Venâncio Cruz
Sep 3, 2018 · 4 min read

Para meu povo, pelo meu povo

“I come here to talk about how i feel.
And I feel like that we are treated differently than other people.
And I don’t like how we are treated just because of our color, doesn’t
mean anything to me.”

“Eu vim aqui para dizer como eu me sinto.
E eu sinto que nós somos tratados diferentes das outras pessoas.
E eu não gosto como somos tratados só por causa da nossa cor, isso não significa nada para mim.”

Assim, na voz de uma garotinha que não saiu da minha cabeça começa Temptation, o último álbum de Joey Badass que não sai da minha cabeça há 1 ano.

Eu estou acostumado com as alegorias do rap, e como letras envoltas em eventos banais, violência, histórias de amor ou até mesmo ostentação são alegorias para expressões mais profundas de política, afetividade, paternidade, ou qualquer outra expressão do espectro sentimental. Um homem negro não pode arriscar se expressar diretamente e falar como esta sentindo sem parecer fraco, por isso as alegorias do rap. Em cada letra esta escondida uma dor, uma revolta ou uma tristeza. Mas Joey não se importou com as alegorias, ele simplesmente as jogou em cima da mesa, e foi esse fator que me agarrou no álbum dele, ele era um negro sem medo das suas feridas, e qualquer um que estava escutando ele podia ser também.

A primeira música de Temptation que escutei foi ‘for my people’, e ela foi subversiva, não de uma forma transcendental nem futurista, mas de uma forma real e humana e extremamente atual, é impossível escutar For my people sem se sentir abraçado por ele, e essa é a parte subversiva do álbum, o sentimento de acolhimento não só de uma pessoa para outra, mas como comunidade. Todo aquele sentimento de querer mudar as coisas para melhorar que nós vamos perdendo com o afastamento da infância e a realidade cruel do mundo. Toda criança negra já quis ser o herói do próprio povo, e Joey nos lembrou disso, não de forma nostálgica, mas de forma que nós conseguimos entender que essa criança não estava errada, nós que abandonamos isso que estamos.

“Y U DON’T LOVE ME?” é a música mais genial do álbum. O que começa com uma música que parece ser só uma balada de amor não correspondido que constantemente os rappers colocam em seus álbuns para tornar um “álbum de mensagem” mais popular para quem não quer sabe de mensagem alguma revela-se como um desabafo, não a uma mulher, mais a sociedade americana, e pergunta todos os porquês que hoje, mesmo adultos, nós não conseguimos entender lidar ou entender.

“Tell me why don’t love me
Why you always misjudge me?
Why you always put so many things above me?
Why you lead me to believe that I’m ugly?
Why you never trust me?
Why you treat me like I don’t matter?

Why you always kicking my ladder?
Why you never hearing my side to the story?
Never look me in my eyes, say sorry?”

Por séculos mortos, por séculos humilhados, e por séculos deprimidos. Estamos no século 21, e nós sabemos que não é só o estado que nos mata, não são só tiros que tiram nossas vidas, mas as vezes nós mesmos. A depressão esta nos matando mais que a bala, e a parte mais trágica disto é que toda a nossa cultura de não demonstrar emoção ou dor para não parecer fraco torna impossível para nós buscarmos ajuda. Como vamos buscar ajuda para algo que não admitimos que existe?

Isso não só nos agride como pessoas, mas também destrói nossos relacionamentos, traumatiza nossos filhos e magoa nossas mulheres. Nosso genocídio não é só à bala, não mais. Existem prisões fundamentais aos negros; a proibição de expressar os próprios sentimentos é uma delas.

Esse texto não é uma resenha, até porque já esta muito tarde para fazer isso, mas uma lembrança de que nós nunca vamos conseguir mudar o que quer que seja, qualquer dor que seja, que qualquer agressão pare se nós não admitirmos que ela exista. Por mais que essa negação de admitir a realidade venha do medo de parecer fraco. Nós, por séculos fomos obrigados a reprimir nossos sentimentos por questão de sobrevivência, porque parecer fraco nesse mundo era o mesmo que parecer uma presa fácil. Não só fizemos isso com nós mesmos como fizemos com nossos filhos e netos. Nós crescemos sabendo que tinha algo de errado, mas com o tempo reprimimos isso, às vezes não só para não parecer fraco, mas por própria negação, ou as vezes o nosso próprio orgulho não nos permitia dar o prazer a eles de saber que estavam nos machucando.

We are black people and we shouldn’t have to feel like this
We shouldn’t have to protest because you are treating us wrong
We do this because we need to and we have rights.”

Nós somos pessoas negras e não devemos ter que nos sentir assim.
Nós não devemos ter que protestar porque está nos tratando de maneira errada. Fazemos isso porque nós precisamos e temos diretos.”

Tomei a liberdade de usar a voz trêmula e chorosa da garotinha no final da música como meu hino. Nós podemos não resolver tudo isso sozinhos, mas ao menos vamos estar aptos a preparar a próxima geração pra isso.

Para nós negros, sentir é um ato político.

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