Crítica | Sharp Objects

Com direção e atuações que beiram à perfeição, a minissérie promete dominar as grandes premiações em 2019

A série traz Amy Adams como a jornalista Camille Preaker

No último dia 28, a HBO finalizou Sharp Objects — Objetos Cortantes, em português — e provou que ainda tem (muito) fôlego para produzir séries de qualidade. Assim como Game of Thrones (2011), Big Little Lies (2017) e Westworld (2016), a série promete ser mais um título da emissora a dominar as premiações e de forma merecida.

Sharp Objects é uma adaptação do livro homônimo de Gillian Flynn, mesma escritora do sensacional Garota Exemplar, que virou filme em 2014 com Ben Affleck, Rosamund Pike e Neil Patrick Harris no elenco. Em apenas 8 episódios, a minissérie prende a atenção (e a respiração) do espectador com um suspense muito bem executado e que foge do ordinário.

Como todo clássico de trama criminal, Sharp Objects nos apresenta o crime e um leque de possibilidades para solução do caso. Mas isso é apenas a ponta do iceberg — a série é muito mais profunda do que isso.

A história começa com a volta da jornalista Camille Preaker (Amy Adams) à pequena cidade de Wind Gap, no Missouri, onde foi criada, para cobrir os recentes assassinatos de duas adolescentes. Lá, a personagem é tomada pela angústia ao reencontrar pessoas e lugares que fizeram parte de sua vida e que ela tanto queria deixar para trás.

A cidade é uma parte crucial da trama, se tornando quase uma personagem. Através de Wind Gap, é possível entender as pessoas que vivem nela, suas rotinas, preconceitos velados e seus segredos. E é nesse cenário que começamos a conhecer o universo de Camille, que é levada a dolorosos flashbacks ao ver cada ruela da cidade.

Sempre bêbada, a repórter é atormentada pela misteriosa morte da irmã mais nova, Marian (Lulu Wilson), e pelo tóxico relacionamento com a mãe, Adora Crellin (Patricia Clarkson). Ao longo dos episódios, a vida familiar de Camille é bastante explorada, principalmente quando ela conhece a excêntrica Amma (Eliza Scanlen), filha adolescente de Adora e Alan Crellin (Henry Czerny).

O contato com Amma faz com Camille sinta afeto pela meia-irmã e vontade de protegê-la, ao mesmo tempo que as memórias de sua infância ao lado de Marian se tornam mais vívidas e angustiantes. O encontro também evidencia como as filhas são tratadas de formas diferentes por Adora, que deixa claro seu amor por Marian e Amma, enquanto dispara rancor e ódio para Camille.

Alan (Henry Czerny), Adora (Patricia Clarkson), Amma (Eliza Scanlen) e Camille (Amy Adams)

Isso serve para desconstruir a ideia utópica da relação mãe e filha, e a série trabalha nisso muito bem, mostrando que relacionamentos tóxicos existem dentro de uma família e como isso pode afetar o psicológico de alguém. A automutilação e bebedeira de Camille são apenas exemplos disso.

A série também fala sobre incompetência policial, mostrando as teorias mal fundamentadas dos detetives envolvidos no caso. Devido à falta de evidências, eles ficam presos na ideia de que o assassino foi um homem, pois acham que uma mulher não teria a força necessária para a brutalidade dos assassinatos. Isso leva o espectador a outro assunto: sexismo.

O tema fica ainda mais evidente quando Preaker reencontra algumas colegas da escola. Casadas e com filhos, elas condenam as mulheres que trabalham e que ainda não formaram uma “família”.

Sem personagens doces, clichês e fáceis de amar, Sharp Objects lida com o protagonismo feminino de forma sutil e inteligente. Desde o início, é possível perceber como a série aborda diferentes mulheres: Camille é independente e acredita que não vive para agradar ninguém; Adora acredita que uma mulher deve ser o que a sociedade quer que ela seja; e Amma, que, apesar de forte e independente, muitas vezes finge fragilidade para conseguir o que quer.

Sharp Objects também não deixa a desejar em questões técnicas e se torna ainda mais próxima da perfeição devido a direção de Jean-Marc Vallée, que também fez um trabalho impecável na renomada Big Little Lies. Com ajuda de uma bela cinematografia e montagem, o diretor constrói tão bem a trama que cada momento é crucial para o entendimento do plot final, mesmo quando parece que os episódios intermediários estão monótonos e empacados.

As atuações de Clarkson, Scanlen e Adams são o tripé da série

A atuação do elenco também é um fator exponencial para a excelência da minissérie. Apesar de não ser reconhecida como merece pela Academia, Amy Adams já provou o seu talento em diferentes filmes ao longo de sua carreira, como os recentes A Chegada (2016) e Animais Noturnos (2016). Como Camille Preaker não seria diferente. A atriz se entregou totalmente à personagem, que é, sem dúvidas, a mais complexa que ela já interpretou.

Acompanhando Adams, Patricia Clarkson também brilha na série, provando porque conta com dois Emmys e uma indicação ao Oscar em seu currículo. A novidade, porém, é Eliza Scanlen. Com apenas 19 anos, a atriz transmite a excentricidade que beira à psicopatia de Amma Crellin com simples olhares. Sua capacidade de transitar entre a exaltação e o sossego é espantoso, fazendo com que Scanlen seja uma das grandes revelações da TV deste ano.

Mesmo deixando algumas perguntas sem respostas, a série consegue ter um final interessante e digno de seu título — cortante! Combinando todos esses fatores, é quase impossível imaginar a temporada de premiações de 2019 sem Sharp Objects dominando as categorias de minisséries, como Big Little Lies o fez no ano passado.