É carnaval!
Era uma tarde ensolarada de quarta-feira de um longínquo março de 2003.
A família estava apreensiva com a possibilidade de meu irmão, que na época tinha 2 anos, passar por uma delicada cirurgia. Minha mãe havia viajado, estava com ele em um médico especializado de uma outra cidade e eu, hospedado na casa da minha avó.
Por ser de uma cidade pequena, que na época tinha apenas 20 anos de existência, tudo aqui seguia a cartilha do que foi moda nos anos 80 e 90. De futebol, só se falava em Vasco e Flamengo, a cidade era praticamente uma extensão do Rio de Janeiro no meio do Amazonas. No carnaval, só dava Mangueira. Ah, Mangueira… Naquele dia o título era praticamente certo. Éramos atuais campeões, tínhamos como presidente o competentíssimo Álvaro Luís Caetano, o samba era uma obra prima e o desfile sobre a saga de Moisés e o povo hebreu havia sido impecável, de longe o mais luxuoso da história da escola. Tudo parecia se encaminhar para mais uma estrela no pavilhão verde e rosa até a abertura dos envelopes. Que banho de água fria em quem já dava como certo o bi.

Apesar de ter resquícios de memória do Chico Buarque de 98, saber desde criança o refrão “cabra da peste” do samba de 2002, aquela amarga quarta-feira de cinzas de 2003 é a lembrança mais antiga que tenho do carnaval.
Os dias se passaram, meu irmão se recuperou, mas eu fiquei com a lembrança azeda daquele dia em que todos já davam como certa a taça e o inesperado aconteceu. Daí em diante decidi: sou Mangueira. Como se eu morasse ao lado da quadra e frequentasse todos os ensaios. Nem os desfiles pela madrugada eu acompanhava, papai fazia jogo duro e depois da segunda escola me mandava pro quarto. Se passaram 2004, 2005, 2006, 2007 e nada de título, até que em 2008 a escola entrou naquela crise profunda que calhou em anos de péssimas administrações, desfiles plasticamente fracos e enxurradas de canetadas na quarta-feira de cinzas. Eu só queria o ano de 2003 de volta, pior do que perder um título de surpresa é já chegar na avenida sem chances de disputá-lo.
13 anos se passaram. Foram simplesmente 13 carnavais sem títulos, um jejum histórico. Desses, 5 fora do desfile das campeãs, os 4 últimos seguidos. Durante esse período, perdemos nomes como Jamelão, Dona Zica e Luizito. Para piorar, a escola vinha de um tenebroso décimo lugar em 2015 e foi preciso ser feita uma reformulação geral. Iríamos pra 2016 sem fazer ideia do que nos esperava.
Parece que os 13 anos de sofrimento foram recompensados a partir do momento em que o estúdio Globeleza anunciou a escola. Toda a perfeição e garra que tanto nos faltou nos últimos anos estava ali. Um ótimo samba, fantasias de qualidade, carros bem acabados, a escola gritando o hino e, na última alegoria, Bethânia, a menina dos olhos de Oyá. Enredo biográfico, como em 84, 86, cansamos de ganhar assim.. Finalmente a Mangueira acertou a mão. Um desfile perfeitamente técnico, que não deixou faltar em nada a tradição que a escola tanto preservou por mais de 80 anos. Na quarta-feira de cinzas, mais de uma década depois, a velha Manga soltava o grito de campeã. Que dia, meus amigos! Que dia!

Amanhã começa tudo de novo! As 14 escolas de São Paulo na sexta e no sábado e, no domingo, a brincadeira começa pro Rio de Janeiro. Vem aí uma Tuiuti brigando para quebrar tabus, uma Grande Rio e toda a energia de Ivete, a Imperatriz exaltando a força indígena, a Vila cantando a música negra, o Salgueiro e a genialidade de Renato Lage e uma Beija-Flor exibindo toda a sua perfeição com um tipo de enredo em que cansou de fazer desfiles inesquecíveis. Na segunda, a Ilha abre a noite com um samba forte e impactante, a São Clemente traz toda a magia da professora Rosa, tem uma Mocidade lutando para voltar a ser gigante, a Tijuca fazendo um intercâmbio cultural com a música americana, a Portela mordida depois de bater na trave por 3 anos seguidos e, encerrando o maior espetáculo da terra, minha Mangueira, cheia de santos, orixás e superticão, lutando pelo bi.
Quem vai terminar a quarta-feira feliz?
Conto com a leitura de vocês nos próximos dias. É carnaval!
