confuso

Non Resuscitare
Aug 31, 2018 · 2 min read

Permaneci ali, sentado no topo de um dos morros mais altos do lugar. Sozinho. Acendi um cigarro e presenciei a beleza das constelações e a imensidão do infinito, a majestade da natureza e o mais harmônico silêncio que ouvira na vida. Pensei tanto sobre a vida que perdi a noção do que acontecia na selva de concreto, parecia que ali era meu espaço, minha casa -e de fato era, não só a minha como a de todos nós-. Eu me esqueci dos semáforos, do asfalto, de mochilas, bolsas, carteiras, horários, preocupações, pressão, responsabilidades, compromissos, me esqueci do ser humano. Me esqueci que devastamos o lugar que residimos em prol de um conforto problemático e caótico. Eu esqueci o que era violência, preconceito, machismo, homofobia, estupro, assalto, euforia, falsos risos em meio a uma mesa rodeada de um líquido mortífero mas que desperta o prazer e a sensação ilusória do que chamamos de paz. As estrelas dançavam com meus olhos, os grilos compunham uma melodia que me despertava a necessidade de sorrir e contemplar o mundo que realmente nos pertence. Eu também me esqueci do caminho de volta, e assim prefiro. Perdido no meio da imensidão verde, azul e branca, perdido por entre as curvas dessas montanhas. Fiquei maravilhado com o som das águas percorrendo as pedras do rio como se fosse uma corrida entre as infinitas gotas que ali corriam desesperadas para encontrar o final do ciclo, exatamente como nós corremos pelo tempo tentando encontrar nosso lugar nisso tudo ou pelo menos tentarmos nos situar nisso tudo. O dia amanhecia, o Sol me fez um show particular exibindo sua mais bela pintura, sua exorbitante facilidade em me impressionar com o laranja contornando os morros era indiscutível, tal como teus raios me forçavam a fechar os olhos e apenas sentir a energia, sentir o som de tudo juntamente a minha sensação de satisfação. Isso tudo me fez esquecer minha tristeza, minhas mágoas, meu rancor e junto de tudo isso meus demônios que decidiram me dar um tempo de folga e me esperaram na saída.

É, a hora de voltar ao inferno chegou, já se passaram meses e eu ali, sentado. Fumando. Sozinho.

Esqueci de tudo e tudo isso que me foi oferecido em forma de reflexão só me lembrou de duas coisas; o quanto a vida pode ser linda se vista com os olhos certos e você, que foi a razão pela qual eu vim aqui. Eu queria uma forma de assemelhar sua beleza a algo e escrever sobre o quão lindo o mundo pode ser, mas dentro de toda essa desgraça no mundo eu ainda lembro desse paraíso quando vejo você.

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    Textos reflexivos a partir de ideologias ou teorias interpessoais que, quando conectadas a fatores externos formam um conjunto filosófico de questionamentos.