Indefinido
É como se o universo gostasse de pregar peças na gente.
Porque quando percebi, a conversa que era sobre como tínhamos gostos peculiarmente diferentes para bebidas indiscutivelmente ruins e de musicas inexplicavelmente boas se tornou um monólogo na minha cabeça sobre qual seria a cor dos seus olhos.
E eu não queria saber a resposta tão cedo, quanto mais eu encarava eles menos eu conseguia enxergar a cor.
Deve ser porque outras coisas traspassaram elas em quesito de importância.
O seu jeito de falar; o tom da tua voz; o jeito que sua mão passava do suave ao jeito que pesava no meu corpo depois, e eu gostava disso mais que tudo; a sua cabeça no meu colo e o jeito que, seus olhos da tal cor indefinida, me impediam de não ficar mais tempo.
Sabe, você me ensinou que meu sorriso é bonito e me fez ver ele desse jeito depois de muito tempo que eu me escondi por trás dos sorrisos alheios. E por isso eu gostaria que você gostasse do seu e da abertura entre seus dentes que faz dele tão único e bonito.
Aliás, eu também nunca soube dizer qual era a cor do seu cabelo, eu me perco muito nas cores, como pode a artista se esquecer do nome delas? A resposta eu já sei, é a obra de arte mais bem esculpida pelas mãos dos átomos contra o Sol, com os lábios entreabertos e os olhos, ah os olhos, reluzindo de um jeito que, de novo, me fazem esquecer qual a real cor deles.
Gostaria de poder culpar as duas garrafas de vinho, as três de cerveja ou de seja-lá-o-que que a gente fumou, mas eu sei, lá no fundo, que o universo pregou essa peça em mim no dia que eu perguntei para mim mesma “qual é a cor dos olhos dele mesmo?”.
