Eu não sou um escritor

Uai, mas você não escreveu um livro?
Desde que lancei A Pílula em setembro de 2015, algumas pessoas já me abordaram da seguinte maneira:
“Nossa, eu tenho uma ideia maravilhosa para um livro, vamos sair para tomar um café que eu te conto, você escreve e ganharamos milhões”.
Eu sempre levanto a sobrancelha para esse tipo de abordagem por dois motivos:
MOTIVO 1
As pessoas têm essa ideia presunçosíssima de que a história do livro delas será algo surpreendente e revelador, fantástico, original unânime e inabalável. Quando elas me fizeram essa proposta, chegaram a falar que ficaríamos milionários vendendo os direitos do livro para o Netflix. (Varia entre Netflix, virar filme em Hollywood ou sermos a nova JK Rowling). Estou falando sério e isso já aconteceu três vezes.
Eu acho engraçado (mas não estou condenando) como as pessoas pensam que as históriass que elas têm na cabeça será algo revolucionário. Quase todo mundo pensa isso. Se você tem a ideia e ela persiste na sua cabeça, é claro que você acredita nela, mas isso não quer dizer que o mundo e que os agentes literários e estúdios de cinema irão brigar desesperadamente por sua história.
As pessoas podem ser boas e podem ter histórias boas. Eu amo minhas histórias tanto a de A Pílula, que eu lancei, de Os Provocadores, que tenho disponível na internet, quanto a de Clube da Cerveja que segue sendo escrito lentament. Entretanto eu aprendi que são histórias que a maioria das pessoas não vão nem se interessar por elas e as que se interessarem vão achar no máximo “OK”. Sim, tem gente que chora, que fica empolgada, que me manda uma mensagem gigantesca falando como o meu livro foi maravilhoso para ela, mas isso é 0,000000000000001% das pessoas no mundo. E tem um número bem grande de pessoas que começam a ler, acham uma bosta e largam.
Eu via muito desse pensamento de Escritor Grandioso Não Descoberto no grupo de whatsapp da minha editora. Normalmente as pessoas ficavam falando sozinhas sobre as ideias que elas estão tendo. Era tipo isso:
Autor 1: Nossa, eu tive uma ideia genial para um livro de suspense que estou escrevendo. Vai ser algo meio zumbi, com máfia russia e espiões suecos durante uma perseguição de carros voadores contra contrabandistas de órgãos tailandeses. Sério!!!!! Vai ser muito bom!!!!
Editora: Nossa, que Legal Autor 1, me manda o primeiro capítulo quando estiver pronto.
Autor 1: Mando sim, estou elaborando, pesquisando a história da máfia sueca, porque vai ser muito bom mesmo, vamos ficar ricos kkkkkkk. Se prepara.
Autora 2: Nossa, falando em máfia sueca, eu estou com uma ideia fantástica de um Padre que se apaixona por um demônio feminino que é encontrado em Atlantis enquanto ele fazia uma expedição de catequização de escravos orientais no sul da África. Olha que genial, no meu livro os Africanos que são os escravizadores. Vamos ficar ricos. hahahahahah
Autor 3: Parabéns pela ideia dos negros escravizarem os japoneses, vai ser super #polêmico kkkkkk
Autora 2: Muito obrigada, estou desenvolvendo ainda… As cenas de sexo entre a líder escravocrata que é uma mulher negra com os escravos fortes e musculosos estão um tesão.
Autor 3: (Ignora o comentário sobre as cenas de sexo da autora 2 e aproveita a hashtag, que ele mesmo usou, para falar sobre seu livro) #polêmico também é meu livro em que conto a história de um ex satanista que se apaixona por uma bailarina que durante as madrugadas é uma pixadora.
Autora 4: Ah, eu tenho uma ideia super original também. Uma mulher pobre e feia chamada Molly (normalmente a imagem escolhida para ilustrar essa jovem pobre e feia seria a da Charlize Theron), que muda a vida de um homem lindo, gostoso e magnata da alta sociedade chamado Craig (Henry Cavil ilustrando). Eles iriam só transar, mas se apaixonam, porém ele namora uma mulher que vai fazer de tudo para estragar no relacionamento. E vai ter muitas cenas HOT…
As pessoas apenas soltam resmungos sobre a genialidade dessa história e começam a falar sobre como a suas próprias ideias são geniais. Isso me incomodava um pouco, porque ali era um monte de gente querendo falar e quase ninguém querendo ouvir. Ter uma ideia e escrever um livro é algo que mexe muito com a vaidade das pessoas. Com a minha inclusive. Eu lia tanta coisa que eu achava idiota nesses grupos, que eu me calava. Minhas ideias que acredito que são boas (apenas boas), iriam ser extremamente desrespeitadas ali, assim como eu desrespeitava a da maioria, por isso preferia me manter calado.
Liberar para o mundo uma história que eu criei, foi como se eu ficasse nu durante o inverno e postasse a foto no facebook que todos julgassem. E como eu nunca tive tanta segurança com o que eu crio, eu ficava ao mesmo tempo achando o que escrevia uma bosta ou algo legal e por isso não caía muito nessa síndrome de “oh meu Deus minha história é genial e vou vender para o Netflix fazer uma série por 1 milhão de dólares”.
Enfim, dei muita volta para falar que: a vontade que eu tenho de falar para essas pessoas que querem que eu escreva a história genial delas é que, talvez, a história nem seja tão genial assim. Que é melhor colocar os pés no chão e que não é só porque elas mesmas gostam muito do que criaram (isso é fundamental), quer dizer que o mundo clama por aquilo.
MOTIVO 2
Eu não sou um escritor.
E honestamente eu me sinto mal quando recebo parabéns pelo o dia do escritor. Em 2015, véspera do lançamento de A Pílula, meu facebook bombou de parabéns. Em 2016 foram muitos. Agora em 2017 foram bem poucos. O que foi um alívio.
Escritores são esses caras fodas tipo Milan Kundera, Machado de Assis, J R R Tolkien, Gabriel Garcia Márquez etc… Eu sou um Zé Ruela que em 2009 teve ideia de três livros que seriam escritos por mim, para que eu escapasse da dor que o fim do meu namoro tóxico me proporcionava.
Não tenho técnica, não tenho uma gramática muito boa, tenho problema com regras de regência verbal, às vezes acentuo errado (google pesquisar: às vezes ou as vezes?), tenho um problema sério com vírgulas (aposto que neste texto deixei passar virgulas ou “virgulei” errado).
Sem falsa modéstia alguma, quem sou eu para me considerar um escritor? Seria o mesmo que me considerarem um maratonista porque corro no taquaral duas vezes por mês.
Além disso, o meu ponto menos fraco nos meus livros são minhas histórias. Logo, quando alguém chega em mim e fala “Ow, tenho uma ideia maravilhosa para você escrever” a pessoa não leu nada que escrevi e acha que pelo o fato de eu ter lançado um livro numa editora muito pequena (que eu descobri depois que nem leu meu rascunho para saber se eles tinham algo bom ou um lixo nas mãos antes de publicar), que eu sou a pessoa perfeita para transformar a ideia maravilhosa (caso ela realmente seja) em algo mais espetacular.
Sinto muito, mas não sou a pessoa certa para isso. Eu sou ruim mesmo. Sei só contar as histórias que vieram à minha cabeça.
Se nem Clube da Cerveja que é um livro que eu gosto e acredito nele (não acredito nível: vou vender em mais 119 países, mas acredito nível: eu não vou ter vergonha dessa história quando ela ficar pronta) estou conseguindo desenvolver, como eu vou desenvolver a história de alguém se ela for realmente boa? Mais fácil eu estragar tudo.
===================== Fim dos motivos ======================
E você pode se perguntar o porquê eu escrevo se não sou bom para isso. Minha resposta é que escrever é algo que acho maravilhoso (tenho até uma pena tatuada por isso), melhor forma de terapia, tanto quando falo sobre mim aqui no Medium, ou quando estou contando a história de vida do Cássio, do Michel ou da Lara M.. Mas isso é um escapismo, um hobby de fim de semana. Eu não vou republicar A Pílula, (mais sobre o quão foi uma experiência ruim o dia que lancei o livro neste texto aqui). Eu não vou editar e revisar Os Provocadores. Entretanto, algum dia vou terminar Clube da Cerveja e começar 29 de Fevereiro, mas são apenas historinhas que gosto de contar quando a minha própria história se torna muito pesada e preciso fugir dela.
