micropaixões cotidianas 01
Os grandes olhos amendoados de Marília parecem ainda maiores por trás da armação dos óculos de grau que fazem pouco por esconder as sardas no seu rosto. Em verdade, as evidenciam. Distraída com a tela do celular, caminhando pela calçada, ela quase foi atropelada por um ciclista, há poucos instantes.
– Você está bem? – minha voz treme num misto de preocupação genuína e interesse maior.
– Sim, obrigada. Foi só o susto. – a voz dela treme porque, bem… ela quase acaba de morrer, mesmo.
Assim nos conhecemos. Ela vestia uma roupa simples de inverno que, por mais grossa, não escondia a magreza do seu corpo alto e esguio. Seus grandes olhos curiosos. Um desejo puro de mudar o mundo, no auge dos seus 26 anos, contrastava com a timidez de quem ainda não está ciente da totalidade do seu potencial, feminino e humano, entenda isso como quiser.
Conheci seus pais quando fui pedir permissão (eram assim, tradicionais) para levá-la comigo em nossa primeira viagem de final de semana, um mês depois. O sexo, em princípio, foi desajeitado. Nossas inseguranças atrapalhavam, e não houve tempo ou elogio, de ambas as partes, que servissem pra romper esses bloqueios. As conversas que ultrapassavam meu limite do sono, madrugada adentro, geralmente eram sobre as impressões que tinha acerca dos lugares que ela sonhava visitar.
– Paris é uma merda, Ma. Vai por mim, escolhe outro lugar…
Durou pouco. Não houve briga, não houve mágoa. De comum acordo (eu, ela e o ex-namorado que nunca deixou de enviar mensagens), decidimos nos separar. Da última vez que eu soube, eles estavam viajando em lua de mel. Paris.
[ 3 meses depois ]
Uma garota loira com dreads quase até a cintura se atrapalha para dar conta de duas crianças pequenas e todas as sacolas, derrubando duas para cada uma que consegue juntar do chão.
– Aqui, deixa eu te ajudar… – minha voz treme num misto de preocupação genuína e interesse maior.
– Obrigada…
– Seus filhos?
– Não, sobrinhos. Minha irmã trabalha e…
Assim nos conhecemos. Ananda. Claro que ela tinha um nome “new age”. Vestia um blusão fazendo as vezes de vestido, por cima da calça legging que mostrava pernas fortes. Ciclista, talvez? Sim, ciclista. Vegana. Já praticou yoga uma vez ou outra. Foi na minha aula duas semanas depois. Tomamos um chá, ela me contou das maneiras todas que já havia experimentado pra se conhecer melhor. Uma ânsia por pertencer. Achar seu lugar no mundo. Como o capitalismo oprime e seu sonho de mudar pra uma comunidade alternativa num paraíso escondido qualquer. Um pouco hippie inocente, mas tão sincero!
Todas as vezes que íamos à praia, quase não voltávamos. Eu tinha as aulas, ela tinha os freelas em cafés e livrarias, mas a gente dava um jeito. Às vezes fugíamos pra uma cachoeira no meio da semana e éramos só nós dois. A química era forte, intensa. O desenho da boca ainda é o mais bonito que já vi. Olhos da mesma cor dos meus. “Não confie em pessoas de olhos verdes”, me disseram uma vez. Bobagem.
Um dia discutimos brevemente sobre uma frivolidade aleatória. Nem lembro. Ela recém havia voltado de um ritual qualquer, tinha na mente resquícios de efeitos quaisquer de. substâncias qualquer.
– Melhor a gente se falar amanhã, você ainda tá com alguma coisa prejudicando teu julgamento.
– Você precisa largar esses teus preconceitos! – desligou.
Nunca chegou, o amanhã. Deixou de responder minhas mensagens. Deixei de enviar. Entendi o recado. Tudo bem.
{ Em verdade, os 3 meses que separam uma história da outra foram 3 quadras. Eu não sei se a morena de óculos se chama Marília, se a loira de dreads chama-se mesmo Ananda. Nunca saberei. De dentro do carro, tudo que eu pude discernir foram alguns traços físicos, rapidamente, enquanto elas passavam por mim, vivendo suas vidas. Assim funcionam minhas micro-paixões cotidianas. }
