrar roupas em seu tamanho. Quando eu tinha o IMC dela, já conseguia ser bem feliz na hora de mudar o guarda-roupas.

Fora que, se qualquer mulher vestindo mais do que 44 for hoje à C&A, eu duvido muito que vá conseguir comprar alguma roupa legal. Ainda mais jeans! Eu, que hoje visto entre 40 e 42, entro no 44 pela numeração da C&A. Reflitam.

C&A não foi a primeira

O caso da C&A é o mais recente. Mas, ainda em julho desse ano, a internet veio abaixo com uma matéria falando de Fabiana Saba que, aos 38 anos e mãe de duas filhas, teria virado modelo plus-size. Agora digam vocês mesmos se isso é estar gorda.

Ainda antes disso, a Chanel chocou o mundo com sua modelo plus-size que vestia 42. Houve ainda o caso da modelo brasileira Aline Zattar, Miss Brasil Plus Size 2013 que, com curvas que preenchem um manequim 46, se viu sendo trocada em 2014 por uma modelo mais magra, que vestia 42, quando já se preparava para o início da sessão de fotos.

A catarinense Aline Zattar.

Que mensagem isso tudo passa?

Uma bem simples até, embora bem cruel: se você não é magrela — do tipo esquálida mesmo — você é gorda. E, se você é gorda, não existe lugar pra você. Isso mesmo! Você, que faz parte da gigante estatística de 48,5% dos brasileiros que estão acima do peso, não tem valor para essa gente!

A demanda obviamente existe. O estilista americano Christian Sirano, por exemplo, apresentou nessa temporada de moda de Nova York um desfile que, de fato, falava de representatividade. Com mulheres magras e outras plus-size, o cara foi simplesmente ovacionado. Segundo o próprio — que aliás foi quem se dispôs a socorrer a atriz Leslie Jones, que não conseguia encontrar um estilista que a vestisse para a première do filme Caça-Fantasmas — a postura poderia levá-lo à falência mas, ainda assim, ele acreditava que valia a pena tentar.

A atriz Leslie Jones durante a premiére do filme Caça-Fantasmas

A verdade é que as marcas de roupas, bem como as revistas e os programas de TV, vendem uma beleza irreal. Muitos se apresentam com aquele discurso bonito de aceitação — como fez a C&A — mas, na verdade, não aceitam coisa alguma. Toleram, e ainda assim com limites!

É importante saber que a diversidade está aí, e existe uma demanda crescente por roupas que atendam a todos os tipos de mulheres, não importando o tamanho. E, enquanto as marcas não entenderem isso, vai ter polêmica sim. Temos, de verdade, que falar sobre representatividade!