Você não precisa ser foda

Veridiem
Veridiem
Sep 3, 2018 · 3 min read

Quando você está aprendendo sobre si, sobre quem é você, quem você quer que as pessoas vejam dessa pessoa, como você se sente, os feedbacks que recebe disso, é tudo muito confuso. E algumas pessoas, principalmente eu, acabaram caindo na situação de tentar ser o que acha bastante impactante. Então é aquela tentativa, tentativa de ser mais bonita (e não de se sentir melhor consigo mesma), de ser mais interessante, de ser foda, de causar impacto, de impressionar as pessoas. Sejam elas flertes ou potenciais amizades. E claro, em alguns momentos você tropeça em si mesmo, pois você está tentando ser algo que não é, se esforça demais e talvez nem obtenha ali um resultado agradável.

E não estou falando de algo fake. Estou falando de você se inflar em si mesmo e tentar falar dos assuntos mais interessantes que você conhece, tentar estar o mais atraente possível, o mais descolado possível. Não é algo ridículo para quem não te conhece, nem você se sente ridículo. Mas você tenta aquela mútua troca de interesses maravilhosos, de mostrar o quão formidável você é.

Em algum momento, depois de tantas experiências nas relações humanas e sociais, você pode cair na mesma conclusão em que eu caí: não precisa se esforçar tanto. Não precisa tentar tanto. Pode ser tranquilo, pode aproveitar o suave, pode navegar na despretensão. Sem medo de parecer meio burra, meio desleixada, meio qualquer coisa que você se policia tanto para não ser. Sem precisar ter opinião sobre tudo ou mostrar sempre seus conhecimentos. Se está em um momento propício para aquilo, okay, mas não precisa se sentir professor, ser o palestrinha do role.

É leve, é esvoaçante você perceber que não precisa ser foda. Não precisa ser fantástico, não precisa causar, mitar, marcar, ser intenso. Você pode ocasionalmente ser, mas você não precisa. E se alguém não se interessa em se reter em você (de quaisquer formas) por seu descompromisso em agir como se qualquer novo encontro social fosse uma entrevista numa grande multinacional, você pode deixar a pessoa ir. Você não precisa ter as histórias mais engraçadas, a roupa mais fantástica, o emprego mais interessante, ou fazer aquelas coisas de adolescente, como virar uma bebida de uma vez, quaisquer coisas em que você prova para o grupo que você merece estar lá. Você já merece estar lá. A despretensão é avassaladora para quem sempre achou que tudo na vida era sobre marcar as pessoas e ser inesquecível. Inclusive grandes relações podem surgir de interações despretensiosas. Enquanto a gente mais se despreocupa em impressionar, mas somos mais crus, mais reais, mais sinceros e laços fortes podem ser formados aí.

Não existe um guia do que fazer para cada dia ser mais suave, para se introduzir como um vinho, que primeiro vem com seu aroma, depois sua visibilidade e só depois traz um sabor que então te marca. Não tem esse guia, e também não se trata de ser grosseiro com as pessoas, fingir não se importar ou ser fechado e taciturno. Trata-se apenas de ir notando que não existem obrigatoriedades, tudo pode ser mais lento, pode ser sem pressa. E todo mundo pode subir e pode descer desse bonde quando achar conveniente e se quiser também pode voltar.

Ser suave também não é ser descomprometido, sem laços, sem carinho. Não é um carinha de ukulele que quer te seduzir pra cabana dele na praia, te “amar” intensamente até a manhã e depois você notar que nem sabia o nome dele. Ser suave é ser mais do seu jeito, se importar mas sem cobrar, ser atencioso mas sem excesso de zelo, parar de fazer listinha de coisas que você não admite em um futuro amigo/a ou namorado/a. Parar de se fechar para possibilidades e de se armar. Parar de achar que seres humanos são de uma objetividade maior que a subjetividade.

Quando a gente é muito jovem a gente demora, quebra a cabeça, mas uma hora também aprende. E percebe que não precisa dessa sedução inicial para cativar as pessoas. Está bom só estar lá e aceitar se misturar, saber de tudo, aprender algo novo. E se vierem lucros nessa empreitada, aproveitá-los, sem desesperar pelos dias de prejuízo também.

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It’s so dangerous to wake a deep sleeper