Sério, pega essa história aqui. Não dá pra inventar uma coisa destas:
Tô voltando do almoço, caminhando pela calçada, conferindo o celular. Próximo da esquina, dou uma olhada e vejo um carro vindo. Continuei andando e o cara quase me atropela porque ignorou o sinal de PARE e as tartarugas no chão.
Eu passo por trás abrindo os braços como quem diz “porra bicho, quase me mata!”, o cara abre o vidro e manda “qual foi?” Eu sorrio e mando um beijo, faço um coração com as mãos.
Ele grita pela janela: “- Você é viado?”
O cara me acompanha pela rua esbravejando e pô, daqui só sai amor, então mando outro beijo e uno as mãos, digo “paz!” Continuo sorrindo e sigo andando.
Se enfureceu, o home. Estacionou, abriu a porta e saiu gritando: “Travestizão! Viado! Você é bicha? Mandando beijo pra mim, porra?!”
– Cara, e se eu for?, respondi, do outro lado da rua.
– “Enfia o dedo no * porra, vai se foder, viado!”
Coloquei as mãos no bolso e segui sorrindo. O cara ficou lá mais um minuto ou dois, desesperado.
Nessa eu já tô pensando que deu uma boa história, mas peraí que tem mais. Duas quadras pra frente, eu já escrevendo o texto na minha cabeça, escuto:
– “E aí, viadão!? Vaza, sai andando!”
Olhei pro lado e era o fita comendo um pastel no Sato com o amigo dele. “ – Lembra de mim ou não?”, já vindo na minha direção. Parei pra conversar, né? Vai que…
– “Você é viado?”
– Olha, não sou mas…
– “Tem cara!”
– … mas não considero ofensa você achar que eu seja, pra mim é super tranquilo. Tudo certo.
– “Mandou beijo pra mim por quê, então?”
– Porque eu não vou disseminar ódio, não vou te mandar um dedo do meio (nessa ele diz “eu quebraria seu dedo na hora”). Você estava errado, cara. Estava escrito PARE no chão, você deveria ter parado mesmo que não estivesse vindo ninguém, a preferencial não era sua. Imagina se é uma criança distraída…
Eu poderia seguir o diálogo onde ele insiste que sou viado, bicha e etc… e não vou colocar a parte em que eu falei “sua boca está suja de farelo de pastel, cara…”, ele limpou com a mão e tentou jogar em mim, mas o supra sumo é o seguinte:
– “Onde você mora?”
– Na rua aqui de cima, por q…
– “Não! Em que país? Brasil! Ninguém respeita essas leis, não ache que você está certo! Ninguém iria parar ali, nem você!”
CARA. PERAÍ. TEM MAIS. Eu fui tentar argumentar que tá no código de trânsito, que tava ESCRITO PARE E TINHA TARTARUGAS AMARELAS E EU SOU PEDESTRE E TINHA PREFERÊNCIA, aí o cara me abre o bolso da jaqueta
ELE ABRE O BOLSO DA JAQUETA
E TIRA A CARTEIRA
E ABRE A CARTEIRA
E MOSTRA MEIO ESCONDIDO O ESCUDO DA POLÍCIA
E DIZ “EU SOU POLICIAL!!!11!!onze!!”
Seguido de “Pra mim seria mais fácil dar uma cotovelada na sua boca e quebrar todos os seus dentes, seria tão rápido que você não iria nem ver! Mas faz o seguinte, vaza!”
…
– Você tá pedindo ou tá mandando?
– “Tô mandando você vazar, vou contar até três, seu viadinho!” (ele insiste que viado é xingamento)
– Se você pedir com educação eu vou, prometo.
– “UM! DOIS! TRÊS!”
E eu ali, parado na calçada, meu direito. Quieto.
– “Diga que você não vai vazar! Só diga!”
– Amigo, não vou entrar no teu jogo. Você vai me prender? Tô parado aqui na calçada, quando você pedir com educação eu saio.
– “Então… então… ENTÃO FIQUE AÍ FALANDO SOZINHO!”, virou as costas pra mim e saiu voltando pro lugar dele.
Junto mais uma vez as mãos e digo:
– Paz, cara. E um beijo. (Essa parte do beijo eu acho que ele não ouviu.)
Moçada, o mundo tá virado. As pessoas estão violentas com si mesmas, sofrendo muito. Isso extravasa e acaba respingando nos outros. Mas o amor resiste. Tem que resistir.
Por último e mais importante: parem de usar a orientação sexual dos outros como xingamento. E por favor, cuidem uns dos outros no trânsito. Luz e amor. ♡
