Sobre o negativismo e seus complementos
Mais um dia condenado a morbidez, a permanecer em um estado fisicamente vegetativo, o amargo gosto da insatisfação. Há tempos busco a solução para tudo, mas nessa ilusão já sou velho marinheiro, já desbravei inexplorados oceanos de lágrimas com meu barco remendado que me impressiona na forma em que se situa, ou talvez não me impressione e seja apenas uma tentativa de esperar pelo inesperado. É dormindo que alcanço a fuga, é bebendo que consigo me distrair, mas como distrair o que nunca se afasta? É como um amigo vizinho que diariamente me visita, suja completamente minha casa e se despede. Nesse momento vem a raiva e o pensamento de nunca mais o convidar, mas posteriormente me recordo que ele vem por conta própria e limpo a casa sozinho, o que depois me alegra novamente. Esse amigo pode ser aquilo que acaba com meus oitavos de alegria mas, no fim, sua presença acaba sendo importante… Isso porque toda vez que ele vem nós bagunçamos juntos a casa toda e temos uma conversa reflexiva sobre tudo, sobretudo aquilo que mais incomoda. Seria esse amigo a tristeza? De alguma forma ele se instala em mim em uma festa eufórica buscando a plenitude, a calma e aquilo que todo ser humano busca, um fantasma invisível aos olhos, a felicidade. Por mais que estejamos diariamente a buscando, apenas quem crê em fantasmas os enxerga, é como alcançar a felicidade a partir do momento em que acreditamos nela. Nietzsche estava certo ao dizer que quem luta com monstros deve velar por que, ao fazê-lo, não se transforme também em monstro. E se tu olhares, durante muito tempo, para um abismo, o abismo também olha para dentro de ti, e essa frase é mais perturbadora quando olhamos no espelho e enxergamos o fundo do nosso menor fragmento de alegria, é quando enxergamos principalmente a criança que deixamos de ser mas que com certeza ainda reside em nós, afinal, ninguém deixa de ser criança, só deixamos de brincar.
