A menina que virou árvore

Minha bisavó contava a história de uma menininha que caiu no poço desativado que havia nos fundos da casa onde morava. A família dessa menininha tinha várias outras crianças, por isso ninguém deu por falta dela. Por mais que berrasse, chorasse e batesse nas paredes do poço, nada mudava, ninguém notava. Desesperada, a garotinha tentou escalar as paredes diversas vezes, mas sempre caía e isso foi deixando-a extremamente cansada. 7 dias se passaram e ela conseguiu sobreviver graças ao restinho de água que havia ali no fundo, mas até isso acabou. Ela não tinha mais forças e suas mãos e pés estavam machucados de tantas tentativas frustradas de subir. Foi então que aceitou. Aceitou que não conseguia, aceitou que ninguém a ouviria, aceitou que morreria ali, sozinha, no fundo do poço. Quanto mais aceitava a sua situação, mais se encolhia em si mesma e mais se aproximava do chão. Quanto mais isso acontecia, mais ela se aproximava também de si mesma, de tudo aquilo que estava mais escondido dentro dela. Foi encolhendo mais, ficando pequenininha, cada vez menor. Até que virou uma sementinha. Dessas sementes que a gente olha e não sabe o que vai se tornar. A sementinha foi então se acomodando humildemente naquele solo, até se cobrir inteira de terra úmida. Alguns dias se passaram, e ali, no fundo daquele poço desativado a magia da vida aconteceu: a sementinha brotou! E como doía. “Doía?” — eu indagava minha bisavó sempre que chegava nessa parte. E pacientemente ela continuava: Sim, doía. Não ache que é fácil romper sua casca e deixar nascer aquilo que está dentro de nós. É um processo doloroso para a sementinha sair do adormecimento e buscar a luz do sol. Os dias foram passando e a plantinha foi crescendo, crescendo, crescendo. Suas raízes foram se fincando e se aprofundando cada vez mais e seu tronco se erguendo majestosamente. Já não se lamentava mais a cada folha que nascia, apenas sentia a dor e a alegria de ter mais uma folha. Já não temia o que poderia absorver daquele solo pelas suas raízes, apenas sentia a dor e a alegria de ter os nutrientes necessários ao seu crescimento. E assim, cresceu até passar do poço e continuava crescendo. A garotinha medrosa que caiu no poço havia se tornado a mais frondosa árvore de sua fruta favorita.
