Liberdade (e computadores) — Parte 1

Uma escolha seria levar este texto para o lado puramente filosófico: ‘afinal somos verdadeiramente livres?’. Eu sei que alguns dizem que sim e também sei que outros dizem dizem que não. Mas para mim, graduando em Engenharia da Computação, posicionar-me neste debate exigiria muito mais pesquisa que estou disposto a fazer para argumentar algo tão abstrato. Sendo assim: Computação, eu escolho você!

‘Mas Vitor, o que Computação têm a ver com liberdade?’.
‘Mas Vitor, eu não entendo nada dessa área. Pra mim Nokia e iPhone e Windows são a mesma coisa!’.

Então… juro que farei o possível para não deixar ninguém boiando. Escrevi este texto com tanto carinho na madrugada dum Domingo de Páscoa. Caso não goste, me xingue. Agradeço o feedback. Ainda assim é impossível prometer um texto simples ou livre de termos técnicos. Não posso lhe dizer se cheguei a uma conclusão surpreendente ou a uma explicação maravilhosa. Neste momento, as linhas abaixo ainda não existem, sendo um segredo para mim como são para você. Se você estás aqui é porquê eu não desisti de você, leitor. Então, imploro-lhe: não desista dessa leitura.


Parte 1 — GNU is Not Unix

Esse cara! Seja esse cara! (Fonte: About Linux)

Esse tiozinho sorridente da foto é o Stallman. Richard Matthew Stallman. Uma das figuras mais peculiares da informática. Esqueça Bill Gates, Steve Jobs, Sergey Brin e Larry Page. Ou melhor: NÃO esqueça. Só preste atenção.

O Stallman deu um início a um ideal que divide muitas opiniões: o Movimento Software Livre. Para alguns ele é só um maníaco com sérios problemas psicológicos — e tem até muitos argumentos a favor, só uma olhada no site dele que você entenderá porquê — mas para outros ele é um mito, no sentido mais puro e grandioso da palavra.

Ilustração por Nathan Fox
‘Mas Vitor, você falou tanto do cara, mas eu ainda não entendi o que raios ele faz pro mundo.’

Então, como eu estava dizendo, ele deu início ao Movimento Software Livre. OK. Mas o que é isso? O MSL (vou chamar o Movimento Software Livre assim daqui pra frente) diz que “tal como as ideias, os programas de computador não são tangíveis e podem ser copiados sem perda. A sua distribuição é a base de um processo de evolução que alimenta o desenvolvimento do pensamento.”

‘Falou, falou e não falou nada.’

Em outras palavras, o MSL defende que deveríamos ter o direito de acessar e estudar (ou seja, entender como foi criados) todos o programas que usamos. Só que ‘programas’ não restringe-se ao Navegador de Internet (Google Chrome, Mozilla Firefox, Microsoft Internet Explorer, Microsoft Edge, Opera…) ou ao Sistema Operacional do seu celular e PC (Apple iOS e MacOS, Google Android, Microsoft Windows e Windows Phone). ‘Programas’ é muito mais!

Eletrônicos rodam programas. Não tem como ser diferente. É um programa que faz sua televisão ligar, que faz seu microondas apitar, que faz sua impressora imprimir. Ele pode ser tão simples que você nem sabe que ele existe, mas sem ele é impossível do equipamento funcionar. E para o MSL, um programa que não mostra como funciona é um risco.

Até agora, Abril de 2017, foram encontrados mais de 300 casos de ‘funcionalidades maliciosas’ escondidas em softwares (vou chamar programas de softwares, okay?) de amplo uso. Eles variam de escavadeiras que podem ser desligadas remotamente sem a autorização do dono até termos no contrato de instalação do Windows 10 onde o usuário (ou seja, nós) autorizamos sem saber — afinal, quem lê contratos de instalação? — que a Microsoft acesse nosso computador sem restrições.

‘Tá, mas qual o problema? Eu não tenho nada a esconder! E se é por segurança, deixo que desliguem meu carro sem eu autorizar.’

Informação não vale nada. A questão é o que fazem com ela. Respondo a essa pergunta com um fato cotidiano para muitos: já percebeu que depois de pesquisar uma coisa pra comprar, o Google enche de propagandas sobre esse mesmo item? Alguém pagou por isso. É assim que se ganha dinheiro na internet. Acessar seus dados é um modo de saber o que você quer e te manipular para que você o compre. (E pode ser talvez um modo de te matar).

Lá em 1983, não querendo depender de programas protegidos, o Stallman pensou no GNU.

Fonte: StackExchange

Como você leu no início desta seção, GNU significa ‘GNU is not Unix’ — e você não entendeu nada, eu sei disso. Bem, em outras palavras (mais complicadas ainda), o GNU é uma parte de um Sistema Operacional tipo o Unix mas que não é como o Unix.

Sabe o seu celular (a não ser que você seja a exceção e tenha Windows Phone)? Ele roda algo tipo o Unix. Sua TV LCD/LED/Plasma? Roda algo tipo o Unix. Seu roteador Wifi, sua impressora, seu Playstation 3/4, seu Nintendo Wii/WiiU/Switch, o computador de bordo e a tela digital do seu carro… Rodam algo tipo o Unix!

‘Mas Vitor, o que é raios é UNIX e porque nada é UNIX?’

Unix é um Sistema Operacional. Microsoft Windows é outro Sistema Operacional. Já o Apple MacOS e as Distribuições Linux são Sistemas Operacionais (S.O.s) como-Unix, ou seja, são baseados no Unix mas são diferentes do Unix.

‘Mas se o GNU é como Unix mas não é um Sistema Operacional, ele é o quê?’

Tá difícil de me acompanhar. Eu sei. Estou quase acabando! Você já deve ter aprendido algumas coisas novas. Espero que sim. Fico feliz com isso. Mas pra concluir essa parte, preciso terminar a historinha do GNU:

Lembra que eu disse lá no começo que o Stallman criou o GNU? E lembra que o GNU é só uma parte do Sistema Operacional? Então… E o resto? Bem, o resto foi criado por um cara bem massa tão descolado quanto o Stallman: o Linus Torvalds.

Fonte: Blog Seja Livre.

O GNU é o que o usuário vê e interage basicamente (por favor, não me mate Stallman, eu não quis dizer isso). Mas era necessário algo para unir o GNU ao computador. GNU sozinho não faz nada.

Em um outro lugar, assim como o Stallman, Linus Torvalds também não queria usar o Unix. Porquê? Bem, a essa altura acho que deve ter entendido que o Unix não é necessariamente gratuito, nem livre. E esses dois caras tinham isso em comum: eles desejam a liberdade digital. E com esse propósito, Linus criou o Linux! Então um tiozinho aleatório resolveu unir as ideias de Stallman com a cópia do Unix que o Linus fez, criando uma interface visual bonitinha (e livre e gratuita) para o Linux.

Assim surgiu o GNU/Linux e uma guerra de nomes.


Fim da Parte 1

Não prometo uma parte 2. Depende da adesão do público. Risos. Mas caso tenha, pretendo falar sobre:

a) Erratas: com certeza terei algo a corrigir sobre este artigo, seja nomenclatura, seja ideologia, seja afirmação.

b) O que é o Linux, GNU/Linux e o que isso influencia na nossa vida.

Por hoje é só, pessoal. Até mais, e obrigado pelos peixes.