Sequelas de uma paixão adolescente

Veneceos
Veneceos
Jul 20, 2017 · 10 min read

Eu me descobri como gay em 1998, na quinta série, quando percebi que estava apaixonado pelo Igor, um colega de sala. Eu era um menino de 11 anos de idade que estava perdidamente apaixonado pelo CDF da turma que sentava ao meu lado. Naquela época, eu não tinha muitas referências para me espelhar, como os jovens têm hoje. O primeiro gay que “conheci” foi o Jack McPhee em 2001 (quer dizer, haviam aqueles gays nas novelas esteriotipados e os meninos que sofriam bullying na escola, mas naquela época eu não me identificava com eles). Logo, tendo zero referências e me achando o único gay não afeminado no mundo, me sentia completamente sozinho e, como consequência disso, me apaixonava pelos meus “iguais”, os colegas heteros.

Depois do Igor me apaixonei, ao mesmo tempo pelo Vinicius e pelo Bruno (que dá até um texto bem legal sobre isso, talvez eu até conte esta história aqui), me reapaixonei pelo Igor, tive outros pequenos crushes até chegar ao Felipe em 2002.

Quando eu estava com 15 anos, comecei a estudar num Colégio particular chamado Fonseca Rodrigues, conhecido como Fo-Ro, e no primeiro ano colegial foi nos dada a oportunidade de escolher qual sala ficar. A diretora chegou e disse que quem sentasse nas cadeiras da direita seriam de uma turma e quem sentasse nas cadeiras da esquerda seriam de outra. Eu escolhi as cadeiras onde estavam os alunos novatos, do outro lado sentaram as pessoas que já estudavam lá, as panelinhas que já estavam formadas.

Ter escolhido ir para as cadeiras da esquerda com os novatos, me fez apaixonar por um menino que estava ali e como consequência moldei algumas características fortes minhas ao longo de nossa convivência. Eu acho.

Lembro que em abril daquele ano eu me descobri apaixonado pelo Felipe e, nossa, que sensação maravilhosa estar apaixonado por alguém. Eu estava realmente gostando de outro cara depois do Igor e eu pensava que isso nunca aconteceria.

Lembro do exato momento que descobri que gostava muito dele. Foi em um recreio em que eu estava sentado em umas escadas com umas colegas de sala, ele se aproximou e me ofereceu uma mordida do pastel dele. Eu neguei, ele continuou subindo, mas enquanto via aquele menino de 14 anos subindo as escadas, eu descobri que gostava dele muito mais do que como um amigo.

A gente foi muito próximo no primeiro ano, ele se sentava na minha frente ou do meu lado e passávamos boa parte do dia conversando, rindo, chamando um ao outro. Os professores nos odiavam e sempre que iam trocar os alunos de lugar, era eu para um lado e o Felipe para outro. Mas com o tempo a gente voltava a se aproximar na sala.

Uma vez fomos passar uma tarde em um sítio e em certo momento da noite estávamos ele e eu em uma rodinha de conversa e a professora de Biologia (que me odiava) disse: “eu nunca vi um amor como o Felipe tem pelo Vinicius”. Claro que eu disfarcei na hora e falei “ah nada a ver”, mas explodi de alegria naquele momento, mesmo eu tendo consciência que era o contrário.

Éramos uma dupla, viramos um trio e seguimos bem até o final do primeiro ano. Tenho poucas lembranças do período das ferias, apenas me lembro que eu dava uns rolês de bicicleta pela cidade e passava em alguns pontos estratégicos: em frente à casa da avó dele; em frente à sorveteria que ele curtia ir; e em lugares que os adolescentes de 15 anos passeiam em Patos nas férias. Lembro que as duas vezes que o vi “aleatoriamente” nesses meus passeios meu coração disparava, eu tremia o gritava “Fala Feliiiiiiiiiipe” ele respondia “Oh Viniiiiiiiiiiiicius” e eu seguia em frente.

Com a mudança de ano, algumas coisas mudaram, não estávamos mais um do lado do outro na sala, mas sempre conversávamos, nos chamávamos aleatoriamente durante a aula, ele me tacava alguma bolinha de papel e eu devolvia etc…

Mais ou menos em maio do segundo ano ele mudou de colégio, porque foi suspenso injustamente por estar no lugar errado e na hora errada. Ele ficou puto e saiu do Fo-Ro. Fiquei arrasado com a saída dele do colégio, mas algumas semanas após me acostumar com a nova situação, me senti aliviado. Por tudo que conviver com ele no recreio e em sala de aula me causava.

A partir daí, o via aleatoriamente pela cidade, lembro que contava os dias que não o via. Eram 38 dias sem vê-lo e o encontrava aleatoriamente no shopping quando ia jogar sinuca com meu amigo tailândes. Mais 64 dias sem vê-lo quando ouço alguém me gritando no centro da cidade etc…

E não me perguntem porque eu não ligava para ele ou o procurava, eu simplesmente não fazia isso, talvez por falta de coragem.

Fiquei nessa até o início de 2004 quando, já com 17 anos, troquei de colégio e voltamos a ser colegas de sala.

Foi engraçado nosso reencontro. Na aula de inglês, sentei-me atrás dele, conversamos por alguns momentos como nos velhos tempos. Foi leve, foi divertido, mas ali percebi que eu não estava mais apaixonado. Não havia mais expectativa, não havia mais frustração, eu não cobrava internamente que ele me desse atenção, se ele fosse embora sem se despedir ou se sentasse longe na sala eu já não ficava mais chateado. Eram quase dois anos em uma paixão em que eu fiquei escondendo um sentimento muito forte por alguém que não podia corresponder e foi maravilhoso me ver livre daquele sentimento.

Minha amizade com o Felipe no terceiro ano, para mim, foi a melhor “fase” que tive com ele. A gente já não vivia grudado como no primeiro ano, mas isso não me frustrava. Ele foi a segunda pessoa que contei que era gay e a reação foi bem natural para um cara hétero de 17 anos em 2004. E essa paixão pelo Felipe foi um bom preparo para a paixão que eu teria logo após ele, porque essa sim me fez sofrer para caralho. Já falei dela aqui .

Tá bom, mas onde essa paixão de colegial te mudou tanto que você disse no início do texto, Vinicius?

Eu quis primeiro explicar a “estrutura” da minha história de via de mão única para contar o que acontecia dentro de mim nesse período e como isso pode ter me transformado.

Quando eu era adolescente acho que eu estava “moldando” minha personalidade e eu peguei algumas coisas dos caras que fui muito apaixonado. A minha letra da quinta à oitava série, era meio que uma cópia da letra do Igor, o carinha que eu fui apaixonado no despertar da minha sexualidade. Eu achava a letra dele muito legal (tombada para frente), e eu meio que me acostumei a escrever igual. Minha letra foi assim até a oitava série (época que eu finalmente me vi “livre” daquela paixão de vez), quando eu acho que ela tomou personalidade própria e virou a coisa horrorosa que é hoje.

Acho que o Felipe teve um efeito muito maior na construção da minha personalidade.

Talvez eu sou o que sou hoje como consequência do que vivi naquela época, mas talvez não, eu nunca saberei. Eu não consigo imaginar como seria minha vida se eu não tivesse gostado de alguém com a personalidade dele e não tivesse criado os mecanismos de defesa que eu criei pelo o que passei. Talvez hoje eu seria outra pessoa completamente diferente e não estaria vivendo os problemas que estou vivendo hoje. Mas isso é tudo mera especulação também.

Eu gostava muito do Felipe e eu sonhava que um dia ele dissesse que era apaixonado por mim e que sofria escondido assim como eu. Mas como eu não tinha isso, me bastava ser o “melhor amigo” dele na sala de aula, isso se eu realmente fosse. Havia frustração minha com ele em quase tudo: nos dias que ele dava mais atenção para outra pessoa, nos dias que ele andava com outros, nos dias que ele não ficava conversando comigo no recreio… Eu tentava não cobrar nada, apenas sofria calado e fingia que nada estava acontecendo, porque eu não me achava no direito de sair exigindo atenção integral de alguém que me via como amigo, mas, para compensar isso, fui criando barreiras ao longo dos meses que convivemos.

O Felipe era extremamente inquieto e gostava de participar de muitas rodinhas no recreio ou em horários vagos. Eu normalmente era o cara que ficava em um lugar só, conversando de boa. As coisas funcionavam mais ou menos assim: Eu estava em uma roda de conversa e às vezes o Felipe parava lá naquela roda, conversava comigo e com quem estava comigo e se o assunto fosse chato ou desinteressante para ele, ele se levantava e ia para outro lugar. Ou até mesmo quando a gente estava conversando sozinho no recreio, se o assunto acabava, nos segundos de silêncio antes de começar alguma outra coisa, ele voava para outro grupo mais animado. Então eu senti que precisava ser interessante ou que o assunto estivesse interessante o tempo todo para “segurar a audiência”, mas isso não era possível, nem sempre dava para estar em um assunto interessante, e era cansativo demais me sujeitar a isso. Então comecei a criar meus mecanismos de defesa.

Eu passei a ser um cara que ficava indo para lá e para cá no recreio, eu parei de ficar esperando ele chegar nas rodas de conversa, eu passei a ir atrás das rodas de conversa e ia aonde estava mais interessante. Se a gente conversava sozinho e o assunto acabava, antes dele sair de perto, eu saía. Eu não estava parado em um grupo de amigos esperando ele chegar perto, torcendo para ele ficar lá do meu lado, e me sentir vulnerável quando ele saísse. Eu passei a sair dos grupos antes que ele, passei a ser um cara “independente”.

Teve uma festa no primeiro ou no segundo que ele foi sozinho e lá ele ficou transitando entre as turmas… eu achei o máximo, eu senti a liberdade que ele sentia naquela festa e quis ter aquilo para mim. E passei a fazer isso, comecei a ir para o Social sozinho e encontrava meus amigos lá, mas como não fui com meus amigos, eu tinha a liberdade de ficar com outros amigos também e ir embora a hora que eu quisesse. De repente, eu vi que o estilo de vida dele era mais libertador, mais desapegado e menos frágil. Se antes eu tinha que disfarçar que eu ficava chateado porque eu não conseguia mais mantê-lo ao meu lado durante todo o recreio, eu continuava chateado, mas eu não era o carinha que ficava lá sentado esperando a boa vontade dele voltar lá para conversar comigo, passei a ter distrações melhores.

Saindo do microcosmos do recreio do colegial, eu passei a fazer isso na vida. Eu não fiquei mais em uma turma apenas, eu passei a me encher de amigos, de turmas e de possibilidades. Se por acaso alguém não me chamasse para sair, ou se alguém não quisesse fazer nada legal, eu tinha mais amigos e mais opções. Era maravilhoso ir para o Social, ou para a Hi-Point até mesmo para o Finningans em Patos e poder escolher em qual grupo ficar, ou qual grupo sair. Eu sempre tinha possibilidades. E se eu quisesse ir embora do nada às 2h38, dava um “tchau” e chamava o mototaxi.

Talvez por ter passado a vida inteira escondendo meus sentimentos, sofrendo por ser algo que não podia falar para ninguém, eu me acostumei a me fechar e não precisar me abrir para as pessoas. Não costumo demonstrar vulnerabilidade, pelo menos para as pessoas que estão ao meu redor (isso não se aplica aos namorados). Só que é complicado não demonstrar vulnerabilidade quando ando muito com as mesmas pessoas sempre. Mesmo depois de assumido eu ainda faço isso e andar com vários grupos diferentes me ajuda muito nisso, porque quando vejo que posso estar à vontade para me “quebrar” e me expor, eu corro para outro pessoal e fico aparentemente bem. E tudo isso eu descobri, porque passei a reagir dessa maneira com as frustrações que sentia por gostar de um cara extremamente inquieto.

Quando ainda morava em Patos, viver nessa situação de fazer muitos amigos e participar de muitas turmas, era algo extremamente confortável. Tinha meus vizinhos, o povo da escola, da faculdade, do basquete, minha turma de amigos héteros autointitulada como “malandragem”. Enfim… e aí fui para Campinas.

Aqui eu cheguei e comecei a namorar, então só fui efetivamente começar a fazer amigos quase dois anos após minha mudança, quando fiquei solteiro. E estava lá eu fazendo amizades em diversas turmas como fazia nos últimos anos e fui bem assim até pouco tempo. O problema de participar de muitas turmas de amigos aqui é que você figura em muitas, mas não faz parte de nenhuma. Com o passar dos anos as pessoas se mudam, escolhem lados ou começam a namorar e somem. Enfim.

Em outubro do ano passado aconteceu um lance muito traumático comigo e um dos motivos disso foi justamente eu ser como eu sou e ter essa característica independente ou egoísta. Eu nem culpo as pessoas envolvidas, porque é apenas uma resposta natural com a maneira que sou e levo minhas amizades e colegas. Só que eu fiquei tão mal, sem saber que estava mal, que eu acabei afastando meu melhor amigo, foi bizarro. Sei que entrei numa bad tão grande que acabei prejudicando um pouco meu namoro também, porque eu tava muito mal, não sabia explicar o porquê e eu namorei um cara que não conseguia lidar com alguém que não estava bem. (Não quero falar exatamente o que aconteceu porque tem gente envolvida que lê meus textos e não quero ficar dando explicações nem que elas se sintam culpadas).

Enfim, neste último final de semana me encontrei em uma outra situação surreal, quando me vi na situação, além de me sentir um peixe fora d’água, fiquei me perguntando onde foi que eu errei. O que eu fiz para minha vida virar aquela piada estúpida em que eu era “visita” em um lugar que já foi “a minha própria casa”. Tentei buscar na mente explicações, porque eu estava mal para caralho com aquilo e como eu deixei minha vida chegar nessa tipo de situação. E fui puxando na mente o padrão do meu comportamento até chegar em 2002 e em como passei a levar a vida após lidar com as frustrações em relação ao Felipe.

Fico pensando se eu tivesse escolhido ir para as cadeiras do lado direito e fosse para a outra turma do primeiro ano do Fo-Ro. Será que eu me apaixonaria por outra pessoa? E se essa pessoa fosse mais tranquila e se nos tornássemos amigos e, ao contrário do Felipe, ele fosse uma pessoa mais calma e que apreciaria passar o recreio todo de boa conversando comigo. Será que eu desenvolveria essa atitude independentezona que tenho hoje? Eu nunca saberei. Talvez isso faça parte da minha natureza e eu apenas a desenvolvi em 2002, quem sabe se eu tivesse uma vida diferente eu poderia acabar me tornando a mesma pessoa que sou hoje, porém o que despertaria esse traço da minha personalidade poderia ser algo que aconteceria comigo em 2013, por exemplo.

Só sei que após o Igor minha letra voltou a ter a minha personalidade e 13 anos após não estar apaixonado pelo Felipe eu ainda sou a mesma pessoa que desenvolvi ser, pós os quase dois anos apaixonado por ele.

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Sou menos negativo e depressivo pessoalmente do que posso parecer nos textos escritos por mim

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