Lefort e a relação amigo/inimigo

Não concordo com Ruy Fausto quando conceitua o totalitarismo comunista como uma patologia, como uma doença, como uma infecção do socialismo.

Observo nesta passagem do livro do Fausto a lógica do amigo/inimigo, tão recorrente nas manifestações militantes na “Tribuna de Debates” no site do PT: “Adversários amigos estão no interior do PT e do campo auxiliar. Os inimigos estão no exterior”.

“Claro que, até agora, se abriu muito fogo contra o sistema no plano político ou no econômico, mas há certa resistência à ideia de um trabalho de análise minuciosa do discurso de jornalistas e eventuais teóricos de direita. Diz-se que é inútil se ocupar dos inimigos — em todo caso, desses inimigos — e até se considera suspeito tal interesse” (Ruy Fausto)

Por que não “Diz-se que é inútil se ocupar dos adversários — em todo caso, desses adversários”? Essa questão não é de estilo, mas de escolha semântica exata.

https://www.companhiadasletras.com.br/trechos/14340.pdf

A representação do Outro como inimigo é fundamental no pensamento de Carl Schmitt. Nele, a política (e o político) coincide com a relação amigo/inimigo. Assim, o campo de origem e a prática política derivam do antagonismo amigo/inimigo, e sua função consiste na atividade de juntar e de defender amigos, ao mesmo tempo em que se empenha na divisão e eliminação dos inimigos.

Nota: Lefort e a relação amigo/inimigo

“A constituição do povo-Uno exige a produção incessante de inimigos. Não só é necessário converter fantasticamente adversários reais do regime e opositores reais em figuras do Outro maléfico; há que inventa-las.” (Lefort)

A principal contribuição de Lefort foi articular, nos termos da filosofia política, as categorias democracia e totalitarismo. A singularidade da democracia moderna surge pelo seu contraste com a experiência totalitária. Daí que a teoria da democracia moderna deve abarcar uma teoria do totalitarismo. Em Lefort, a força do totalitarismo não é suficiente para devastar o pensamento. Ao contrário, o totalitarismo nos obriga a seguir pelos difíceis caminhos da compreensão desse fenômeno de negação dos fundamentos simbólicos da democracia. Para Lefort, tais fundamentos da política são tão ou mais importantes que suas bases institucionais.

É fundamental para o totalitarismo forjar a imagem na qual o Estado aparece como que soldado à sociedade e o poder político soldado aos aparatos estatais. Essas representações imaginárias forjadas no totalitarismo invertem o sentido das democracias, pois nessas sociedades o lugar do poder aparece como um locus simbolicamente vazio (poder de ninguém e potencialmente de todos). No totalitarismo, esse “vazio” é ocupado por um órgão (Partido ou sua quintessencia, o Egocrata), que concentraria em si mesmo todas as forças sociais. Daí a negação totalitária da divisão interna à sociedade. Os conflitos democráticos são anulados enquanto tais pela representação da sociedade-Una harmoniosa, reconciliada com cada uma de suas partes.

Na sociedade-Una, o outro dela só pode aparecer como o inimigo, o seu elemento estrangeiro. No totalitarismo, a única divisão existente é entre o povo-Uno e seus inimigos. Uma divisão entre o interior (o imprescindível) e o exterior (o prescindível, os homens em demasia, no dizer de Lefort).

É da permanente ameaça real ou fictícia do inimigo identificado ou identificável o êxito dessa representação, a qual deixa sempre aberta a expectativa de cerrar fileiras perante o perigo do inimigo. Por trás das ações individuais e de grupos independentes ou opostas às formas totalitárias, sempre estará um complô do inimigo.

Lefort pensa essa forma de identidade negativa dos conflitos junto com a metáfora do corpo. Isto é, assim como a integridade de qualquer outro corpo, a do corpo social depende da sua capacidade em resistir e eliminar de si todos os elementos parasitários que ameaçam a sanidade do corpo.

“As campanhas de exclusão, de perseguição, o terror durante toda uma época, trazem uma imagem nova do corpo social. O inimigo do povo é considerado como um parasita ou dejeto a eliminar […]. A perseguição dos inimigos do povo é exercida em nome de um ideal de profilaxia social, pois o que está verdadeiramente em questão é sempre a integridade do corpo [o todo]. Tudo ocorre como se o corpo tivesse de assegurar-se da sua própria identidade, expulsando seus dejetos, ou então, como se esse corpo devesse fechar-se sobre si mesmo, retirando-se de um lugar exterior, conjurando a ameaça de fratura que faz pesar sobre ele [o corpo social] a intrusão de elementos estranhos.” (Lefort)

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