Cheiro do pó

Eu nada fazia além de submeter-me. Disse sim pra todas as suas loucuras, sem questionar, sem julgar.

O encontrei na porta do hotel, aquele perto do Minhocão. Queria dormir ao seu lado. A noite era fria como aquele café tragado pelo segurança do estacionamento. Perguntei a hora, ele disse nove e pouco. Olhou cada centímetro do meu corpo, talvez julgando o valor dele. "Tá frio né", "né", "bom pra esquentar né" e acenou com o copo de café de certa forma repulsiva. Ele achava que eu fosse uma puta.

(Era eu?)

Ele morava ali naquele quarto mofado havia alguns dias. Um cheiro impregnava o lugar, cheiro de café azedo. Do hálito do segurança. Desceu pra me receber, reclamou da minha maquiagem. Me beijou sem força, sem que eu perguntasse. Qual pergunta teria eu? Seu apartamento. Subimos pelas escadas de tinta descascada. Alguns tons de tinta, paredes sujas, como se todos os demônios houvessem transado em cada degrau. "Não liga a sujeira", e abriu a porta. O cheiro do pó. Sobe e atravessa as narinas. "Você não limpa esse quarto?" eu achei que tivesse dito, mas a boca ficou apenas aberta e seca. Entra, senta, tira esse casaco. Encheu um copo de conhaque, um pra mim, um pra ti.

(Era eu uma puta?)

Traguei num gole só. Acendi um cigarro para acompanhar. Ele era gordo, bem gordo. Era gordo e cheirava a sanduiche. Tinha cheiro de gordura nos pêlos, gordura e cigarro. Gordura e cigarros velhos. Com pó e café azedo. Não lembro nem se me arrependo. Mais um conhaque. Mais um beijo sem força. Na televisão quadrada, chiava a novela. Alguém transava. Não na novela, no quarto ao lado. "É sempre assim?", "sempre". "Você gosta?", "sim". Por um minuto de curiosidade, levantei-me e encostei a orelha na parede. Os gemidos doíam. Eu misturei em mim alguma coisa entre o prazer e a repugnância. Sai daí, ele pedia. Vem pra cá, ele pedia. Mas eu só queria ouvir esses gemidos. Que ficavam mais altos. E mais altos. E se tornaram pequenos gritos abafados. Eu, que gemia junto grudada à parede, não sabia mais de onde os gritos vinham. Se da garganta dela ou da minha. Se da cabeça minha ou de todos. Éramos Uma, unidas pela dor e pelo asco, gritando para alguém que nos ouvisse além de deus e do demônio. Beijou-me com força, como que me calasse, e ouvi então as pancadas. Uma, duas, três. Cala a boca, alguém mandava, e mais pancadas. Aterrorizada, no berro pedi às paredes que parassem. Cala a boca, ele me dizia, enquanto segurava meus cabelos pela nuca. E ali, onde rasgava com as unhas as minhas costas nuas, senti eu mesma a pancada. Silêncio e sangue escorridos pelos dois lados de uma parede suja.

Um sussurro precede o gemido. "Olímpia. Olímpia."