Um aborto?

Li outro dia um texto de uma moça que eu considero bem inteligente e que tem umas colocações bacanas a respeito de diversos assuntos, não obstante, levei um tropeço ao ver as coisas que ela disse sobre o assunto (também não vou deixar de ler só porque discordei dela).

Os textos que tentam focar na importância da vida da mulher, no quão negligente a extrema-direita é com o pobre, o favelado, o sem estudo e sem oportunidade e que um filho não desejado pode acabar tendo um destino desses tinha o objetivo de discutir com palavras-chave. Tinha o intuito de chocar essas pessoas que não conseguem reconhecer que um batedor de carteira, um mendigo, uma vendedora de chicletes de 12 anos, não brotam do chão. É necessária toda uma desestrutura familiar (aquela família tradicional pela qual tanto zelam) para que uma pessoa culmine em situação semelhante.

Tem exceção? É óbvio que tem e querer apontar a exceção como regra tem mais a ver com a incapacidade de uma pessoa de entender e se informar sobre o mundo à sua volta, do que com a minha de satisfazer os argumentos desse tipo de pessoa. (um parágrafo escrito para discutidores de internet em geral, e não dentro do que acho que a moça precise saber)

Voltando: você pode ser contra o aborto e também ser contra a onda abusiva de mortes de negros e/ou pobres, pela PM e por outros civis? Olha, que bom que a frase “bandido bom é bandido morto” não satisfaz suas expectativas de uma sociedade justa. Isso é ótimo, mas entendê-la por si próprio não traz qualquer benefício à luta das mulheres pela autonomia com seu corpo.

“A rica já aborta, quem aborta em açougue e morre é a pobre”. Sinceramente, que bom que algumas mulheres se veem perante esse cenário e conseguem resolvê-lo. A questão não é puxar a régua pra baixo e fazer padrão “errado” de alguém ser o direito de todos.

A questão é sobre bebê chorando com fome, sobre moças parando a faculdade e a luta pelo futuro. Amparadas pela família e pelo pai, sozinhas, de nenhuma forma a missão de ser mãe paralisa. É sobre você criar uma criança com um “pesar” do dever. De que você “tem” que fazer isso.

A rejeição pela mãe e/ou pelo pai traz severos problemas psicológicos que deixam a pessoa passando uma vida se tratando por isso (novamente, há exceções, mas eu não gostaria de confiar nas exceções pra submeter uma criança não desejada a uma vida não planejada, em que ela sempre tem a ideia de que tudo está errado e que talvez chegue aos 40 sem entender o que está tão errado).

Eu como feminista e pró-aborto, não creio que a liberação vai trazer qualquer banalização (o sistema de saúde é segmentado, realiza triagens, aconselhamento psicológico, dificulta até moças que por lei têm direito à esterilização a obterem tal direito). O SUS coloca silicone e talvez muitos dos que lêem esse texto nem sabem. Isso, coloca silicone, não necessariamente em mulheres que fizeram mastectomia e perderam os seios. Não, ele coloca silicone pra fins estéticos também. E não é nada contra a lei.

Não é sobre banalização, sobre “matar os bebês”, pois ninguém está matando os bebês ao eliminar as células responsáveis pela fecundação todos os meses, todos esses anos, todo dia. Também não é sobre odiar os bebês, acredito que a maternidade é uma baita missão que muitas pessoas nobres encaram todos os dias, que traz momentos milagrosos e lindos e dá às pessoas companhia singular para toda a vida. É um presente, é uma bênção.

Estamos falando sobre a mulher não ser penalizada pela maternidade compulsória, visto que o útero está na mulher, quando ocorre abandono, recai sobre a própria essa missão, como a missão do Frodo, sem nunca perguntarem pro Frodo se ok, se está beleza largar sua vida tranquila pra dar a vida por um “bem maior”.

Quem não está preparado, não se sente preparado, não quer se acorrentar a essa missão, não vai ler mil livros sobre posições para o bebê dormir bem, não vai picar as frutas pequenininho e oferecer uma diferente todo dia, não vai amamentar com amor vai acabar fazendo alguém pelas metades. Até na amamentação e no parto normal o bebê é beneficiado imunologicamente pela mãe. Vai ser uma pessoa mais forte (a microbiota vaginal fortalece a microbiota que se formará na criança e que pode definir muita coisa em sua vida, até seu peso). A cada sorriso da mãe e do pai, vai ganhar confiança, vai acreditar que pode fazer tudo, que pode estudar, conseguir uma carreira, um lugar. E cada detalhe desse para quem não o teve faz falta.

Não dar a luz a pessoas que não possuem ninguém disposto a criá-los, em um mundo difícil, duro, violento, competitivo como esse, também é um presente.

E esse presente pode permitir a alguém que obtenha alguma oportunidade, chance, de prosseguir na vida e quem sabe em um momento mais okay, também ser mãe.

A mulher não deve ser penalizada por fazer sexo, por querer sexo, por gostar de sexo. Os métodos contraceptivos não são 100% eficazes, inclusive a pílula do dia seguinte. A gravidez pode ser um processo bem difícil para muitas mulheres. Difícil fisicamente, dores, desmaios, dificuldades extremas, risco de morte. Por isso eu sou a favor de não penalizarmos a mulher por um zigoto, um embrião fecundado. E nem de penalizarmos uma futura pessoa em uma vida difícil (seja fisica, econômica, psicológica, socialmente). Ninguém deve ser penalizado por esse discurso “pró-vida” de alicerces bambos.

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