Crônicas de Sapatão na mesa de bar: sobre se pegar em festas da PUCCAMP (Sol em Escorpião)

Festas, bebedeiras e cachaçadas em pleno centro da cidade de Campinas. A ocupação festiva da Av. Marechal Deodoro 1099, centro, pelos estudantes da PUCCAMP sem restrições de participação, faz parte da cultura e da tradição da FADI.

O ano era 2008. Foi nesse ano que me assumi de forma mais irreversível não só no meu intimo, mas para todos os outros também. Sai de uma cidade pequena do oeste paulista para fazer faculdade, a cidade grande inspirava a liberdade de expressão, queria ser quem eu sou, ficar com quem eu gosto e não precisar me esconder com medo do julgamento das pessoas. Campinas parecia o lugar ideal, os boatos da água deixar as pessoas viadas muito me animavam.

Para a minha desilusão, eu não tinha encontrado nenhum veterano realmente assumido no meu primeiro ano. Nem sapatão e nem viado botava muito a cara no sol, nem rolava umas DR no meio do pátio, nas festas sempre um monte de macho enchendo o saco e não sabendo ouvir não, ninguém levantava discussão sobre homofobia, ou sobre aquela pressão horrível que esmaga a gente ao impor um padrão que deve ser seguido e desconsiderando nossa subjetividade.

Foi no meu primeiro Bota Fora que vivenciei essa opressão de uma forma bem latente.

Na época, eu ficava com a Raquel, ela morava comigo num pensionato de freiras no Cambuí. Arrastei ela pra festinha, eu já tinha ido pro Bota Fora do matutino e fiquei encantada com aquela bagunça — naturalmente fui encher a cara e depois sem a menor cara de pau entrar na sala de aula pra pegar meu material e ir embora.(rs)

Chegamos lá, avistei minha galera no rolê, começamos a beber umas e a conversar. Em determinado momento, comecei a beijar a Raquel (a mulhé tava comigo né gente, precisava aproveitar rs). De repente, percebi em volta da gente um semi circulo de homens babantes, se comportavam como hienas. Nos viam como pornografia, simples objetos de seus fetiches, e em grupo se sentiam confortáveis em se meter onde não eram convidados. (Homem hetero é um bicho estranho, sempre acham que tem o direito sobre o mundo e piram quando percebem que não são o centro da humanidade).

Por sorte, e muita insistência (rs), eu tinha o Lucas na minha vida, bicha muito afrontosa do meu ano que começou a causar logo no primeiro dia de aula. Ele também estava com alguém nessa festa, se não me engano era um boy do 4º ou 5º ano que não queria expor seu afeto para os puccampers festivos. Assim que ele percebeu os homens hienas se aproximando de mim e da Raquel, deu aquele beijão delicia no peguete, uns agarro muito forte, e nos puxou pra perto dele. Ficamos lá, juntos e resistindo.

Com um simples ato ele quebrou a vibe de “olha lá lésbicas se pegando,que delicia!” para “ew, viados”. Os caras que estavam em volta se afastaram, deixaram nosso pequeno bloquinho GLS em paz (sim gente, na época ainda era GLS). Ficamos no nosso canto, festejando, se beijando e não sendo invisíveis.

Tentei o máximo possível pra não ser invisível durante o curso de direito, o desejo de ser eu mesma não se continha dentro de mim. Demos a cara a tapa, apesar das risadinhas, dos deboches, das agressões verbais, dos olhares tortos. O meu maior orgulho quando sai da faculdade foi ver ver aquele monte de viado e sapatão se assumindo e existindo juntos. Pouco a pouco conquistamos nosso espaço. Nossa bandeira de arco íris feita de pano tnt e grampos ficava muito linda pendurado na grade do Pátio dos Leões. Muito amor pelos meus bixos que mantiveram a tradição de não se resignar a invisibilidade que tentam impor à nossa comunidade.

Nesse ano de 2018, estava eu conversando com alunos da Faculdade de Direito da UFAM quando um deles solta: “ Mal comecei a me rasgar todinho na viadagem e agora vou ter que me esconder pra não apanhar”. Como aquilo me doeu. Nós existimos e vamos continuar resistindo, lutar para garantir nosso direitos, nossa existência e nossa expressão.

Dedico esse texto ao Lucas Del Vecchio, um dos grandes amores da minha vida viada. Sinto sua falta sempre, das conversas, das loucuras, das bebedeiras e de vc me aguentar falando “relaxa amorzinho”. Amo a forma como você ajudou na construção de mim mesma e tenho muito orgulho por ter você na minha vida e por ter feito parte da sua. Não se esqueça de me visitar em Manaus seu puto!