Laços delicados

– Não!! Volta aqui, criancinha filha da puta!

A moça gritava e até ameaçou correr, mas já era tarde. A criança, uma menina loirinha de olhos azuis, que faria qualquer adulto dizer “nossa, que lindinha!”, já fugira serelepe com seus pequenos passinhos infantis. Levava, como prêmio, o fitilho colorido que arrancara de uma das bexigas da festa. Agora todas as crianças da festa ao lado iriam adorá-la.

A moça da festa de cá, contudo, não escondia o crescimento de sua raiva. Abraçou firme o moço que veio em seu consolo, e talvez até tenha deixado escorrer uma lágrima solitária. E rapidamente afundou o rosto bonito no pescoço amigo para escondê-la.

A maioria não entendeu o motivo de tanta fúria. Para eles, era dia de festa, de alegria, de beber cerveja ruim e comer salgadinhos ainda piores, de jogar conversa fora e risadas para o alto. Muitos não se lembrariam dos detalhes da festa. Alguns já tinham perdido a sanidade naquele momento, e a noite nem havia caído ainda. O ocorrido valeu mais algumas piadas e foi logo esquecido. Mas não por ela.

Ah, não. Os outros não tinham passado meses planejando aquela festa, fazendo de tudo para que ficasse gostosa e agradasse a noiva. Eles não tinham discutido horas com as colegas sobre o que beber e comer, nem quase perdido boas amizades por discordar sobre quanto gastar. Ninguém ali tinha dividido o estresse entre um emprego estafante e a criação de uma decoração de festa na qual ninguém (fora, talvez, a noiva) estaria sóbrio o bastante para reparar. Não, eles não haviam acordado cedo naquele sábado de céu deliciosamente azul para passar horas enfurnados no salão, pendurando as bexigas no teto com fita adesiva, nem os fitilhos coloridos abaixo delas. Não precisaram de um cochilo curto e desconfortável no sofá da colega para tentar amenizar as dores agudas no pescoço de modo a poder aguentar a festa.

Mas entre os braços aconchegantes do moço e suas doces palavras de consolo, ela deixou que o assunto esfriasse. Para os outros, o álcool bastava, como ele havia advertido previamente — a festa seguia como se nada tivesse acontecido. De resto, afinal, era uma festa como as outras: os homens contavam casos e vantagens, e faziam piadas às custas dos outros; as mulheres fingiam surpresa com as últimas fofocas, lembravam animadamente do passado e discutiam catolicamente o futuro. A bebida cuidava da qualidade dos salgadinhos e da música, sempre baixa ou alta demais.

Um novo casal se formou calorosamente em um canto, um antigo discutia acaloradamente em outro. A noite veio e a moça se ocupara em ajudar uma amiga a rechaçar os avanços insistentes de um incoveniente um pouco mais ébrio, enquanto o moço cuidava do amigo cuja memória já não estava gravando mais nada.

A amiga finalmente se livrou do opressor e o amigo resolveu ir a outra festa, onde talvez não houvesse bebidas das quais ele já não precisava. A moça ganhou alguns minutos para conhecer o jardim do local, acompanhada pelo moço, sob as estrelas invisíveis no céu brilhante da cidade luminosa. A festa das crianças ao lado já havia acabado e todas já tinham ido assistir televisão ou, quem sabe, dormir. O cansaço da moça transparecia através de sua elegância e juvenil beleza. Mas aquele local trazia ideias e imagens que mantinham o casal acordado, com a imaginação vívida.

Pouco depois a amiga precisava de ajuda novamente. Agora nenhum homem incoveniente a assolava — o que parecia ser parte do problema, aliás.

– Todas as minhas amigas estão ajeitando a vida… como fica o MEU futuro?! — murmurava ela para as mais próximas, entre uma ou duas lágrimas rebeldes.

A moça prestativa foi prontamente acudi-la, junto com outras. Esforçavam-se não por consolar a amiga, mas por lhe mostrar quantas possibilidades e portas abertas ela possuía. Quantos caminhos diferentes ela tinha para vários espectros de sucesso.

O moço, deixado a sós, caminhava pelo jardim enquanto seus pensamentos voavam por nuvens semelhantes. O que representava aquela festa em seu passado e futuro? Já não sabia que relação aquele presente perdido guardava com o que planejara. Sem saber se essa distância era boa ou ruim, temia que o mesmo continuasse acontecendo. Chegara ao playground das crianças e sua imaginação ia e vinha junto com o balanço em que se sentara. Quando o brinquedo parava à frente, conseguia ver de relance a moça, por um breve instante antes que retornasse. E suas esperanças ganhavam força e suas divagações tomavam um novo rumo. Resolveu descer, considerou por um instante retornar à festa. Deu-se conta de que talvez apenas uma pessoa sentisse sua falta e abaixou a cabeça. Seus olhos escuros caíram sobre o fitilho colorido jogado na grama.

Partiu em direção à festa pelo caminho mais longo. Enrolava e desenrolava o fitilho colorido nos dedos brancos, refletindo se devia ou não mostrá-lo à moça. Arrebentou um pequeno pedaço, e agora estava enrolando em dois dedos. Não conseguia se decidir. Gostaria de mostrar, acreditava que a moça sorriria e ele era capaz de tudo para ver aquele sorriso. Por outro lado temia que apenas reacendesse a memória sobre aquele roubo e a irritasse novamente, o que acabaria com a noite de ambos.

Estava quase arrebentando mais um pedaço quando o destino tomou as rédeas. A moça apareceu em sua frente, procurava por ele. Viu o fitilho e sorriu carinhosa. Veio até ele, abraçou-o, beijou seus lábios com amor. E sorriu.

VBF, maio de 2007