O retrato do vazio

Bem-vindos(as) ao Vaudeville! Para a terceira edição nós, Felipe Alcântara e Thiago Mattar fizemos a relação entre o conto Las Babas del Diablo de Julio Cortázar (1959) e o filme Blow-Up do diretor Michelangelo Antonioni (1966). Esta foi a nossa conversa:

Felipe — Vamos começar a sessão Vaudeville com Thiago Mattar, falando do nosso querido Blow Up e do conto las Babas del Diablo de Cortázar. E então o que você achou caraaa?

Mattar — Estou aqui com uma versão do Livro em espanhol las babas del Diablo, primeiramente correlacionar o conto é fundamental para entender o contexto de quando foi escrito. Cortázar tem influência do surrealismo, do realismo fantástico. O conto inteiro em si, apresenta essa quebra da narrativa clássica, já no inicio temos uma indagação se será escrito em primeira, segunda ou terceira pessoa… O narrador é o protagonista e ele mesmo questiona, como é que eu vou escrever isso? É um rompimento total com o classicismo. E normalmente o que você espera do autor é algo linear, ou pelo menos uma segurança maior.

Neste caso ele expõe essa insegurança e essa polissemia já no inicio. Não é um conto comum.

Felipe — O conto tem 10 páginas, super curto? Mattar — 10 paginas

Felipe — Mas o que eu achei… assim pelo menos o que eu absorvi e achei bem distinto, foi que o filme pegou fragmentos e construiu de uma forma própria, o Antonioni né, o roteiro baseando em alguns sentimentos da fotografia.

Mattar — Exaaaaaato

Felipe — O que eu vejo essa coisa que no conto tem que não tem nada a ver com a historia do filme, tem algumas características, quando por exemplo… quando a Vanessa Redgrave reage logo que ele tira a foto e fala: você não pode tirar essa foto. E tem no conto o momento que ela fica acuada quando ele tira foto dela e do menino e ela fica meio receosa: pra que você vai usar essa foto? E ele com a relação de captar aquela imagem, de fazer uma projeção daquele momento, do que poderia ser, com aqueles personagens.

Mattar — No livro isso fica mais evidente mesmo, do que poderia ser… as múltiplas possibilidades.

Mas acho que é mais a questão mesmo do narrador ser o personagem e colocar o leitor como…

Felipe — Espectador?

Mattar — É… isso. Como elemento vital de decodificação do filme, não tá pronta a narrativa ele tá construindo. Mesmo no filme isso é uma coisa muito sugestionada. Você não vê exatamente o cara atirando quando só ele vê. É o que ele tá vendo. Tem um momento que ele vê ela na fila da loja, você não sabe se aquilo é realidade, se o cara realmente tá morto.

Mas realmente tem correlações claras entre o conto e o filme, essa cena do cais, o menino e a mulher, mesmo.

Mas um ponto interessante é que no livro ele trata a fotografia, ele cita a marca da câmera e a máquina de escrever já no inicio por algum motivo. Qual era a marca mesmo?

Felipe — Contax!

Mattar — Isso, tem uma relação clara entre o conto escrito e a fotografia. Que são formas de retratar a realidade. Você não retrata a realidade fielmente nem com fotografia nem com escrita. E o grande ponto é o Antonioni trazer isso pro cinem.

Felipe — E interessante ele retratar isso com um fotógrafo de moda que é um cara que esta distante da realidade de forma totalmente distinta. O cara viu um assassinato e não chama a polícia, o cara tá em outro mundo.

Mattar — Mas eu acho que se o crime tivesse acontecido eles teriam chamado a policia. Ai fica evidente que é um fato da cabeça dele. Aquilo não aconteceu. Uma coisa também contextualizando o Antonioni, a busca de um estilo, de uma desconstrução comum a estes cineastas de vanguarda. O Godard também, são formas totalmente diferentes de contar uma história. Aquele momento em que o brotinho liga e ele questiona a “amante” porque não quer atender? Quem oferece o telefone com a esposa na linha para a amante? Hehehe

Felipe — É isso é verdade mesmo.

Thiago — Tem uma coisa interessante no nome, neste nome LAS BABAS DEL DIABLO que no final ele cita o véu da virgem. É um aforismo que remete a perda de ingenuidade, é como se fosse a busca pela maturidade.

Felipe — É como se fosse a busca pela maturidade. Tá numa passagem mesmo…

Thiago — E tanto no começo e no final o personagem/narrador tá morto. Eu acho que o principal ponto mesmo é essa quebra com o classicismo literário que tem tudo a ver com o Antonioni trazer isso para o cinema.

Felipe — Como que é… tá aqui… é “…pasando al lado del auto, perdiéndose como un hilo de la Virgen en el aire de la mañana. Pero los hilos de la Virgen se llaman también babas dela diablo, Michel tuvo que aguantar minuciosas imprecaciones, oírse llamar intrometido e imbécil, mientras se esmeraba deliberadamente en sonreír y declinar, con simples movimientos de cabeza, tanto envío barato.”

Que era a mulher que estava com o adolescente que ele imaginava a mulher como alguém muito… pura e quando ele viu ela se confrontando com ele ofendidíssima ele imagina ela tirando todos os nervos a coisa do amadurecimento. Eu imaginava ela angelical e de repente uma figura furiosa.

Mattar — Que tem a ver com a imagem, nem tudo é o que parece.

Felipe — Mas e qual o lance com o Velázquez?
 Mattar — Tem um quadro chamado Las Ninas
 Felipe — Famosíssimo quadro, as meninas.
 Thiago — Isso, que ao fundo é possível observar um pintor. Felipe — Um selfie das antigas né!!

Mattar — Isso é narrativa metaficcional, é como se fosse o autor revelando seus recursos. Eu não tenho nada a esconder. É o pintor dentro da cena fazendo parte da obra.

Tem até o surrealista lá o Magritte, que tem um cachimbo e aparece escrito: isso não é um cachimbo.

Felipe — Sim, porque é a imagem de um cachimbo é o que você imaginaria de um cachimbo mas não é um cachimbo de verdade.

Mattar — Van Gogh também né tem um quadro que remete a isso. Mas o Velázquez é o mais emblemático.

Felipe — E foi no século XV e acho engraçado esse lance de selfie e o caraleo, e o cara fez isso há muito tempo. Há 400 anos atrás ele já tinha essa relação estética.

Mattar — Total.

E pro conto é assim, bem isso. O narrador é o personagem. Ele pergunta não sei se eu narro na primeira, na segunda, na terceira, indagando o leitor, consultando o leitor. O

conto em si não tem obrigação nenhuma de fazer sentido. É a forma como eu conto não a história.

Felipe — Eu confesso que tive que ler três vezes, na terceira vez que eu fui compreender um pouco que não tem uma lógica, mas eu fui entender o sentimento da fotografia, de você captar o momento, de você buscar a cena ideal, estar construindo uma coisa visual que está em movimento e que cada movimento que você faz ele da um contexto diferente. Se aparece um carro, uma pessoa, um bicho voando. Cada elemento vai construindo um contexto diferente.

Mattar — Você acha que tá retratando a realidade mas não. Felipe — É o que tá na cabeça de cada um.
 Mattar — Polissemia.

É por isso que ele traz essa coisa visual da moda, do Yardbyrds, jane birkin. O filme é hypadaço pra época né? Quem seria equivalente a Jane Birkin hj?

Felipe — Uma Gisele Bündchen?
 Mattar — O próprio Yardbyrds, o show em si… ele não

evoca nenhuma sensação.

Felipe — Mas é ai que tá, a imagem que a gente faz dessa galera, músicos, celebridades é uma imagem que eles tem toda uma vida e toda uma forma e na realidade é diferente. É duro, é longe, é profissional.

Mattar — A fotografia neste contexto que a gente ta retratando é um pouco equivalente as mídias sociais hoje,

ao instagram… ter uma câmera era algo muito restrito, algo muito novo. E isso causa uma certa histeria.

As meninas vão lá várias ahh tira uma foto pelo amor de Deus. Ele tira uma lasquinha delas hahahaha

Felipe — E tem todo um jeito de tirar a foto todo um modo. Mattar — Quem que leva a sério hoje isso. Não causa mais

histeria. Já faz parte do cotidiano.

Felipe — E não é uma foto que você vai emoldurar ou mesmo imprimir. Você manda por mensagem.

Mattar — Acabei de ver um post do Menezes um anúncio da Olympus antigo. Mande Nudes…

Felipe — Isso eu acho muito doido cara, eu sempre fui uma pessoa mais reservada. Acho o insta um recurso muito legal, mas essa necessidade de contar a vida através da imagem mas não como um reflexo um registro, mas pra enaltecer algo que você esta fazendo. É um fragmento de algo que você ta vivendo pra transformar em algo muito foda, super expansivo. Você ta la na Europa e tira foto num lugar super maneiro, oohhh caraleo… tira foto num lugar super maneiro mas a viagem é uma bosta mas você ta la e captou aquele fragmento.

Mattar — É captar o tal fluxo de consciência. São vários fluxos de consciência. O conto revela isso, do que você queria que fosse e não do que é. No filme talvez se tivesse acontecido o crime, a narrativa teria sido mais interessante do que a situação que ele estava vivendo. A gente imagina que ela esta traindo alguém, mas nem isso ele revela.

Felipe — Nada linear, nada lógico, nenhuma relação. Você vê que ele vive num mundo paralelo e tudo o que tá acontecendo com a mulher dele ele fica apático com aquilo. Por mais que ele tenha uma relação liberal, por mais que eu visse minha mulher transando com um terceiro eu demonstraria algum sentimento: repulsa, raiva, sei lá. Não ficaria indiferente como observador, não esboça nenhuma reação.

Mattar — Brotinho Felipe — Broto.

Mattar — Chegamos num ponto bem atual de que a foto não retrata a realidade fielmente. Mas a realidade que você idealiza.

Felipe — E acho isso muito perigoso, vamos falar das mídias sociais. As redes sociais. Porque o seu trabalho e a sua imagem esta associada em como você se promove. E existe um oportunismo, pois você pega um retrato de algo muito pequeno do que ta rolando e não quer dizer que você ta aproveitando. Você ta na balada curtindo ou sei la o que e ai tira uma foto como se tivesse muito louco e na verdade você ta sóbrio. Porque se você estivesse desfrutando daquele momento nem estaria preocupado com isso.

Mattar — Mas isso não é privilegio das redes sociais. O próprio Velázquez.

Felipe — Mas ali tinha um método, um contexto. Ele podia expressar do jeito que ele queria, e ele era muito bem relacionado, mesmo assim o retrato era encomendado.

Mattar — Quem encomendou queria retratar daquela forma. Mas ai achar que a fotografia vai trazer um retrato fiel…

Felipe — E não era fiel, mesmo que fosse um retrato havia uma mudança. A mulher que era esbelta eles queria engordar porque o padrão da época era mulheres mais cheias. Uma roupa mais suntuosa as cores que dependendo do estilo demonstrava poder.

Mattar — Talvez fotojornalismo seja a forma mais mentirosa de retratar a realidade. Por ser a tentativa mais fiel de retratar.

Felipe — E você da credibilidade. Porque não é uma coisa artística. ..

Mattar — Vou fracionar o momento aqui. Que nem aquela foto da Dilma com a espada fincada…

Felipe — E você interpreta da forma mais interessante praquele meio que encomendou.

Mattar — Essa questão da fotografia em 69. Quem tinha acesso a uma câmera?

Felipe — 66

Mattar — Era algo muito restrito, talvez podemos considerar este meio com o computador pessoal guardado as suas devidas proporções, no que condiz a histeria.

Felipe — A coisa das meninas do filme que querem ser retratadas pela vaidade, não interessa o método de trabalho mas se vai sair numa capa de revista pra quem ele fotografa. É PURA VAIDADE.

Mattar — Tem que ver quem era a Jane Birkin ali? Mas Antonioni escolheu a dedo.

Felipe — Inclusive a trilha, grande HERBIE HANCOCK. Genial caaaaaara!

Mattar — Ele pega essa swinging london, onde os holofotes estavam voltados pra Londres, na cultura musical, moda, literatura mesmo, essa cultura efêmera. !1966 né!

Felipe — Euuuu… éeee… Achei curioso, mas será que ele escolheu de propósito essa swinging Laandon?

Por que não paris?

Mattar — Acho que sim. Acho que Londres era equivalente a Paris de Hemingway.

Imagina o Sargent Peppers dos Beatles. Hoje você ouve e ok. Mas pra época muita à frente. Muita tecnologia envolvida, uma quebra grande.

Felipe — Não só tecnologia mas uma mistura de instrumentos. Muito louco. A gente ta acostumado a um mundo midiático com essa sobreposição de culturas, seja por alguém que viajou, livros internet. Mas aquela época era muito difícil. Lembro dos meus pais falarem que era muito restrito, difícil viajar.

Mattar — É um suporte muito forte, uma abrangência muito grande. Não tem como não afetar. Tecnologia neste sentido mesmo, do alcance que teve de estar na grande mídia da época ou no canal de distribuição deste conteúdo. Dificil não afetar né. E acho que o filme passou aqui na epoca?

Felipe — Acho que sim, apesar de ser restrito. Não sei em Curitiba, teria que perguntar… Por ser um filme artístico

da época não mainstream. Apesar de ter gente conhecida….

Mattar — E essa coisa do Mondrian nas roupas né, na moda? Construtivista…

Felipe — Tem um pouco de art pop que tava começando a amadurecer, muitos artistas pops estavam tendo repercussão no mundo inteiro, desse questionamento da mídia da televisão revistas em quadrinhos. Uma coisa engraçada que eu lembro que eu vi, faz muito tempo já, acho que uns dois anos… um cara que tinha um blog pegava todas as referências de quadrinho do Lichenstein e falava: ahhh esse cara copiou desse autor; desse desenhista… mas o cara não entendeu que o ponto não era ele copiar, mas estava usando as revistas em quadrinhos para questionar a relação dos quadrinhos com a midia, era contato com outro material pra questionar. Era um retrato com outro material pra falar sobre isso.

Mattar — E o conto é de que ano?

Felipe — Olha aqui diz que os contos são de 1945 a 1966 no livro, então é contemporâneo pra época. Ele devia ta bem situado.

Felipe — O Antonioni se não me engano era Belga mas morou muitos anos na argentina, o pai era embaixador. Ele tinha passaporte Europeu. Morou muito tempo em Paris, inclusive morreu em Paris.

Mattar — Então tinha este intercâmbio…

O jogo da amarelinha o Cortázar também coloca o leitor como decodificador da narrativa né. Não tem nada concreto, cada um tem a sua interpretação. No fim das

contas é isso. No filme não da pra dizer se o cara morreu ou se é fruto da imaginação…

Felipe — E aquela história com os mímicos… ficou um pouco…

Mattar — Achei engraçado a imagem que ela diz que a imagem do cara morto parece o quadro que o amigo estava pintando. A imagem doc ara morto, você olha e não consegue ver.

Felipe — Éh… são uns pontilhados que só ele consegue ver né.

Mattar — E o filme, como no conto, começa e termina igual. No caso com os mímicos…

Felipe — Mas os mímicos seria sobre uma interpretação da realidade que é claramente falsa…

Mattar — Um simulacro…
 Felipe — É louco que no final da aquele vazio ele fica

sozinho.

Mattar — E interessante que o mímico tem que apontar a bola pra ele, ele não estava no simulacro, na história. Ele aponta vai la buscar…

Felipe — Esse ponto né. E neste momento, a partir do momento que ele tem que buscar que ele percebe que ta fora da realidade… ele é obrigado a encarar a realidade…

Mattar — É o momento em que ele compartilha o delírio dele. Ou entra em outro delírio.

Felipe — Mas ai vem a questão da solidão. Voltando na história do midiático e do contexto contemporâneo, do twitter e das novas tecnologias: você tenta projetar algo que na verdade no seu sentimento ta um vazio. Você não ta dividindo uma conversa um diálogo, esta jogando na rede uma projeção que não condiz com o real. O não estar desfrutando.

Mattar — Exato, não é um retrato da realidade. É algo idealizado. A partir do momento que fica coletivo… Mesma coisa as biografias das grandes personalidades, você acha que é uma puta estrela e na real o cara vive na decadência.

Felipe — Na verdade o cara tá fudido hahaha

Mattar — Esses dias eu vi a biografia do Marlon Brandon, e era bem isso. O cara com uma vida super tumultuada. Tornou-se ator quase que por acaso. Uma vida totalmente errante. Só cagada, só deu merda.

Felipe — E aí vem o lance de idealizar, não só uma pessoa mas um estilo de vida. O fato de você falar as coisas certas, de estar nos lugares certos, é como se estivesse construindo uma vida programada, mas na realidade é algo pensado, projetado. Nada natural. Pois o natural é conviver com ambos, lidar com coisas que te incomodam, com coisas que você não gosta.

Mattar — E a narrativa clássica tem disso de retratar o que a gente espera o que a gente quer ver. E esses caras, antonioni, godard… não tinham o menor compromisso com isso.

Felipe — Eu vou retratar do meu jeito, dentro do que eu acho…

Mattar — E é como as coisas são, fluxos de consciência!! Fragemntos, é muito louco. Se for ver nada faz sentido. Por mais que a gente tente fazer com que faça sentido.

Felipe — Uma coisa curiosa que eu vejo algumas pessoas que eu conversei, que buscam um propósito de vida. Eu falei com não sei quem… Isso é uma besteira cara que eu acho. Isso é uma coisa muito merda cara

Que propósito.. seu propósito e se relacionar com as outras pessoas, tentar viver em um mundo tão conturbado. Agora você achar que você é um messias. O gandhi mesmo foi elegido, não foi ele que falou… ahh sou o salvador da pátria ele não se auto-intitulou um figura messiânico.

Mattar — Tava vendo o ninfomaníaca do Lars Von trier e tem uma cena interessante que ela se rebela no primeiro filme contra o delírio do amor… a obrigatoriedade dessa instituição! Tem uma cena que elas tão no cinema e tem um casal e elas quebrando vitrine de dia dos namorados.

Felipe — E outra coisa que é doida…Você assistiu os dois? Mattar — Assisti.

Felipe — Lembra no segundo o cara que era todo certinho e tinha sensibilidade pra discernir e no final ele acaba sedendo.

Mattar — Mesmo o Dogville tem essa obrigação de não fazer sentido. A literatura mesmo é um suporte muito forte dos anos 50 e 60.

Felipe — O meio impresso era muito forte ainda. Mattar — Hoje você vê adolescentes que não leem…

Felipe — Você viu aquele post da Cosac & Naify que libera todos os livros em pdf. E uma galera repassou a informação.

Mattar — Como assim?

Felipe — A galera nem sequer leu e repassou pros outros. E Voc6e questionava, mas isso é pegadinha. E a galera ahh mas eu nem sabia.. quer dizer nem abriram a mensagem antes.

Mattar — Hahahaha

Felipe — Mais uma vez a questão da imagem… Os caras se preocupam em disseminar essa imagem sem nem saber do conteúdo.

Mattar — É um suporte que está defasado. E era um entretenimento

Felipe — Tinha aquele Reader’s Digest

Mattar — Meu pai eu lembro que falava que ficava puto indo ver esses filmes… ahh o Bergman… porra cadê o final, não tem final???

Felipe — O cara no climax esperando aquele final hollywoodiano e fué hahahahahaha

Mattar — Mas é justamente isso o final, você sugerir… Felipe — Você faz um raciocínio, o exercício é esse de não

sair com uma coisa mastigada pronta… Mattar — Puta viés midiático né meoo hahah

Imagina quantas pessoas tinham câmera?

Felipe — Era super restrito. Poucas… Tava começando a ter fotografia colorida.

Mattar — Isso causava uma certa histeria e arrogância por parte do fotografo (do filme) “muitas garotas queriam tirar foto comigo”

Felipe — E um coisa que acontece, ele começa o filme numa fábrica, um trabalho autoral que demonstra uma sensibilidade, um cara humano que retrata a fábrica o consumismo… e quando vê um cara hiper artificial… arrogante pacaraleo

Mattar — Ele mostra no almoço umas fotos bem legais (da fábrica)

Felipe — Na verdade não sei se isso é um contraponto se ele tentou absorver alguma coisa interna ou se ele ta querendo passar por um cara intelectual mas é um ser superficial…

Mattar — É um meio sujo uma indústria fordista decadente… e ele sai como mais uma peça dessa engrenagem…

Felipe — Mais uma peça daquela indústria, e tinha a ver com o consumo de tudo o que ele ta vendendo. Eu imagino que o Antonioni quisesse passar isso.

Mattar — Tem a indústria da moda…

Felipe — Hoje mesmo, é muito difícil um produto que você use que não venha de mão de obra escrava… Mais uma vez a questão da imagem. Um objeto de decoração que você

ostenta e na real veio da China de um meio com subcondições de trabalho… tem até o filme la do where is my mind…

Mattar — Clube da Luta

Felipe — E tema cena que o Edward Norton fala de tudo que precisa consumir e mostra a revista da ikea com tudo o que ele precisa comprar porque ele precisa ter aquela imagem e de repente ele perde o apartamento… e fica perdido.

Mattar — Este é outro filme que a gente podia fazer… tem o livro do Chuck Palahniuk

Felipe — David Fincher…

Mattar — E voltando a blow, em 66 tinha essa coisa midiática, a indústria de consumo, e já ter esse questionamento…

Felipe — Já tinha esse questionamento do consumo. O american way of life ja rolava sim…

Mattar — Aquela cena em que as meninas começam a brigar.. ahh eu sou mais bonita, meu corpo é mais bonito que o seu. Já antecipa essa histeria.

Eu sei que era pra ser o The who naquela cena. O yardbyrds não quebrava instrumentos.

Felipe — Então eles improvisaram com o yardbirds hahaha Tipo… ahhh não faço filmes. O led Zeppelin não sei… acho que logo se formou depois dessa época.

Mattar — O Led foi 70 o auge… O jimmy Page ali que logo seria uauuuu

Sei que varias revoluções estavam pra acontecer. Mas em 68 o bicho pega mesmo, mas 66 já tinha o revolver dos Beatles… aquele bruxo britânico que influenciou uma galera… inclusive o próprio led zeppelin. Ele tem uns conceitos mais uma critica a igreja mesmo. Mas é dessa época. A questão da religião hindu, as religiões ocidentais influenciando. Essa coisa assim do fotografo em si e o narrador… tem essa coisa em mãos… ambos tem em mão a possibilidade de moldar os rumos. Por isso essa arrogância.

Felipe — Do jeito que ele quer. Ahh isso aqui é meu, é minha imagem. Eu vou fazer da minha forma e você que engula. Eu construo a realidade do jeito que eu quiser.

Mattar — Eu quero estar neste fragmento de eternidade, por isso que elas se estapeiam. Não quero estar fora disso…

Se todos tivessem uma camera não faria sentido se estapear por isso. Seria algo comum. Que nem hoje em dia…

Felipe — Quando fui na palestra da Marina Abramovíc em são paulo, ela disse que tinha um aluno que alugou um carro, um Rolls Royce e contratou alguns seguranças e foi até uma balada com seguranças. E a galera ficou louca pra tirar foto com ele simplesmente achando que ele era alguem nobre, famosos. A galera ficou louca pra tirar foto com o caaara… Pedindo pra tirar foto. Depois tem que achar essa referência, a galera pedindo autografo.

Mattar — Hahaha me tira da vala comum
 É uma industria que só faz sentido com esses suportes.

Felipe — Foda que o suporte muda de formato mas se mantém.

Mudam de formato mas o ego prevalece, a vaidade. É dificil fazer uma reflexão, olhar. Porque esse processo mais dificil você não jogar por externo é a reflexão você olhar pra dentro e estar mais proximo daquilo que se busca, e você acaba pegando o que ta em voga e pega isso pra você.

Mattar — Hoje isso ta muito mais pulverizado. Nessa epoca tava na mão de poucos essa propagação. Na epoca você vai ver tinham 3, 4 revistas. Tinham semanários de música, cinema.

Felipe — Ou mesmo isso… Você ter um meio de comunicação que vai ditar uma regra… Pode influenciar… Mas ditar é difícil. Existe uma tentativa através de blogueiras, videologger se ele ta falando do assunto porque gosta ou porque ta sendo pago por isso. Uma influencia semi velada muito mais perigosa.

Mattar — Muito mais. Foi 50 minutos já?

Felipe — Já deu?

Mattar — Você tem ir né?

Felipe — Tenho um aniversário. Me dá uma carona?

Mattar — Dou. Vamos?

Felipe — Vamos!

Para quem tiver interesse, essas são as referências que citamos:

Clube da Luta (Fight Club); 1996— Chuck Palahniuk

Dogville; 2003— Lars von Trier

Blow-Up: Original Motion Picture Soundtrack; 1966—Herbie Hancock

starless tour (33:34)— Daniel Müller

Deconstructing Roy Lichtenstein — David Barsalou

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