Com a vida garantida, geração X não tem empatia pela geração Y

A geração Y cresceu com vontade de trabalhar, de fazer o seu ganha pão cedo, de ouvir os pais dizerem “na sua idade eu já trabalhava de …”. Seja faxineiro, engraxate, vendedor. A geração dos nossos pais começou a trabalhar cedo, muitos nem contaram com o apoio dos próprios pais e muito cedo se lançaram no mercado de trabalho. Também casaram cedo. Para seus filhos, sempre explicaram que era preciso se especializar para ter um bom emprego. E esses filhos cresceram vendo que, quem concluiu um bom curso técnico ou uma universidade, conseguiu alcançar os mais singelos prêmios que qualquer pessoa simples (e não necessariamente pobre) deseja: casa própria, carro próprio, um emprego fixo e com essa estrutura, uma família.

Alguns pais até alcançaram mais coisas e levaram seus filhos Y para fazer intercâmbio fora, para passear e conhecer o mundo. E isso não faz desses filhos crianças mimadas. Fazem-nos mais experientes e com mais conhecimento de mundo.

Acontece que, o que seu pai X não previu, é que com todo mundo fazendo universidade e “criando espaço para um futuro muito melhor que seus pais”, não ia ter lugar para todo mundo.

A geração Y não está frustrada pois o mercado de trabalho lhe oferece apenas que “sejam apenas mais uma peça na engrenagem”. Sinceramente, se essa peça tivesse CTPS assinada, com a profissão de fato exercida, com o piso mínimo para a mesma, com os direitos basiquinhos de férias, 13º, VT, VR, e o mínimo de respeito e dignidade, me avisa onde está essa vaga, que eu e mais uns 20.000 da geração Y vamos nos degladiar para num torneio sangrento ter pelo menos 1 a obtê-la.

O nosso problema não é “cenário imediatista, anos de bonança e pais protetores” e nem uma busca “incompatível com a realidade”. As empresas não querem mais registrar (não sei no resto do Brasil, mas em SP o maior presente grego que a Y recebe é o PEJOTINHA 1500, que a princípio é um sonho de independência, mas na verdade é você pagando para trabalhar, para poder dizer a seus pais que você tem um emprego). Não é imediatismo querer começar a trabalhar com a função para a qual você se formou. Jornalista e não “assistente de redação”. Arquiteto e não “cadista”. Advogado e não “assistente jurídico”. Para quem desconhece o cenário, desta forma muitas empresas se safam de nos pagar o piso salarial do cargo ocupado e efetivamente exercido.

Sobre nós millennials, dizem muito que ficamos imaginando o legado como algo imediato. Bom, para a geração anterior, CTPS assinada era requisito mínimo para o trabalho. Hoje em dia, a CTPS é mais um “prêmio a ser alcançado”, um “legado” que nós, imediatistas demais, queremos. Aparentemente, os direitos trabalhistas são um prêmio que você conseguirá alcançar se provar merecê-lo. Ou nem isso mais, né? A onda agora é “você quer ter algo na vida, o jeito é empreender”.

Nas notícias vemos que a geração Y prefere pagar aluguel, mas vai comprar casa com que grana? Legalizaram o mercado de venda de órgãos?

Para a Folha, o Mário Sérgio Cortella disse umas asneiras: “Parte da nova geração chega nas empresas mal educada… Não tem noção de hierarquia, de metas e prazos e acha que você é o pai dela”. Olha, talvez cheguemos às empresas menos subservientes do que eles esperavam e aguentando sim muito menos que nossos pais aguentaram. Pois nos levantamos para falar de direitos humanos, pois chefe nenhum deve cometer abuso físico e/ou psicológico e/ou sexual. Se você é pejotinha 1500, chega na empresa e o chefe grita com você e te humilha na frente de todos, indo embora, o que você tem mesmo a perder? Ao contrário dos nossos pais, não temos casa financiada (com 1500 você não financia nem um playstation).

Não é novidade que uma geração de pessoas que faz direito e acaba abrindo quiosque de paleta mexicana não sabe de onde veio e para onde vai. Nossos pais estavam muito mais estáveis que nós na nossa idade. O mercado de trabalho era um bondinho com assentos para todos, você se aposentava no seu primeiro emprego. Hoje o mercado de trabalho é o trem da CPTM, demora a chegar, quando chega está lotado, a porta prende seu cabelo, alguém passa a mão na sua bunda enquanto você não consegue respirar e se você quer desistir do trem, você é um mimado. Mimado por querer o mínimo de dignidade.

Acredito que hoje estamos querendo mais ou menos o que nossos pais queriam mesmo. Não é toda uma geração de fracassos profissionais, mas precisaria de uma pesquisa pra dizer quantos profissionais de fato se inseriram no mercado (e eu não me assustaria de saber que 2% das pessoas que se graduam obtém emprego fixo na área).

Acreditem, essa geração gostaria demais de ficar até às 23h no serviço, se isso significasse pagamento de hora extra + adicional noturno + transporte para casa em segurança. Mas somos mimados, porque não queremos fazer isso em troca de algumas folgas, não marcadas nem assinadas, que nunca serão descontadas…

Malditos millennials que somos, só queremos dignidade, respeito e uma chance, tudo no mesmo pacote.