Samanta Schweblin: uma voz jovem na Argentina contemporânea

“São como vermes.
Que tipo de verme?
Vermes, em todo lugar.
Quem fala é o menino, vai me dizendo as palavras ao ouvido. Quem pergunta sou eu. Vermes no corpo?
Sim, no corpo.
Vermes como minhocas?
Não, outro tipo de verme.
Está escuro e não consigo enxergar. Os lençóis são ásperos, enrugam-se debaixo de meu corpo. Não consigo me mexer, digo.
Sobre os vermes. A gente precisa ser paciente e esperar. E enquanto espera precisa encontrar o ponto exato onde nascem os vermes” (SCHWEBLIN, P.9, 2014).

É com esse trecho que Samanta Schweblin inicia seu primeiro romance, o suspense Distância de Resgate. Na história, os personagens buscam descobrir o momento exato em que uma ação deflagrou uma tragédia. Afinal, “existe por acaso algum apocalipse que não seja pessoal” (orelha do livro)?

A hipnótica narrativa usa elementos fantásticos em meio a situações cotidianas, criando uma espécie de aproximação com o leitor. Ao longo de 143 páginas, personagens e leitores parecem se unir para resolver um grande mistério, cujas respostas são dadas apenas no último parágrafo.

Publicado em 2014, o romance confirma o sucesso de Schweblin, que, em 2002, recebeu os prêmios Haroldo Conti e Fondo Nacional de las Artes por seu livro de estreia, El Núcleo del Distubio. Em 2010, ao lançar Pássaros na Boca,foi agraciada com o Prêmio Casa de las Américas. Com Distância de Resgate, a autora ganhou o Prêmio Tigre Juan, consagrando-se como uma das das promissoras escritoras da literatura contemporânea.

Trajetória de Samanta Schweblin

Nascida em 1978, Schweblin formou-se em cinema e fundou uma agência de design. Seu primeiro plano sempre foi escrever, mas, para isso, precisava de algo capaz de gerar retorno financeiro. No entanto, quando começou a sentir que o trabalho consumia o tempo dedicado às narrativas, resolveu mudar de vida. Deixou a empresa para os colaboradores e concentrou-se na literatura.

Passou a receber convites para ser bolsista em diversas instituições. Com isso, morou em diversos países, como México, Itália, China e Alemanha. Em 2012, em entrevista para o jornal Estadão, definia-se como uma escritora de contos. Na época, dizia que ainda não havia encontrado uma ideia interessante para um texto mais longo.

O contato com a área de audiovisual foi importante para a formação da sua percepção. Seus textos são bastante visuais e ágeis sem perder a profundidade. Grande admiradora de Adolfo Bioy Casares, ela acredita que as narrativas devem ser complementadas na cabeça dos leitores. Isso não significa finais abertos. Ao contrário, para Samanta, é preciso ter algum controle sobre o texto ao mesmo tempo em que o leitor tira suas próprias conclusões sobre o enredo.

Em suas obras, sempre existe um elemento perturbador. Para ela, é impossível escrever sem isso. E, mesmo que suas histórias tenham algumas situações fantásticas, ela discorda de quem a considera uma autora do realismo fantástico. Em sua concepção, suas histórias são realistas, embora estejam centradas em situações anormais. Suas inspirações, inclusive, estão em fatos corriqueiros, como a ida dos amigos a um bar ou um homem perdendo sua carteira.

Atualmente, Samanta Schweblin foi traduzida para mais de 20 línguas. Ela também foi nomeada como “um dos melhores jovens narradores em espanhol” pela revista GRANTA.