Tudo que vai, volta!

Ou como o filho da puta é sempre o outro

Baseado em nada mais do que minha consciência, andei confabulando sobre um conselho que tenho proferido e ouvido muito ultimamente

“não se importe [com quem lhe fez mal], tudo que vai, volta. Deseje só que ele receba em dobro o que faz.”

Bonito, né?

Somos sempre os trouxas. Tem quem pise na gente, fure o olho, esfaqueie pelas costas, traia, decepcione, magoe, arranque o coração e faça vitamina pra beber de manhã, dance sobre nossa cova emocional…

Seguindo essa lógica de coisas ruins acontecem com pessoas más, por que nos ferramos?

Pense bem, olhe pra si sem filtros e com calma.

Nunca magoou ninguém? Deixou de dar apoio no momento em que mais precisaram? Humilhou? Ignorou? Enganou? Sumiu sem explicações? Explodiu de raiva sem motivo?

Nunca foi o filho da puta de vida de ninguém, mas ninguém mesmo? Nenhuma vez?

Pois é.

Duvido que não, mas o pensamento reinante no mundo dos textões da auto-ajuda é “o filho da puta é sempre o outro e o mundo é injusto”.

Por que coisas ruins acontecem com pessoas boas sempre me pareceu um questionamento daqueles que atravessa gerações e nunca terá uma resposta definitiva. Nem eu pretendo dar uma.

Entretanto penso que tal questionamento vem da dificuldade de admitir os próprios erros, enxergar que podemos infligir sofrimento nos outros da mesma maneira que nos atacam.

E, principalmente, da falta de capacidade de refletir, remexer sentimentos ruins e se perdoar, na era da felicidade a qualquer custo. Não se pode perder tempo achando que fizemos algo errado com alguém. Mereceu. Ou não percebemos. Ou não queremos.

Acho que não devemos nos martirizar, mas pensar criticamente na pessoa que somos e que queremos ser para o mundo. E nos colocar assim para todos.

E nada de “mais amor por favor” nem “deboísmo”

Ninguém ama o tempo todo. Ninguém pode não se importar ou ficar de boa pra sempre.

Faz parte da vida adulta perceber o mundo, as pessoas e sua complexidade.

Não estou falando também de perdão pra quem fez algo de ruim pra você. Há coisas imperdoáveis, mas temos que seguir a vida e não encher mais o baú de sentimentos que uma hora atravanca a vida e nos impede de seguir em frente.

É preciso periodicamente olhar pra dentro. Reconhecer o bom e o ruim. Consertar o que puder ser consertado, descartar o que está sobrando, perceber erros e acertos, equilibrar as coisas e seguir.

“Preste atenção, querida
De cada amor tu herdarás só o cinismo
Quando notares estás à beira do abismo
Abismo que cavaste com os teus pés”

O Mundo é um moinho – Cartola


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