(Re) Descobrindo a Dança.

Hoje é o Dia Internacional da Dança, sendo esta, uma arte que a humanidade forjou e que a acompanhou durante o seu desenvolvimento histórico. Durante minha graduação em Educação Física, pude aprender, referenciado no livro Metodologia do Ensino da Educação Física, do Coletivo de Autores (1992), que a Dança faz parte da chamada “Cultura Corporal”, juntamente com o Jogo, as Lutas, o Esporte e a Ginástica.

Ao longo dessa jornada na minha graduação, pude compreender melhor esta arte, da qual desde muito novo já me interessava bastante. No colégio, sempre participava de coreografias, e pude experimentar diversas manifestações, desde as regionais, ou brincar de criar em cima de músicas que faziam bastante sucesso nas rádios.

Foi então que em meados de 2005 eu conheci o Melbourne Shuffle. Para quem não conhece esta dança, ela surgiu na Austrália, na cidade de Melbourne. Numa época em que o Techno era o gênero dominante nas raves, muitos “shufflers” começaram a desenvolver seus passos, acompanhando o bpm do Techno. Conheci essa dança pelo YouTube, vendo um australiano chamado Francis mandando ver em cima de uma track insana dos Organ Donors. A forma que ele deslizava no chão, a marcação dos passos associados a música, e a liberdade de criar em diferentes músicas me cativou de uma forma imensa, e logo procurei os tutoriais para aprender os passos básicos e mostrei para uma porção de amigos para aprenderem junto comigo. Posteriormente, me dediquei a construir a comunidade do Melbourne Shuffle aqui em Recife por mais ou menos uns 3 ou 4 anos. Foram momentos muito felizes. Com os encontros, gravações de vídeos, e muita e-music na mente. (https://www.youtube.com/watch?v=yC2mioC65wM)

Depois disso, entrei no mundo dos covers de K-Pop. O que foi algo muito fascinante de ter conhecido, e ainda hoje faço parte de um grupo cover. A possibilidade de juntar dois elementos artísticos que eu gosto bastante, a Dança e também o Teatro, dá uma dimensão muito maior em termos de uma performance, e assim, personificar um determinado artista coreano em cima de uma coreografia e sua interpretação ao cantar uma canção, se tornou um grande momento para me realizar.

O foda é que esse universo não gira dentro de um movimento espontâneo, onde um grupo de amigos se reune para dançar e realizar projetos em comum, como alguma intervenção em uma festa ou gravar vídeos (como eu fazia na época do Melb Shuffle). Ser cover de K-Pop lhe coloca dentro de uma dinâmica de concursos, onde vários grupos ensaiam bastante para disputar uma premiação, um breve momento de glória, podendo assim dizer. Assim, a busca pela perfeição, pela uniformidade, por resultados, por um viés mais profissional de grupo, somado aos conflitos e as exigências da vida acadêmica e profissional, geram bastante pressão.

A grande questão, é como saber administrar essas emoções. Por vezes entrei em crise, por não conseguir corresponder o que as pessoas esperavam de mim enquanto um dançarino/cover, e também por não conseguir corresponder minhas próprias perspectivas. Poucas pessoas me conhecem a fundo, e estas, sabem o quanto eu me cobro, eu acho que é um defeito e uma qualidade ao mesmo tempo, essa exigência em fazer bem tudo aquilo que eu estou inserido. É algo que preciso usar ao meu favor, e não um fator de auto-destruição.

Eu precisei me afastar um pouco dos covers, desde Outubro de 2015 que não pisava nos palcos. Precisei. Pra poder repensar a maneira de como eu queria a Dança na minha vida. Foi um bom processo para mudar minhas concepções e metas, amadurecendo muitas questões. Acredito que muitos colegas dentro desse universo cover ainda não passaram por esse despertar, talvez por conta do ego, a necessidade de competir e subjulgar o outro é maior do que o sentimento de estar em movimento. Tive a oportunidade de voltar aos covers recentemente, em Abril deste ano, perante um outro público, da cidade de Natal, no Rio Grande do Norte.

Lá vi um bocado de pessoas que vivenciam a dança através dos covers de K-Pop, assim como eu. Porém eu senti uma energia muito massa emanando dessa galera, era amor. E foi ai que eu vi que era esse feeling que eu deveria passar para as pessoas sabe? Mostrando que eu tô me sentindo bem fazendo o que eu gosto, não por uma obrigação de ser o melhor, e sim por diversão. Retomar esse sentido e significado era muito necessário. E que bom que a trip pra Natal me proporcionou isso, era o que faltava em minhas reflexões.

Enfim, neste Dia Internacional da Dança, hoje volto a enxergá-la como eu sempre fiz desde os primeiros contatos. Algo que me completa, me eleva a outro patamar. Que a partir de hoje eu consiga expressar essa arte sem amarras, sem alguém com um chicote invisível exigindo profissionalismo em algo que não é meu ganha pão (gostaria muito poder viver de dança, mas infelizmente não tá dando), e sim uma diversão, na etapa que estou hoje. Quero seguir nos palcos com alegria, dividindo os palcos com amigos e trazendo sorrisos a quem nos assiste. Assim sigo (re) descobrindo, reencontrando sentido em fazer essa arte que eu amo, ao mesmo tempo, entendendo que tem tanta coisa dentro da dança que eu preciso conhecer. Só preciso buscar, para mim, para ser feliz fazendo uma das coisas que amo.

Pasha Trutnev. Coreógrafo e dançarino de Dancehall.
One clap, two clap, three clap, forty?

By clapping more or less, you can signal to us which stories really stand out.