O nome dele era Bruno.

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Eu o conheci numa tarde qualquer e, sem perceber, tentei decifrar através dos olhos verdes e do sotaque estranhamente indefinido o que mais pra frente viria a se tornar um enigma. Me lembro que estava quente. Bruno tem uma risada alta e um jeito bastante peculiar de levar a vida, que na primeira impressão pode ser confundido com uma espécie de prepotência. Sua presença sempre foi forte, como uma afirmação constante de si mesmo. E talvez pelo conjunto da obra o efeito sedutor. Mesmo sabendo que sempre seria ele, ao abrir a porta, acendia em mim um desconhecido lampejo de felicidade.

Até hoje, passados os últimos acontecimentos, não sei precisar em que momento nos aproximamos. Rápidamente, alguns singelos pontos de encontro de nossas almas foram se revelando, gerando em mim reações eufóricas, porém tímidas. Bobagens, que ganham enorme valor dependendo do ponto de vista. E que geram uma profusão de onomatopeias esquisitas, dessas que surgem quando você mal sabe o que dizer. Quando o livro que você está relendo adquire um novo significado ou porque em momentos distintos da vida se identificaram diante das aflições de um mesmo personagem do cinema. Ou até mesmo por partilharem do mesmo paladar infantil. Bobagens.

Bruno sempre foi uma possibilidade. De silêncio. De sumiço. De amanhã. E também de encantamento. Era como o vento. Essa inconstância fez sua presença se diluir em pequenos movimentos de vida arrebatadores aqui dentro de mim. Em um dia, enquanto conversávamos sobre coisas da vida, Bruno segurou minha mão e disse amar a nossa conexão. Disse que eu era “uma figura”. Mais tarde, deitou a cabeça no meu ombro durante o filme. Nessas horas sempre existia um sopro de cumplicidade. Dessas coisas que o vento traz.

No decorrer de uma madrugada, semiacordados, me lembro de termos cochichado algo sobre a incerteza. Mas pode ter sido um sonho…

Assim como o vento, nossas interações nunca seguiam uma constante. Nossas frequências se tensionavam, chegando um bem perto do outro, para logo em seguida afrouxar. Em mim sempre existiram alguns pensamentos receosos, um tipo de estranhamento, um riso nervoso, um sentimento constante de algo que vai se diluindo na dança dos dias. Mas por fim, a sensação de estar seguindo uma intuição forte e certa sempre foi mais forte e tomava todo o fluxo do meu sangue.

Bruno de fato escapou. Não por falta de tentativas, nossa comunicação padeceu de alguns ruídos e um buraco negro de interrogações foi cavando espaço em mim feito um vírus. Um vírus de paixão, devaneio, conto de fada. Cujo único remédio é a espera, o tempo, a noite. Que se alimenta da lembrança, do cheiro, da saudade e das redes sociais. Mas que não mata.

Bruno deixou marcas. Se ao menos eu tivesse previsto o momento definitivo de sua partida, teria lhe dado um abraço de despedida. Mas dancei no escuro e ele foi-se embora sem me dar a mão, carregado pelo mesmo vento misterioso que o trouxe.

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