Música em português por 364 dias — Agosto/Setembro: Fresno e Jay Vaquer

Vanessa Souza
Sep 5, 2018 · 6 min read

Alguma hora eu ia ter que falar disso aqui e, inspirada por uma conversa que tive umas semanas atrás, decidi revisitar

a minha coleção de CDs.

O primeiro título oficial dela é o álbum “Let Go” da Avril Lavigne, que eu comprei em 2003, e eu os empilho torres de 25 unidades por ordem de compra. Hoje fui dar uma olhada e a 5ª pilha estava tão desorganizada que eu já nem sabia direito a ordem dos comprados depois do 100º título. Inclusive percebi que, ao ser perguntada naquela conversa sobre qual tinha sido o último que eu adquiri, disse que era o “Ecos do Acaso e Casos de Caos” do Jay Vaquer, que recebi lá por maio, sendo que na verdade foi o “Salva-vidas” da Geo (de quem eu já falei aqui), comprado quando eu fui ao show dela no Sesc Belenzinho em julho.

[Gostaria também de deixar claro o motivo da desordem: embalagens digipack. Aquelas de papel. Os CDs que vêm nela não podem de jeito nenhum ficar no fim das pilhas e elas são as mais comuns ultimamente, então de repente ficou tudo uma bagunça no meu armário. Saudades caixinha de acrílico.]

Depois de 15 anos e uma média fortuna investida, 104 álbuns foram acumulados. Eu chuto que tem mais dinheiro nele do que na minha poupança, já que tem umas coisas raras e importadas que eu com certeza poderia vender por uma boa grana caso eu perigue passar fome um dia. Mas assim, isso está meio fora de cogitação por enquanto.

O que eu percebi analisando o que tem lá é que só TRINTA discos são em português. Deve ter mais uns cinco de bandas/artistas brasileiros que gravaram em inglês. A banda mais recorrente é o Oasis, com sete álbuns e uma Vanessa muito triste por não ter conseguido comprar o “Standing on the Shouder of Giants” para completar a coleção — em teoria faltaria também outros de coletâneas/ao vivo, mas eu não sou muito dessa vibe, então esses eu vou deixar passar. Inclusive aceito de presente esse acima caso você o veja passando por aí.

Em seguida vêm dois artistas brasileiros (e que gravam em português) que seguem comigo desde a adolescência até hoje: Fresno (6) e Jay Vaquer (5). Então decidi que é deles que vou falar desta vez.

O ano era 2006, lá pelo final. Eu já tinha ouvido Quebre as Correntes e, antes disso, Onde Está. Mas, por algum motivo, essas músicas não me pegaram muito. Eu achava Fresno uma banda muito “chorada”, mesmo eu estando completamente submersa no emo lançado na época. Mas aí veio o clipe de Alguém que te faz sorrir. A primeira versão, tirada do disco “Ciano”, ainda em 2006 e não a regravação do “Redenção” em 2008. E achei da hora pra caralho.

Foi aí que eu comecei a dar uma chance pra banda. Na época o rolê era baixar umas três ou quatro músicas de um álbum e comprar se parecesse valer a pena. Tinha gente que baixava o disco inteiro logo e metia o foda-se, mas alou, amiguinhos, eu tinha uma coleção a alimentar e ela era metade do que é hoje. Fora que, na época, os CDs das bandas independentes eram vendidos por dez reais pela internet. E uns meses depois estava eu com duas adições à minha família musical: o próprio “Ciano” e seu antecessor, “O Rio a Cidade a Árvore”.

Minha adolescência não foi um período exatamente bom, por mais que em 2007 eu estivesse relativamente bem. Olhando para trás por meio dessas músicas agora, eu nem lembro direito mais por que eu me sentia sempre tão triste, mas ter a música como companheira foi fundamental e hoje até vejo essa época com certo carinho. O álbum “Ciano” permanece como um dos meus preferidos da Fresno até hoje, além de ser uma obra que eu considero quintessencial para conhecer e entender o que foi o emo brasileiro nos anos 2000.

Eu nunca me afastei de verdade da Fresno, por mais que em 2012 tenha sido uma amiga quem me contou da saída do então baixista em vez de ser eu quem estava gritando pro mundo “MEU DEUS DO CÉU O TAVARES SAIU DA BANDA”. Acho que aqueles foram os tempos em que eu estive menos atenta a eles, já que não me identifiquei tanto com o que acontecia com o grupo na ~época da gravadora~. Síndrome de underground ou não, depois que a Fresno tomou de volta as rédeas da sua carreira eu voltei a gostar mais, principalmente do último disco, “A Sinfonia de Tudo que Há.” Esse eu ainda não tenho fisicamente na minha coleção, mas, da próxima vez que eles passarem com um show na minha cidade, com certeza vou lá com uma graninha a mais para comprar.

Atualmente a Fresno tem lançado singles que se amarram não por um álbum, mas sim por um conceito e uma tour, a “Natureza Caos”. Eu, que sou meio antigona, fico acompanhando os lançamentos, mas estou secretamente esperando pelo momento em que isso vai se transformar num álbum de verdade, que é do que eu gosto mesmo.

Assim como a Fresno, eu conheci o Jay Vaquer lá pelos anos 2000 principalmente por culpa do extinto Disk MTV, a parada de sucesso de clipes da emissora que era o maior meio pelo qual eu ouvia música na adolescência. A primeira canção que eu ouvi dele foi Pode Agradecer em 2004, que traz uma história de relacionamento abusivo do ponto de vista do abusador. Enquanto em 2004 parecia clara a crítica que ele apresentava a esse tipo de comportamento, hoje eu tenho certeza que a letra seria totalmente mal interpretada. Jay é um desses artistas que, junto a canções de amor realmente bem intencionadas — um bom exemplo é Tal do Amor –, também escreve críticas a comportamentos, governos e o que mais aparecer pela frente que ele acredita que deva ser criticado. Não é incomum, inclusive, que ele assuma um papel dentro da crítica que ele faz: Jay também é ator e isso fica aparente nas suas composições, seja encarnando o eu-lírico ou um narrador muito próximo da história que ele decidiu contar.

Talvez meu álbum mais querido dele ainda seja o “Você Não Me Conhece”, lançado em 2005, mas tudo que ele já colocou no mundo tem o mesmo esmero na produção e execução. Curiosamente, o disco de 2016 “Canções de Exílio” teve a participação do Lucas Silveira, vocalista da Fresno, nas programações e no teclado de algumas faixas e à época do lançamento eu pude acompanhar vários elogios trocados entre eles nas redes sociais — coisa que fã adora ver entre dois artistas queridos.

Atualmente o Jay Vaquer me parece focado em de alguma maneira viabilizar um musical que ele passou os últimos anos escrevendo. Seu álbum mais recente, “Ecos do Acaso e Casos de Caos”, foi lançado este ano com repertório retirado desse musical inédito e já virou trilha sonora de qualquer viagem que eu tenha que fazer.

E, caso haja estranhamento quanto ao seu nome, Jay é brasileiro e canta em português mesmo. O motivo de ter o nome que tem é o fato de ser filho do guitarrista americano Jay Anthony Vaquer, parceiro musical de Raul Seixas, e sua mãe é a cantora paraense Jane Duboc. De filiação ele está muito bem, então não tem mais desculpas pra não ouvir o que ele tem pra cantar.


Eu inventei de só ouvir músicas em português durante 2018 e, caso você queira saber o que já andou tocando por aqui,

Texto anterior: a vez que eu declarei meu amor por uma banda (e o quanto ela me inspirou a ouvir mais coisas em português)

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