Uma celebração do público

Dia desses postei numa rede social um comentário sobre a descoberta de um sistema de exoplanetas orbitando uma estrela anã. Era o dia do anúncio oficial da NASA, e eu estava empolgada. Uma amiga veio comentar sobre meu interesse persistente no tema, alegando que o primeiro livro que emprestei a ela foi justamente sobre astronomia. Isso aconteceu há uns 15 anos, e eu não guardo qualquer memória sobre o empréstimo, mas imagino que deve ter sido algo do Carl Sagan ou do Marcelo Gleiser; dois autores que eu lia vorazmente no Ensino Médio.

Desde então fiquei pensando nas associações que fazemos a respeito das pessoas. Em especial, é claro, as que são ligadas a livros, que sempre foram minha forma favorita de entretenimento, informação e fruição artística. Obras de arte (ou mesmo interesses por certos campos de conhecimento) podem nos acompanhar vida afora; atribuímos a eles significados diversos ao longo dos anos, ou talvez sejam eles que nos modificam, conforme vamos amadurecendo e nos aprofundando no que nos toca. Não importa. De nossa relação simbiótica com linguagens e sensações conseguimos interpretar muito do que somos — ou almejamos nos tornar. No meu caso, para resumir: porque gosto de livros, gosto de medir a vida em livros, e nas relações que estabeleço com outras pessoas por causa deles.

Eu jamais poderia imaginar essa ligação inusitada com uma disciplina na qual eu não sou mais do que uma curiosa com boa vontade, mas pouca predisposição aos números. Mas fico retroativamente feliz por me descobrir uma adolescente que compartilhava paixões com pessoas que eram importantes para mim na escola.

No entanto, lembro muito bem dos livros que me foram dados ou emprestados, e que mudaram a minha vida. Sei exatamente quais foram as pessoas que me introduziram aos meus autores favoritos — várias delas nem fazem mais parte do meu convívio, mas deixaram companheiros que, suspeito, não vão a lugar nenhum enquanto eu tiver forças para ler, e reler.

Jorge Luís Borges escreveu: "Quero ser lembrado menos como poeta que como amigo; que alguém repita uma cadência de Dunbar ou de Frost ou do homem que viu à meia noite a árvore que sangra, a Cruz, e pense que pela primeira vez a ouviu dos meus lábios. O restante não importa; espero que o esquecimento não demore."* Na mesma linha: eu não sei — não tenho como saber, e não estou de fato interessada nisso — se algo que eu produzo é relevante. Mas gosto (e gostaria) de ser lembrada pelos livros que indiquei. Pela prosa de um autor que eu achei que era a cara de um amigo; pelos textos que eu precisava dividir com minhas turmas, mesmo que fugissem ao conteúdo programático; pelos versos escritos séculos atrás, mas que um dia eu dediquei a um amor que também já morreu, como morrem todas as coisas.

Em uma cultura que preza tanto o protagonismo, produzindo e reproduzindo discursos esvaziados de sentido sobre “fazer a diferença”, é preciso ressaltar o valor de ouvir, ler, compartilhar, elaborar e crescer a partir do que vem do outro. Quantas vezes não ficamos com a sensação de que há mais escritores do que leitores, artistas do que público, pensadores do que pensamento e DJs — meu deus, sobretudo os DJs! — do que pessoas dispostas a dançar. É por isso que reitero, marco minha posição e, sobretudo, celebro os leitores, os ouvintes, os espectadores e os dançarinos. O que parece recepção passiva é, na verdade, cocriação. Nós somos responsáveis por manter aquilo que amamos vivo.

___________________________________________________________________

— A ideia para este texto surgiu da leitura da newsletter da Stephanie: não só porque ela foi gentil o suficiente ao citar um texto meu, mas principalmente porque me associou a Jane Eyre ao fazê-lo (aliás, leiam o texto dela sobre Charlotte Brontë aqui no Medium). Eu não consigo pensar em nada que me deixe mais contente.

*BORGES, Jorge Luis. "Uma oração". Trad. de Carlos Nejar e Alfredo Jacques In: Elogio da Sombra — Obras Completas, Tomo II. Rio de Janeiro: Editora Globo, 1999. (p.416)

___________________________________________________________________

Like what you read? Give Gabriela Ventura a round of applause.

From a quick cheer to a standing ovation, clap to show how much you enjoyed this story.