Aquelas cartas nunca entregue, aquelas palavras nunca ditas…

A inclinação para falar de questões mais amplas e abstratas é grande. Liberdade, moral, amor, verdade, entre tantas outras que fazem parte do arcabouço metafísico da humanidade e são fontes de grande interesse filosófico. No entanto, desta vez, se faz interessante uma análise mais pontual, mais específica, com certa conotação antropológica, talvez. Falemos de duas pessoas.

A 1ª pessoa: racional, realista, focada, disposta a encontrar padrões no mundo que a cerca, levantar questões sobre a realidade e sempre pronta para tecer críticas sobre tudo e sobre todos. A 2ª pessoa: Emotiva, realista a ponto de concretizar através da arte questões subjetivas e abstratas que nos cercam, um tanto dispersa, expansiva e igualmente crítica. Apesar de determinadas semelhanças, é nítido o que separa ambas. Tomemos como exemplo a questão filosófica. Enquanto a 1ª está preocupada com o macro, em pensar as questões estruturais que cercam a humanidade para assim chegar ao micro, a 2ª faz justamente o caminho oposto, de questões que para muitos podem parecer individuais e pouco palatáveis, esta consegue captá-las e extrapolá-las, mostrar que estas não são inatas a todos nós e sim parte de uma construção de algo bem maior. A forma com que ambas fazem isso é distinta, enquanto a 1ª vive mergulhada em pensamentos, análises internas e externas a si e empenhada a deixar que os livros não sirvam apenas para sofrer com a cruel crítica roedora dos ratos, a 2ª vive num grande mar de cores, sentidos e sentimentos, consegue traduzir através de tons, sombras e contrastes, o que temos de mais profundo, interações que muitas vezes ficam presas em nosso subconsciente e que temos acesso apenas em sonhos, esta consegue expressar através da arte sua poesia.

Bom, mas qual a utilidade desta análise? Por questões do acaso, ambas vieram a se conhecer, criar uma amizade, se relacionar de forma afetiva e, por intermitências da vida, esse relacionamento veio a terminar. Terminar, palavra que possui como sinônimos: abortar, anular, cancelar, invalidar, eliminar, ultimar, etc. Seria esta a melhor palavra a ser utilizada? Acredito que não, na verdade tenho certeza que não. Por que afirmo isso de forma tão contundente? Paremos para refletir sobre certas questões que as envolvem. O relacionamento formal, digamos assim, chegou ao fim de fato, no entanto isto é apenas uma das variadas questões que envolvem esta relação paradoxal, tradicional e não tradicional ao mesmo tempo, que estas duas pessoas desenvolveram. Amizade, companheirismo, preocupação, carinho, amor, saudades, atração sexual e intelectual são alguns dos pontos que ainda existem. Terceiros poderiam fazer a seguinte crítica: O relacionamento acabou recentemente, é normal coisas assim persistirem, mas com o tempo elas passam. Realmente, a crítica é justa, é comum isso ocorrer nos relacionamentos padrões. Entretanto, uma palavra surge a todo o momento, palavra que nem de longe se adéqua a essas duas pessoas: padrão. Seria possível encaixá-las nessa categoria? Acredito que não, mas não por elas serem especiais, dotadas de um conhecimento sobre humano, sim porque elas possuem outro olhar sobre o mundo, olhar que não fica preso apenas em discursos bonitos, feitos para agitar multidões e acalentar corações. Olhar que se traduz em atos, desde os mais singelos do cotidiano, até os mais complexos, portanto sendo impossível um relacionamento não ser afetado. Dito isso, posso afirmar com muita propriedade que, estas duas pessoas estão muito distantes da normatividade e do tradicionalismo. Renovar, aperfeiçoar, desenvolver, sofisticar, poderiam ser palavras que, num primeiro momento, soariam melhor para descrever esta relação, mas ainda assim acho-as limitadas, pois podem nos levar a pensar num possível ajuste do que se tinha antes, numa adaptação. Que palavra utilizar então?

Transcender. Na filosofia, transcender é superar os limites do conhecimento e o que é transcendental está ligado à razão pura, que precede toda a experiência. Representa o antônimo de imanência, pressupõe a existência de realidade diferente a nível qualitativo e independente do mundo natural e da consciência humana. Essa sim é a palavra perfeita para descrever essa relação. Algo que não está entre a amizade e o relacionamento, sim que surge da fusão do que há de melhor em ambas, atingindo outro patamar. Qual seria o nome dessa relação? Não tenho a mínima idéia, nem me interessa essa nomenclatura. Será que a amizade, companheirismo, preocupação, carinho, amor, saudades, atração sexual e intelectual, entre outros sentimentos, continuarão a existir? Só o tempo dirá.

Uma coisa é certa, esse grau de relação não se atinge sempre, nem com qualquer pessoa. Por fim, me utilizo das palavras do saudoso Caetano Veloso para traduzir em poucaspalavras, mas não menos belas, tudo o que foi dito anteriormente.

“Ainda assim acredito

Ser possível reunirmo-nos

Tempo, tempo, tempo, tempo

Num outro nível de vínculo

Tempo, tempo, tempo, tempo”