Vamos juntas

Sempre tive mais facilidade de ter amigos meninos do que amigas meninas. O universo masculino sempre me interessou, eu queria fazer o que eles faziam, e queria ser admirada — especialmente por eles — por isso. Afastava de mim o que poderia se entender como qualquer sinal de frescura, gostava de músicas que eles poderiam apreciar, e por aí foi se desenvolvendo minha juventude. Meus melhores amigos são meninos, ok, ⅔ gays. Mas vários meninos me diziam “você é brother” e eu adorava isso, era um elogio para mim.

Minhas amizades com meninas foram meio catastróficas na maioria das vezes, especialmente a partir da adolescência. Tenho algumas histórias em que me faltou dedicação a essas amizades, paciência, tato, etc.

Quando ingressei na vida profissional, passei a abominar assuntos de “dona de casa”, e qualquer outro papo que fizesse relação a um esteriótipo feminino que eu tentava fugir. Como jovem líder eu tinha dificuldade de dar feedbacks para mulheres, pois a figura delas parecia frágil, enquanto isso eu achava muito mais fácil tratar com homens. Costumava dizer “é mais fácil trabalhar com homens, é mais fácil lidar com eles”.

Ingressei em um novo trabalho, logo percebi que a posição no setor que eu acabara de entrar tinha uma diferença de diálogo e funções, por coincidência precisamente dividida por gêneros. E mais uma vez estava eu, construindo uma imagem de “brother”, com o intuito de expandir minha atuação como mulher.

Foi nesse lugar que comecei a observar alguns comentários — muito parecidos com os meus antigos — sobre a diferença de trabalhar com homem e mulher. Pela primeira vez isso me atingiu. Os comentários inciaram do tipo “como as mulheres passam tempo se maquiando no horário de expediente”. E eu concordava parcialmente. Os comentários sutis continuaram. Até um dia uma colega ficar grávida e descobrir que seu bebê seria um menino. Em um momento presenciei uma conversa com expressões enaltecendo “como é bom ser mãe de menino”, de certa forma diminuindo a figura feminina. Foi o fenômeno do espelho se quebrando. Eu passei a refletir sobre um valor torto que eu carregava nos últimos talvez 15 anos, a respeito da mulher que eu gostaria de me tornar, e sobre as mulheres ao meu redor. Uma mulher que achava que criaria seu valor enaltecendo características masculinas. Percebi o quão arrogante era isso, quando falava que era mais fácil trabalhar com homens eu parecia não estar me incluindo no grupo das mulheres, como se fosse um ser superior.

Eu tinha uma relação bizarra com a minha vaidade. Abominava salão de beleza — ainda tenho dificuldade — comprar roupas era um drama, eu tinha vergonha de pesquisar sobre maquiagens e carregava um horror ao papo de “casamento de princesa”. Até o dia que percebi que ser vaidosa não é sinônimo de ser fútil. Olha que louco! O medo de parecer fútil me fez ser absurdamente preconceituosa com minhas semelhantes.

Desde o dia que caiu essa ficha inúmeras figuras femininas têm me inspirado como cidadã. Continuo querendo ocupar — e bagunçar — o espaço tipicamente masculino, mas hoje valorizando quem sou como mulher.

O movimento feminista me ajudou demais, entendi que essa coisa de não conseguir desenvolver amizades entre mulheres é mais uma ideia que vem a nos desunir e enfraquecer. Hoje tenho pouquinhas e lindas amigas, e diversas ídolas, que me inspiram como mulher todos os dias.

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